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O Chile visto do Luxemburgo. "Há gente a morrer porque exige melhores condições de vida"
Mundo 7 min. 28.11.2019

O Chile visto do Luxemburgo. "Há gente a morrer porque exige melhores condições de vida"

O Chile visto do Luxemburgo. "Há gente a morrer porque exige melhores condições de vida"

Foto: AFP
Mundo 7 min. 28.11.2019

O Chile visto do Luxemburgo. "Há gente a morrer porque exige melhores condições de vida"

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
No Luxemburgo há 43 anos, Verónica fugiu da ditadura militar no Chile. A quilómetros de distância não vê diferença entre Sebastián Piñera e Augusto Pinochet. Há praticamente dois meses nas ruas, os chilenos continuam a exigir o "direito de viver em paz".

Só tinha oito anos quando chegou ao Grão-Ducado com a família. Não esquece o dia em que os militares mataram o cão da família antes de lhe invadirem a casa "com aquelas metralhadoras". Filha de um guarda-costas de Salvador Allende, Verónica Madariaga chegou à Europa com a roupa que tinha no corpo "sem saber pronunciar uma única palavra em francês", três anos depois do golpe de estado que afastou a Unidad Popular do Palácio de la Moneda.

É a mais nova dos quatro irmãos. Em 1976 tornaram-se, com os pais, nos primeiros refugiados políticos chilenos acolhidos no Luxemburgo ao abrigo do Decreto 504° da ditadura militar de Augusto Pinochet. 43 anos depois estão cá todos, à exceção de um irmão que "morreu do coração".

Assistem com apreensão à "guerra" que há mais de um mês voltou a enfileirar os militares nas ruas do país. Nenhum ousa contar ao pai que o país "está novamente em estado de sítio". Jose Luis Madariaga está internado numa clínica. Tem Alzheimer. Não são raras as vezes que confunde as amarras da cama de hospital à tortura com choques elétricos a que foi submetido durante três anos. "Pensa que a clínica é uma prisão e que os enfermeiros são militares. Às vezes acorda aquela gente toda aos gritos", conta Verónica. "Querem matar-me. Soltem-me. Eu não aguento mais tortura", imita os gritos do antigo guarda-costas que, antes da perda de memória, fez questão de imortalizar a história no livro editado em castelhano Tal Como Soy, La Historia de Muchos.

Estado de sítio

Empregada de limpeza, como a mãe, Verónica é confrontada diariamente com os relatos das dezenas de primos e tios que deixou entre Santiago do Chile e Santa Cruz. "São eles que mantêm atualizada. Eles e as redes sociais porque parece que a comunicação social não está muito interessada no assunto", lamenta. "Estão a matar inocentes. Estão a levar crianças presas. Estudantes, miúdos e gente mais velha. O que eu vejo é horrível. Reprimem manifestações. As pessoas escondem-se atrás de máquinas de lavar e de tudo o que encontram para que não as matem. Há gente a morrer porque exige melhores condições de vida".

Nas ruas desde a primeira semana de outubro, a revolta popular que começou para impedir o vigésimo aumento do preço dos bilhetes do metro só este ano, "pôs a nu", diz, "a verdadeira realidade do país". As estatísticas oficias mostram que uma viagem de ida e volta no transporte subterrâneo absorve 16% do salário médio da população que não ultrapassa os 490 euros por mês.

"A guerra não começou agora. A guerra começa quando há pessoas a morrer à porta dos hospitais porque não têm dinheiro para ser atendidas. A guerra começa quando as crianças são obrigadas a vender na rua porque as famílias não têm dinheiro para pôr comida na mesa. A guerra começa quando há os ricos que têm tudo e a maioria da população que não tem nada", sublinha a chilena que responsabiliza a herança das privatizações desenhadas na década de 70 na Saúde, na Educação, na Segurança Social e, "até na água e na luz" pela explosão social no terceiro país mais desigual dos 36 que compõe a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), superado apenas pela Costa Rica e pela Àfrica do Sul.

