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O Brasil e os seus demónios
Mundo 1 10 min. 08.10.2018 Do nosso arquivo online

O Brasil e os seus demónios

O Brasil e os seus demónios

Foto: AFP
Mundo 1 10 min. 08.10.2018 Do nosso arquivo online

O Brasil e os seus demónios

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Depois da guerra vem mais guerra. No dia 28 de outubro vamos saber quem sobreviveu. O que já é certo é que o Brasil foi contaminado com o espírito do tempo multiplicado pelos seus diabos caseiros.

Os cabelos estavam presos e a camisa amarela desalinhada, quase totalmente desapertada na zona do peito, nesta noite de 4 de abril de 2016, em que Dilma Rousseff caía. A jurista Janaína Paschoal, 41 anos, começava um discurso em crescendo, na Faculdade de Direito da USP. As palavras iam-se transformando em gritos, quando começa a fazer girar no ar uma bandeira do Brasil, enquanto sussurra, quase uivando, com os cabelos despenteados ao vento, que o país não é uma “República de Cobras”.

Janaína, que afirma ser espírita, tem atribuído a forças superiores o facto de ter conhecido o diabo, o cornudo ou o bicudo. Na sua lenga-lenga, perante os estudantes de Direito, garante que “Deus manda uma legião para cortar as asas da cobra”, em referência a Lula. O 'impeachment' que ela levou à câmara dos deputados triunfou. Meses antes dessa vitória, a advogada de São Paulo fez benzer o pedido para destituir a presidente Dilma Rousseff a um padre amigo da família.

No dia 7 de outubro de 2018, assistiu-se à maior vitória eleitoral da direita no Brasil desde o tempo da ditadura. O ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro obteve quase 50 milhões de votos. O seu partido, que na última legislatura só tinha eleito um deputado, elegeu nesse dia uma bancada de 50 representantes, a segunda maior do parlamento brasileiro. Entre os eleitos, encontra-se o seu filho Eduardo Bolsonaro, eleito com mais de 1,8 milhões de votos, e da jurista histriónica que consegue ser a deputada mais votada na história do Brasil, com 1.965.568 votos de sufrágios.

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Segundo os resultados definitivos da primeira volta, Jair Bolsonaro obteve 46,06% dos votos, contra 29,24% de Fernando Haddad do PT. Como sempre, depois de 1989, as eleições vão jogar-se entre o PT e os outros, mas desta vez o par mais habitual do confronto, o PSDB, quase desapareceu do terreno eleitoral.

"Houve uma mudança conservadora no Brasil porque o eleitor médio mudou. Nos governos do PT-PMDB, ele era de centro esquerda. Agora, virou para a centro-direita e queria ver caras novas. Quem falou contra o sistema, quem pregou mudanças e teve Bolsonaro como cabo eleitoral, obteve sucesso", avaliou o cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB), ao diário brasileiro Estadão (Estado de São Paulo).

De tal forma que a possibilidade de uma viragem na segunda volta das eleições brasileiras, a 28 de outubro, parece muito improvável, pelo menos se tivermos em conta o histórico de todas as eleições presidenciais realizadas no Brasil: nunca um candidato que venceu na primeira volta acabou derrotado na segunda. Jair Bolsonaro tem cerca de 18 milhões de votos de vantagem sobre Fernando Haddad. Como dizia com alguma graça um jornalista da revista piauí, “ficou a um João Amoedo (candidato do Partido Novo) e meio de ser eleito presidente da República no primeiro turno [primeira volta]”.

A campanha que se segue será previsivelmente mais violenta: “Bolsonaro vai conduzir o debate para o terreno da moralidade e vai recitar o seu discurso anti-corrupção, anti-sistema. Não vai querer discutir propostas e programas concretos, mas transformar as eleições num plebiscito anti-PT”, defende Adriano Codato, professor da Universidade do Paraná, ao site Mediapart.

“A mensagem aos eleitores é clara: eles têm raiva e querem mudar as coisas”, acrescenta Maurício Santoro, professor da Universidade do Rio de Janeiro, ao mesmo site.

