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Nunca mais como massa (histórias sobre sanções)
Opinião Mundo 4 min. 05.05.2022
Guerra na Ucrânia

Nunca mais como massa (histórias sobre sanções)

Guerra na Ucrânia

Nunca mais como massa (histórias sobre sanções)

Foto: Shutterstock
Opinião Mundo 4 min. 05.05.2022
Guerra na Ucrânia

Nunca mais como massa (histórias sobre sanções)

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
As sanções à Rússia mostram bem que estas não resultam para mudar políticas e lesam apenas o cidadão comum.

Uma das maiores marcas italianas de massa, a Barilla, tem pelos vistos evadido as sanções europeias e continuado a produzir e vender os seus produtos na Rússia (não é a única). A revista Business Ukraine Magazine acusou a Barilla de cumplicidade com o invasor, a Rússia, e publicou uma imagem com um esparguete da marca, salpicado a sangue, em que se lê: "O sangue dos ucranianos é o melhor molho para a massa russa."

O cidadão russo vai ao supermercado e, perante tanta escassez por causa das sanções, compra esparguete da Barilla. Logo, é cúmplice. Eu consumidora me confesso: a massa Barilla é, comparada à maioria no supermercado, de qualidade ligeiramente superior. Vou ao Pingo Doce/Continente/Auchan e escolho o Bavete n.13. Sou uma potencial péssima consumidora. E cúmplice também.

O historiador Nicholas Mulder publicou recentemente "The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War", em que demonstra como durante o século XX, só 1/3 das sanções tiveram o efeito desejado (normalmente, 'mudança de regime').

A Barilla emitiu um comunicado demonstrando choque perante a situação na Ucrânia, expressando solidariedade com os ucranianos e alinhando-se "com a comunidade internacional num apelo à paz". "Durante 145 anos, a missão da Barilla tem sido dar comida às pessoas", dizem. Por isso, desde o início da guerra têm doado produtos Barilla a associações humanitárias e centros de refugiados no Leste, e um milhão de euros para ONGs de apoio a refugiados. "No final de Fevereiro decidimos suspender todos os novos investimentos e actividades publicitárias na Rússia, suspendendo actividades comerciais não essenciais e limitando a produção a alimentos básicos – massa e pão. Também decidimos não tirar vantagem económica da nossa presença no país. Neste contexto, continuaremos a garantir os salários e a assegurar a continuidade do trabalho dos nossos trabalhadores locais", dizem.

A Barilla decidiu ficar na Rússia, não enriquecer à custa da guerra (doando excedente para solidariedade com a Ucrânia), continuando a vender comida aos russos e mantendo os seus postos de trabalho. Resposta indignada na bolha das redes sociais? #nuncamaiscomoBarilla.

Devia ser assim cada vez que compramos bens sob sanção: rum e tabaco de Cuba; tâmaras do Irão; café da Venezuela. E, acrescento, para acicatar a "culpa" do consumidor solitário diante da prateleira do supermercado: abacates dos colonatos israelitas ou das estufas em Odemira?

A Rússia invadiu a Ucrânia. É preciso fazer alguma coisa. O ónus está, evidentemente, em mim, cúmplice desta barbárie cada vez que como massa. E não no questionamento das sanções: para que servem? A quem servem? E quem, realmente, prejudicam? 

O historiador Nicholas Mulder publicou recentemente "The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War", em que demonstra como durante o século XX, só 1/3 das sanções tiveram o efeito desejado (normalmente, "mudança de regime"). "A história das sanções é, em grande medida, a história de uma desilusão", diz. 

Em entrevista à Atlantic, Mulder explica como o bloqueio aos bancos russos está apenas a afectar o cidadão comum – até porque sabemos das empresas de fachada na Sérvia ou no Chipre que evadem as sanções da UE. Ou até a própria UE, que continua a pagar o gás, agora em rublos: "Conheço muitas pessoas que fugiram para a Ásia Central, Geórgia, Azerbaijão, Finlândia, Uzbequistão. Nenhum pode realmente aceder às suas poupanças, porque os seus cartões bancários simplesmente não funcionam. A resposta do sector privado está a atingir fortemente a sociedade civil russa. Tenho a certeza de que há pessoas que pensam que isso aumenta a pressão total, mas está a atingir as pessoas que gostaríamos que fossem a espinha dorsal da posição anti-guerra na Rússia."

Precisamente: se a "ideia" é a mudança política na Rússia (ou em Cuba, ou no Irão), para quê massacrar uma população sob embargo económico? E para quê usar empresas europeias (como a Barilla ou tantas portuguesas) como carne de canhão nessa guerra moral?

Relembro as históricas palavras de Madeleine Albright que, quando era Embaixadora dos EUA na ONU nos anos 90, impôs e fez aprovar sanções ao Iraque após a invasão do Kuwait. Perante a morte de mais de 500 mil crianças iraquianas, em consequência directa das sanções, Albright respondeu na já icónica entrevista à CBS: "Acho que é uma escolha muito difícil. Mas o preço, pensamos, valeu a pena."

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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