Mais de 27% da riqueza está nas mãos de 1% da população. Os dados da Comissão Económica da América Latina não surpreendem Verónica que, a quilómetros de distância, compara o governo do conservador Sebastián Piñera ao do ditador que se manteve no poder até 1990. "Aquilo que estão a fazer agora não é muito diferente da repressão que me obrigou a mim e à minha família a abandonar o nosso país. Matam, roubam, queimam os pertences das pessoas. Entram pela casa delas e queimam, roubam, destroem tudo. Matam e violam as mulheres. São eles. São os mesmo militares que aprenderam com Pinochet", denuncia sem conseguir conter as lágrimas que escorrem, grossas, pelo rosto abaixo.

Balas reais

Desde o início dos protestos que abalaram o "oásis da América Latina" que o chefe de Estado elogiava dias antes da explosão social, morreram pelo menos 22 chilenos.

O Instituto Nacional de Direitos Humanos fala em mais de dois mil feridos. Cerca de 280 pessoas ficaram cegas, vítimas dos disparos com as balas de borracha que um estudo da Universidade do Chile veio comprovar serem, afinal, compostas maioritariamente – 80% – por chumbo, silício e sulfato de bário.

A revelação do departamento de Engenharia Mecânica da faculdade obrigou o governo a rever a estratégia. O comissário da polícia, Mario Rosas, veio a público suspender o uso de armas de ar comprido contra os manifestantes. Confrontado com os avisos das Nações Unidas, que vieram criticar o "uso excessivo da força contra os manifestantes", o próprio Sebastián Piñera condenou os "abusos" e garantiu à BBC que "não haverá impunidade".

Do lado de cá, Verónica Madariaga, condena o que considera uma "interferência tardia" da também chilena e Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet. "Ela não fala porque ela está ameaçada. Se falar, matam-na como fizeram com o nosso Presidente Salvador Allende. Não quer falar. Tem medo. Fala dos outros países porque pode. Mas eu às vezes pergunto-me porque é que ela vai à Venezuela e ao Brasil e não fala do Chile, que está tão mal. Ela também tem de nos defender. O Chile precisa de proteção. A guerra que esta a acontecer tem de parar, tem de acabar", diz a propósito da mulher que governou o Chile por duas vezes, entre 2006 e 2010 e de 2014 a 2018.

Ferro e Fogo

No país que transferiu a final da Taça dos Libertadores para Lima, no Peru, e não recebeu nem o Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico nem a Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a popularidade do Presidente cai a pique.

O governo de Piñera bateu um recorde de impopularidade desde o regresso do país à democracia com 12% de apoio. Nem as medidas sociais promovidas neste mais de 40 dias de emergência social, nem a proposta de uma nova Constituição conseguiram restabelecer a ordem pública.

Este domingo, o chefe de Estado voltou a pedir um "acordo pela paz, pela democracia e contra a violência" que "una" não só o parlamento como as autoridades e os cidadãos. Comprometeu-se a tirar perto de 4500 militares da rua no próximo mês, numa altura em que o instituto de estatística chileno, Cadem, mostra que 67% da população apoia as manifestações e as barricadas que mantêm o país a ferro e fogo.

Véronica não foi inquirida mas assume, convicta, que também sairia à rua para honrar a memória do pai e da família. "Se eu estivesse no Chile, se subisse a um palanque para falar ao meu povo. convocava-o a salvar o nosso país. Salvar o país desta política de fome. A não baixar os braços perante as injustiças. A mantê-los lá no alto, bem alto hasta el final", garante com o punho em riste e a outra mão em cima do livro escrito pelo guarda-costas Jose Luis Madariaga que trouxe para acompanhar a entrevista que concedeu ao Contacto, "para preservar a memória nos momentos de maior angústia".