Na emissão radiofónica da revista piauí, “Foro da Teresinha”, entre os vários intervenientes da noite eleitoral, falaram os estudantes Luís Guilherme e Raquel Stefani, ambos pobres e negros, mas com escolhas políticas opostas. “Vejo em Bolsonaro uma pessoa de bem que pode minimizar os problemas no Brasil. Algumas ideias dele eu comungo, outras não, e não acho que ele seja uma ameaça à democracia”, disse Luís Guilherme, justificando o seu apoio ao ex-capitão. Por seu lado, Raquel Stefani contou como seus pais mudaram o voto de Lula para Bolsonaro depois da desilusão que tiveram com o processo Lava-Jato. “Eles são de uma época em que político não era preso; desde que começaram a prender, eles ficaram extremamente decepcionados.” Isso levou-a a distanciar-se da própria família: “Fico com medo de Bolsonaro, porque o que ele diz me afecta directamente. Ele é uma pessoa que não respeita as diferenças”.

Esta dinâmica profundamente autoritária de Jair Bolsonaro também causa preocupação ao cientista político César Benjamin, que participou na emissão da piauí: “Temo que um governo dele seja pior que o governo militar”, disse. Concluindo, “há ao seu lado uma mobilização de grupos, de massas, que o regime militar não tinha. Uma vez que ele chegue à presidência, um fazendeiro do Pará pode entender como recado que está na hora de soltar os jagunços, um polícia que participa de um grupo de extermínio que está na hora de ir mais longe”. Isto sem nenhum contra-poder e controlo por parte das instituições existentes. “O sistema vigente desde os anos 80, especialmente desde a Constituição de 1988, já não funciona mais”.

A erupção de Bolsonaro na política brasileira não aparece sozinha: ela traduz com as cores do Brasil uma espécie de espírito do tempo. Como escreve no Público o historiador português Manuel Loff, “Trump foi eleito presidente da maior economia e do maior arsenal de armas do mundo. A extrema-direita tem 15%-25% dos votos em meia Europa e, só na UE, dirige ou participa em governos de coligação de dez países (da Itália e Bélgica à Hungria e Polónia)”.

Esta multiplicação de regimes crescentemente autoritários – a segunda em cerca de 100 anos – tem traços comuns com o alastrar dos fascismos nos anos 30, mas sem recorrer à estratégia do golpe de Estado armado. Mas “não há fascismo sem emergência, sem que a maioria da sociedade acredite que vive em estado de emergência – social e económica por causa de uma crise, securitária por causa daquilo que lhe explicam ser uma guerra (contra 'o terror', por exemplo, ou, como no Brasil, contra 'o crime'). É nesta emergência tornada permanente, e que parece não terminar nunca, que, ao mesmo tempo que se fragiliza ao extremo a vida dos mais pobres, dos sem poder, o Estado adopta medidas securitárias 'extraordinárias', concedendo poderes discricionários às polícias e aos serviços de informação, sem controlo judicial e democrático (tortura, invasão de domicílio, vigilância não autorizada...)”, conclui Manuel Loff.

Para a criação deste tipo de consenso, junta-se aos normais aparelhos ideológicos de Estado a existência de instrumentos de comunicação de tipo novo, como as redes sociais.

Como afirma o cientista político Miguel Lago, colunista do site piauí, o Brasil seria o primeiro país (com um certo exagero nacionalista da desgraça por parte do cientista) a entrar na “hiper-história”, um tempo em que as pessoas já não distinguem realidade de virtualidade, verdadeiro do falso. Segundo Lago, o candidato está relacionado com uma forma de populismo desenvolvido por meio das redes sociais, onde se formam vínculos sociais superficiais, mas se criam inimigos externos e internos comuns.

O fenómeno Bolsonaro, para o colunista, é uma encarnação do espírito do tempo.“Encarna uma extrema-direita meio palhaça, meio fascista, em um mundo que vive uma crise de representatividade.”

