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New York Times elimina cartoons da edição internacional
Mundo 3 min. 11.06.2019

New York Times elimina cartoons da edição internacional

A decisão surgiu na sequência da polémica provocada pela divulgação de um cartoon do português António que foi alvo de acusações de antissemitismo.

O jornal norte-americano The New York Times anunciou esta segunda-feira que decidiu terminar com a prática de publicação de cartoons na sua edição internacional, na sequência da polémica que envolveu um desenho do cartoonista português António, considerado antissemita.

A direção de informação do The New York Times, uma das mais prestigiadas publicações jornalísticas nos Estados Unidos, explicou que, a partir de 1 de julho, a edição internacional adotará a mesma estratégia editorial da edição nacional, que não publica qualquer desenho humorístico.

Cartoon de António que gerou polémica, publicado no New York Times
Cartoon de António que gerou polémica, publicado no New York Times
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A decisão surgiu na sequência da polémica provocada pela divulgação de um cartoon do português António – em que o Presidente dos EUA, Donald Trump, aparece com um "kipá" (símbolo judaico) e óculos escuros a ser conduzido por um cão-guia com a cara do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu – divulgado há cerca de um mês e meio e que foi alvo de acusações de antissemitismo. 

Na altura, a direção do jornal pediu desculpa pela publicação e justificou-se dizendo que tinha sido o resultado da decisão isolada de um editor, que não reconheceu o potencial de leitura antissemita, e rompeu o contrato com a empresa de serviço de distribuição de cartoons que trabalhava com vários cartoonistas internacionais, entre eles o português António (António Moreira Antunes).

Segunda-feira, o The New York Times tomou a decisão mais radical de terminar com toda e qualquer divulgação de cartoons na edição internacional, seguindo a estratégia editorial da versão nacional do jornal diário. Numa declaração, James Bennet, responsável pela página de artigos de opinião, disse que “há mais de um ano que considerava colocar a edição internacional em linha com a edição nacional, terminando com os cartoons políticos”, o que acontecerá a partir do próximo dia 1 de julho. Na mesma declaração, Bennet acrescentou que o jornal de Nova Iorque “continuará a investir em formatos de jornalismo opinativo, incluindo jornalismo visual, que expressem nuance, complexidade e vozes fortes a partir de uma diversidade de perspetivas”.

Um jornal que “se encolheu perante as redes sociais”

As reações a esta decisão do The New York Times não se fizeram esperar, em particular do lado de cartoonistas, lamentando o desaparecimento desta forma de expressão visual das páginas do jornal.

Patrick Chappate, um dos cartoonistas que colaborava com o The New York Times, escreveu no seu blogue que a decisão não tem apenas a ver com cartoons, “mas também com jornalismo e com a opinião em geral”, dizendo que se vive “num mundo em que a população moralista se junta nas redes sociais e ergue-se como uma tempestade, atacando as Redações dos media”.

Plantu, conhecido cartoonista do diário francês Le Monde e fundador da associação Cartooning for Peace, considera que a decisão revela que o jornal “se encolheu perante as redes sociais”, lembrando que já antes o The New York Times tinha pedido desculpa pelo desenho do português António. "É tão estúpido como se pedíssemos às crianças no Dia das Mães para pararem de fazer desenhos para suas mães", disse o cartoonista, manifestando a sua solidariedade para com os cartoonistas afetados pela decisão do jornal norte-americano. “Humor e imagens perturbadoras fazem parte das nossas democracias", disse o cartoonista do jornal Le Monde.


Cartoon de artista português retirado do The New York Times por ser "antissemita"
Cartoonista disse ao jornal Expresso que lamenta que o jornal tenha cedido à pressão.

Na altura em que o seu cartoon foi alvo de polémica, António já tinha denunciado a “vulnerabilidade” do jornal de Nova Iorque a “grupos de pressão” com grande influência na sua linha editorial. “Provavelmente, tem a ver com as suas linhas de financiamento. Não sei. É um espetáculo triste”, lamentou António.

Lusa