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O caso das irmãs que mataram o pai abusador agita a Rússia
Mundo 3 min. 15.07.2019

O caso das irmãs que mataram o pai abusador agita a Rússia

O caso das irmãs que mataram o pai abusador agita a Rússia

Foto: AFP
Mundo 3 min. 15.07.2019

O caso das irmãs que mataram o pai abusador agita a Rússia

O processo contra as três jovens Khachaturian destapa uma vida de agressões físicas e sexuais e mobiliza russos contra a violência de género.

Durante anos, foram vítimas de violência. Numa tarde de verão, Mikhail Khachaturian chegou a casa, em Moscovo, e ficou furioso porque achou que a sala estava desarrumada. Tinha até visto um cabelo no chão. A raiva já vinha de outros dias. Chamou as filhas à vez e atirou-lhes spray pimenta à cara. Depois, foi dormir uma sesta. Mas as raparigas de 17, 18 e 19 anos não aguentaram mais e esperaram que o homem de 57 anos adormecesse. Então, agrediram-no com um martelo e uma faca de cozinha, de acordo com o Ministério Público. Mikhail acordou e atacou-as até que uma delas o esfaqueou.

Precisamente um ano depois, Krestina, Angelina e Maria enfrentam a possibilidade de cumprir penas de até 20 anos de prisão pela acusação de homicídio voluntário. Contudo, o caso destapou também o pesadelo a que estiveram sujeitas durante vários anos. “Estavam aterrorizadas. Viviam praticamente como escravas, numa atmosfera irrespirável e temiam pela vida”, assinalou um dos seus advogados, Alexei Lipster, que alega que as jovens agiram em legítima defesa.

Num caso que está a dar que falar na Rússia, o tema trouxe à tona a incapacidade das autoridades de resolver a enorme quantidade de casos de violência doméstica no país. De acordo com um estudo de 2012 do Ministério russo da Administração Interna, cerca de 600 mil mulheres são vítimas de violência em cada ano e entre 12 mil e 14 mil são assassinadas pelos seus companheiros ou familiares. Uma a cada 40 minutos. São números próximos dos dados publicados pelo relatório da ONU em 2010.

A história de Krestina, Angelina e Maria não só ajudou a denunciar esta violenta realidade como está a mobilizar a sociedade. Milhares de pessoas mostraram o seu apoio às três raparigas, incluindo atrizes, youtubers famosos e até a defensora de direitos humanos do Kremlin. Uma petição na internet já reuniu quase 300 mil assinaturas e desencadeou-se uma cadeia de apoio nas redes sociais.

Em 2017, o governo russo despenalizou alguns casos de agressão dentro da família. Uma reforma legal aprovada depois de uma dura campanha da igreja ortodoxa e dos deputados mais conservadores, que se opunham, inclusive, ao termo “violência na família” uma vez que consideravam que era produto das “ideias do feminismo radical” destinado a “perseguir” os homens.

Agora, segundo a legislação russa, uma primeira agressão sem sequelas graves é apenas um delito administrativo castigado com 15 dias de prisão e cerca de 400 euros de multa. Um segundo delito deste tipo no mesmo ano não vai além de uma multa de 500 euros e três meses de prisão ou 240 horas de trabalho comunitário.

Aurelia Dunduc, mãe das três jovens, denunciou várias vezes à polícia as agressões e as humilhações que sofria às mãos do marido. “Não fizeram nada. Guardaram a denúncia e disseram-me para sair por onde tinha vindo”, afirmou, citada pelo El País. Acompanhada por uma amiga garante que o companheiro tinha ligações à polícia e ao Ministério Público distrital. Dunduc, moldava, recordou que o esposo lhe começou a bater pouco depois do casamento. Ela tinha, então, 19 anos e ele 37.

Victoria Kuropatkina, amiga íntima de Krestina, revelou que conhecia parte dos abusos mas que estava proibida pela jovem de fazer qualquer denúncia à polícia por temer as consequências. Angelina, Krestina e Mariam eram raparigas tímidas e muito estudiosas. Dunduc relatou que a mais nova gosta muito de cinema, que Angelina gosta de passear com as amigas e que Kristina, a mais velha, é muito boa em matemática e que sonhava com estudar contabilidade. Mas as jovens tinham deixado de ir à escola secundária porque o pai não as deixava sair de casa. Nem a tentativa de suícidio de Krestina, desencadeado por uma agressão sexual provocou uma reação das autoridades. Na sexta-feira passada, o Ministério Público abriu uma investigação contra o falecido Khachaturian por alegados abusos, o que pode inverter o caso. Krestina, Angelina e Maria saíram em liberdade sob caução mas estão isoladas. Não podem comunicar-se entre si nem com as testemunhas ou com a imprensa. “Seja no banco do tribunal ou isoladas em casa, dizem que ao menos agora não são torturadas nem espancadas”, afirmou o advogado.

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