Foto: AFP

No seu livro genial “Corações Sujos”, o jornalista brasileiro Fernando Morais fala de um estranho episódio histórico acontecido no Brasil. Estávamos a 1 de Janeiro de 1946, o imperador japonês Hiroito anunciou que chegara o momento de “suportar o insuportável”, e depois de ter declarado a rendição do Japão, quatro meses antes, confessou que, ao contrário do que os japoneses pensavam, ele não era nenhuma divindade. Nessa mesma altura nascia em São Paulo a organização secreta japonesa Shindo Remnei (Liga do Caminho dos Súbditos). Para os seus seguidores, e para 80% dos japoneses que viviam no Brasil, a rendição do Japão era uma fraude orquestrada pela propaganda aliada. Tal como os japoneses perdidos no meio das ilhas do Pacífico, eles não aceitavam a derrota. A diferença é que os ilhéus estavam privados de informação, enquanto os japoneses do Brasil tinham acesso a ela.De Janeiro de 1946 a Fevereiro de 1947, os batalhões de assassinos da organização Shindo Remnei declaram guerra aos japoneses “traidores” que acreditam que o Japão perdeu a guerra. Matam 23 imigrantes e ferem mais de 150. A polícia brasileira, para desarticular a organização, é obrigada a prender mais de 30 mil imigrantes japoneses, condena 386 e deporta 80. A força política da organização é tal que nalgumas câmaras brasileiras são aprovadas moções a saudar a vitória do Império do Sol Nascente na guerra. A Shindo Remnei chegou a distribuir edições falsas da revista “Life” em que as fotos da rendição do Japão aparecem como se fossem da rendição dos Estados Unidos da América. Os homens do Shindo Remnei não podiam desconhecer os factos da rendição do Japão; no entanto não podiam acreditar neles.

Como se vê, as “fakes news” são muito anteriores à internet, ao Facebook, Tinder e demais redes sociais. Mas hoje a sua utilização é potenciada exponencialmente. Bolsonaro contou com uma rede de comunicação muito bem estruturada, usando de uma forma descomplexada falsas notícias, que os próprios difusores sabiam ser falsas, mas que funcionavam como verdadeiras.

Segundo o Mediapart, na semana anterior às eleições foram enviadas dezenas de mensagens com uma relação muito enviesada com a verdade. Uma delas denunciava um suposto envio de biberons em forma de pénis para as crianças, “para fazer aceitar a homossexualidade como normal a crianças de tenra idade”. Uma mensagem, visivelmente falsa, que terá sido das mais partilhadas pelas redes sociais pró-Bolsonaro.

Fazer política significa construir um mapa onde se vai desenrolar o conflito político para a maioria das pessoas. Significa sinalizar quem são os amigos e os inimigos e quais são os termos do conflito principal que vive alegadamente uma sociedade. A extrema-direita brasileira, vivendo num dos países mais desiguais do mundo, conseguiu que os termos do conflito não fossem expressos por essa desigualdade evidente, e por quem lucra com ela, mas que isso fosse submergido pela insegurança, num país em que há 60 mil assassinatos por ano, sobretudo em bairros pobres; e que os problemas da pobreza no Brasil se resumiam à existência de corrupção, que miraculosamente estaria apenas restrita ao PT de Lula.

O que enterrou as alternativas à candidatura de Bolsonaro foi essa arte de a extrema-direita ganhar a disputa do sentido do conflito político, aliada com o facto de a esquerda moderna estar mais interessada em afirmar identidades parcelares, do que em construir pontes para uma hegemonia e para a construção de uma proposta política universal, que se dirija à maioria da população.

Sobre o que se vai previsivelmente passar, vamos recorrer a um conto do escritor gaúcho Moacyr Scliar, chamado “O Retiro das Figueiras”. Um ilustre conjunto de cidadãos é convencido a ir viver para um condomínio fechado, por causa da violência crescente. Esse empreendimento é guardado permanentemente por homens armados, que a certa altura começam a obrigar os hóspedes a ficarem retidos em suas casas, devido ao perigo crescente da bandidagem que estaria para além muros. Passado um mês, os seguranças fogem de helicóptero e a polícia aparece. Afinal, os cidadãos estavam na realidade raptados sem o saber, e o dinheiro e o que pagaram dava para construir muitos condomínios fechados como aquele. Nada de bom parece que vai acontecer nos próximos tempos.


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