Escolha as suas informações

O Brexit eterno
Editorial Mundo 3 min. 26.10.2019

O Brexit eterno

O Brexit eterno

Foto: dpa
Editorial Mundo 3 min. 26.10.2019

O Brexit eterno

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O Brexit vai acabar por fazer-se formalmente, mas a dúvida inglesa sobre a “questão europeia” não vai desaparecer. Pelo contrário, é bem capaz de se agudizar

No passado sábado aconteceu uma manifestação impressionante em Londres a propósito do Brexit. A frase anterior ameaça tornar-se intemporal, pois podia ter sido escrita em qualquer altura dos últimos anos. No entanto, desta vez foi diferente: diferente pela sua enorme escala – foi sem dúvida a maior dos últimos 15 anos, com cerca de 1 milhão de pessoas na rua – mas também diferente por decorrer ao mesmo tempo que, no parlamento de Westminster, os deputados podiam ter aprovado a mais recente versão do famigerado acordo de saída, dando assim uma essencial luz verde a que o dia 31 de Outubro fosse o último do Reino Unido como membro da União Europeia.

Não aconteceu. Os deputados obrigaram Boris Johnson, o homem que “preferia estar morto numa valeta a pedir outro adiamento”, a pedir outro adiamento. Embora este tenha sido prontamente concedido pela UE (até 31 de Janeiro de 2020), talvez não venha a ser utilizado. Qual série televisiva de sucesso que, ao fim de alguns anos, não sabe mais que truques inventar no enredo de forma a manter os espectadores interessados, o que vai acontecer com o Brexit é ainda um segredo bastante bem guardado. No momento em que escrevo, qualquer uma destas hipóteses tem possibilidades reais: na próxima semana, o Reino Unido sai sem acordo; ou então sai após um acordo ter sido aceite, já em tempo de descontos, pelos parlamentos britânico e europeu; ou o adiamento de três meses entra em vigor. E neste último caso, abre-se outro nível de cenários, como um segundo referendo, ou eleições gerais que deem a vitória a uma maioria que queira manter-se na Europa. Quem sabe.

O que sabemos de forma cada vez mais clara é que o Brexit não se vai resolver nos próximos dias, nem nos próximos meses, e nem nos próximos anos. A questão é demasiado importante e totalmente divisiva: (mais de) metade do país nunca vai perdoar as mentiras em que se baseou o referendo, e o atentado ao futuro das gerações mais novas. O Brexit vai acabar por fazer-se formalmente, mas a dúvida sobre se a Inglaterra pertence ou não à Europa não vai desaparecer. Pelo contrário, é bem capaz de se agudizar.

A grande manifestação de sábado tinha como objectivo obter a realização de um segundo referendo, pelo menos para que, qualquer que seja o acordo forçado pelos conservadores, ele seja confirmado pela população. Um repórter da Sky News interpelou uma mulher que, junto com a sua filha, integrava a marcha: “quer outro referendo porque perdeu o primeiro. Mas então vamos continuar a votar até obter o resultado que quer?”. A mulher respondeu calmamente: “Devemos deixar de ter eleições? Devemos deixar de jogar Mundiais de futebol? A democracia é um processo, não um evento único; aconteceu e continua a acontecer. Hoje sabemos mais que sabíamos na altura. As pessoas não deviam respeitar um voto baseado em mentiras, mas sim querer um voto em que se sintam informadas. Como agora”.

Esta cidadã anónima foi lapidar, é difícil estar mais certo do que ela está. O referendo sobre o Brexit aconteceu há três anos e meio. É extraordinário pensar que se o referendo fosse hoje, mesmo que ninguém tivesse mudado o sentido do seu voto, a opção “Ficar” venceria (porque entretanto já muitos idosos que votaram para sair faleceram, enquanto muitos adolescentes, na sua grande maioria a favor da UE, completaram 18 anos e poderiam votar). E isto era se ninguém tivesse mudado de sentido de voto… Esta maioria da população não vai desistir da causa: a “questão europeia”, em vez de enterrada, vai continuar premente.

Há simetria: se um improvável segundo referendo resultasse numa improvabilíssima reversão de rumo e o Reino Unido, afinal, permanecesse na UE, a metade nacionalista nunca o aceitaria, o tema envenenaria todas as conversas, a paralisia tornar-se-ia permanente. O Brexit é um estado eterno: a Velha Albion estava dentro da Europa a olhar para fora, e em breve voltará à casa de partida, de fora a olhar para dentro. Até que, talvez em uma década, tudo volte a mudar.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas