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Novo partido à esquerda pode agitar panorama eleitoral espanhol
Mundo 4 min. 20.09.2019

Novo partido à esquerda pode agitar panorama eleitoral espanhol

Novo partido à esquerda pode agitar panorama eleitoral espanhol

Foto: AFP
Mundo 4 min. 20.09.2019

Novo partido à esquerda pode agitar panorama eleitoral espanhol

Bruno AMARAL DE CARVALHO
Bruno AMARAL DE CARVALHO
A caminho das quartas eleições legislativas em quatro anos, o tabuleiro político em Espanha agita-se com a possibilidade de irrupção de um novo partido liderado pelo ex-número 2 do Podemos, Iñigo Errejón.

Iñigo Errejón, que rompeu nas últimas eleições municipais com a formação política que ajudou a fundar, tinha já promovido a candidatura Más Madrid à alcaldia da capital espanhola ao lado da então presidente da autarquia Manuela Carmena. Essa rutura dividiu a esquerda e o PP acabou por ganhar em Madrid. De acordo com fontes do El País, Errejón quer agora dar o salto para as eleições estatais. Especialistas ouvidos pelo jornal consideram que o novo partido pode abalar o mapa eleitoral da esquerda. O Podemos - que agora se chama Unidas Podemos (UP) - vê o seu campo ameaçado por uma formação mais moderada que também afetaria o PSOE de Pedro Sánchez e até o setor mais à esquerda do Ciudadanos.

Segundo o El País, um grupo de conselheiros do grupo municipal de Más Madrid tentou convencer Manuela Carmena a liderar a sua própria lista às s eleições gerais mas a ex-autarca negou ao El País essa possibilidade. Errejón enfrenta agora o desafio de avançar sozinho na liderança de uma nova formação política. O ex-líder do Podemos diz ainda assim que está concentrado apenas na construção de um partido regional. Mas, pela primeira vez, fontes próximas admitem que estão a planear promover uma lista para as eleições legislativas de 10 de novembro.

Em entrevista ao La Sexta, o primeiro-ministro interino, Pedro Sánchez, que acaba de falhar a investidura por falta de apoio parlamentar, falou de Errejón em termos positivos em comparação com Iglesias: "Há diferenças muito notáveis na forma como Errejón e Iglesias entendem a política", afirmou. "Errejón propôs algo na Comunidade que podia parecer ficção científica pensando como Iglesias: dar votos sem qualquer condição a Ángel Gabilondo, um candidato socialista, mesmo que ele tivesse o apoio do Ciudadanos para impedir que a extrema-direita tivesse influência no governo como agora tem. Tenho visto as coisas que ele diz e acho que fez coisas positivas e esperançosas", sublinhou.

Mas se uma futura formação de esquerda liderada por Errejón pode ser mais flexível na hora de negociar com o PSOE também há motivos de preocupação na sede dos socialistas. A organização de Madrid deste partido reconheceu que Errejón lhe tirou eleitores nas últimas eleições autonómicas e que o grande beneficiário foi o PP. "Podíamos ter tido entre 5% e 10% mais votos se Errejón não se tivesse candidatado. Pelos eleitores que o preferiram e pela fragmentação que causou no eleitorado de esquerda. No final, foi fundamental para Ángel Gabilondo [candidato socialista] não conseguir ser presidente", afirmou ao El País um membro destacado da direção do PSOE em Madrid.

Contudo, "o contexto de Madrid não pode ser extrapolado para o resto de Espanha", explica Pablo Simón. O politólogo espanhol antecipa um cenário nacional fortemente marcado pela disputa entre a UP e o PSOE devido às negociações falhadas que levaram a novas eleições. "Se Errejón se apresentasse apenas no círculo eleitoral de Madrid, numa estimativa razoável, poderia roubar metade dos deputados que o Podemos obteve nesta região [seis], ou seja, três, e um do PSOE [11]", prevê. Neste caso, os socialistas resistiriam melhor ao efeito Errejón. "Temos que ser cautelosos porque todas as hipóteses estão abertas, mas poderia até atrair o eleitor mais moderado de Ciudadanos", completou o professor da Universidade Carlos III de Madrid. Uma sondagem da Invymark publicada pelo La Sexta aponta que, se Errejón fosse candidato, 22,3% dos cidadãos considerariam votar nele. Destes, metade dos eleitores da UP e um terço dos eleitores do PSOE.

A dirigente do Podemos, Irene Montero, tentou desvalorizar a possibilidade de haver um novo partido à esquerda. "O que me assusta são os esgotos do Estado [numa referência à interferência de grupos secretos da polícia na política espanhola]. Mas não que haja outras opções políticas. Respeitamos a democracia", afirmou a atual número dois do Podemos à TVE. "Não é preciso ter uma noção patrimonialista do espaço da esquerda. Vamos ter que ver a quem tiram mais votos", disse Iglesias na semana passada.

O debate está ainda em aberto no Más Madrid até que as eleições sejam oficialmente convocadas. É previsível que o grupo de conselheiros se reúna na próxima semana para aumentar a pressão. Os vereadores ainda não perderam a esperança de mudar a opinião de Carmena. "Se muitos de nós conseguirmos convencê-la, ela vai acabar por dizer que sim", afirmou um deles. Se a também juiz mantiver a recusa, tudo estará nas mãos de Errejón.

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