Escolha as suas informações

Nunca saberemos
Comentário Mundo 2 min. 18.06.2020

Nunca saberemos

Nunca saberemos

Foto: AFP
Comentário Mundo 2 min. 18.06.2020

Nunca saberemos

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
John F. Kennedy, presidente americano, alvejado por uma "bala mágica" em 1963; Olof Palme, primeiro-ministro sueco, abatido pelas costas ao sair do cinema, em 1986. Dois assassinatos políticos nunca resolvidos, dois mistérios que continuam a fascinar os membros da minha geração (e da geração anterior, e da seguinte).

Quem? e Porquê? Pois bem, parece mesmo incrível, mas passados tantos anos é possível que tenhamos finalmente resposta.

Nos últimos dois anos, o governo americano desclassificou 55 000 documentos relativos à investigação sobre Kennedy, revelando-os ao público. Os mais "picantes" continuam bloqueados por Trump devido a "preocupações com a segurança nacional" e só estarão disponíveis em outubro de 2021, mas o que foi divulgado já contém pistas interessantes sobre quem ajudou o suposto "lobo solitário" Lee Harvey Oswald a disparar. 

Um documento revela uma testemunha que recebeu uma chamada de Jack Ruby na manhã do assassínio perguntando-lhe se ele queria "ir ver o fogo de artifício" daí a pouco; a testemunha acedeu, e os dois assistiram à passagem do desfile – e ao crime. Ruby, dono de um cabaret e com ligações bem conhecidas à mafia, é o mesmo homem que dois dias mais tarde, nas barbas da polícia, matou Oswald para que ele não desse com a língua nos dentes. A hipótese "mafia" como autora da conspiração ganha assim força como a mais plausível – e "O irlandês", filme de Scorsese que defende subtilmente a mesma teoria, dá uma ajuda.

Se a máfia matou Kennedy, é possível compreender (sem aceitar) o encobrimento da conspiração e a necessidade de encontrar de um bode expiatório: de facto, para a Casa Branca não é aceitável aparecer como vulnerável à mafia, a população não pode alguma vez chegar a perceber que está sujeita a um poder superior ao do governo. Também na Suécia existia a vontade de encontrar um culpado que a sociedade pudesse "engolir". Essa ânsia e uma enorme (e nada inocente) incompetência provocaram erros fatais desde o primeiro minuto da investigação. O primeiro retrato-robot divulgado do suspeito era tão genérico que gerou 8000 denúncias diferentes em poucas horas. 

Talvez seja a verdade, talvez seja apenas a verdade a que temos direito.

O chefe da polícia de Estocolmo, de férias com a sua amante na noite em que se deu o crime, passou anos a tentar culpar sem provas o Partido dos Trabalhadores do Curdistão; quando se demitiu, os seus substitutos criaram a regra explícita de esquecer as conspirações e só investigar suspeitos isolados. Foi assim que acusaram Christer Pettersson, alcoólico, drogado, ex-recluso e sem família; um culpado de quem ninguém teria pena, uma solução confortável para todos – menos para Petersson, que só foi ilibado postumamente em 2016.

Na semana passada chegou o suposto epílogo: a justiça sueca quis encerrar 34 anos de dúvidas e esforços – mais de 22 000 pistas investigadas, mais de 10 000 interrogatórios, e 134 pessoas que confessaram o crime – declarando que o culpado foi Stig Engström, alguém que tinha ficado a trabalhar até tarde, saiu do escritório, encontrou um político de quem não gostava na rua e supostamente, em busca de atenção e reconhecimento, o abateu pelas costas. 

Mas não há arma, não há motivo forte, não há pistas novas, não há explicação para a existência de walkie-talkies espalhados pela zona do crime; é mais uma vez a teoria do "lobo solitário" tresloucado. Talvez seja a verdade, talvez seja apenas o mais fácil de aceitar como a verdade. Será todavia necessário aceitar a dura realidade: nunca saberemos.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.