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Nem esquerda, nem direita. Reforma das pensões em França é "pedra no sapato" para todos
Mundo 3 min. 13.01.2020

Nem esquerda, nem direita. Reforma das pensões em França é "pedra no sapato" para todos

Nem esquerda, nem direita. Reforma das pensões em França é "pedra no sapato" para todos

Foto: AFP
Mundo 3 min. 13.01.2020

Nem esquerda, nem direita. Reforma das pensões em França é "pedra no sapato" para todos

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Nem o recuo do governo na idade mínima da reforma, convence os franceses em relação à "universalização" do sistema de pensões. A greve continua. A versão final da proposta chega em fevereiro, mas "incompleta".

Há 40 dias que os comboios só asseguram as viagens durante a hora de ponta e os TGVS estão trancados no estaleiro. As grades ora abrem, ora fecham nas estações de metro de Paris. A ordem dos sindicatos é manter a greve. Nem os recuos do governo liderado por Edouard Phillipe amenizaram a revolta. 

A maioria da população continua a chumbar a reforma das pensões. As últimas sondagens mostram que, ninguém está contente com as paralisações que afetam não só França como os países vizinhos. Apesar do "cansaço", 61% dos inquiridos continua a defender que a única opção válida é fazer cair a intenção que o Presidente Emmanuel Macron diz ser indispensável à sustentabilidade da Caixa de Previdência.

"Loucura do ponto de vista democrático" 

No panorama político, nem a esquerda nem a direita aprovam o projeto que só está pronto para a análise final em meados de fevereiro e que só vai ser apresentado formalmente em meados de abril. "A conferência das conclusões sobre o equilíbrio e financiamento das pensões só vai ser apresentada no final de abril de 2020, para que elas possam ser levadas em conta antes da votação do projeto de lei em segunda leitura", avisou o primeiro-ministro. 

Assim sendo, a versão do documento que vai ser apresentada ao parlamento para discussão e votada na generalidade, entre fevereiro e março, chega trôpega. Os deputados têm de tomar uma decisão com base numa proposta que não estará finalizada. Alexis Corbière da França Insubmissa de Jean-Luc   Mélenchon  fala numa "discussão nula e sem efeito". 

"Como é que podemos ter uma opinião se não sabemos as consequências concretas que a reforma vai ter na vida das pessoas? É uma loucura do ponto de vista democrático e torna a discussão totalmente tendenciosa". 

À direita, os Republicanos recusam "decorar uma reforma a partir do seu financiamento". Damien Abad explica que o partido não está disponível para "discutir a lei até ter acesso às conclusões da conferência de financiamento. Caso contrário, faremos alterações na moda, às quais nos será dito que tudo isto ainda está em discussão". 

Manobra de diversão

Nem a marcha atrás na idade mínima da reforma que vai manter-se nos 62 anos, em vez dos 64 inicialmente propostos, convencem a esquerda. Comunistas, socialistas, insubmissos e ecologistas já prometeram fazer frente ao projeto. Chamam malabarismo ao recuo que foi tornado público este sábado. 

Citado pelo Le Monde, Olivier Faure do Partido Socialista diz que "tudo tem de mudar para que nada mude". Acrescenta que "nada mudou, nem nas dificuldades, nem nas contribuições mínimas". Para o secretário-geral a reforma do sistema de pensões francês é "regressiva". O gesto de Edouard Philippe é, na sua opinião, apenas "um grande fio": "A idade central já não existe em Janeiro, mas reaparecerá em Abril. Não vejo quem é que isto pode convencer". 

No mesmo sentido, outra voz sonante do partido vinca que "a confiança foi quebrada" e que "o governo está a tentar empatar diante de uma mobilização substancial e de uma oposição pública inabalável" 

"A verdadeira razão desta reforma, que por si só aprofunda os déficits do sistema, é o desejo de ampliar a poupança privada para a aposentadoria", opina a porta-voz Gabrielle Siry.

Retirar, Retirar 

Ainda que com objetivos diferentes, o Partido Comunista Francês alinha com os Socialistas e considera que o recuo do governo é provisório, devendo ser "reintroduzido mais tarde através de portarias". Na vanguarda da mobilização e das manifestações que têm saído à rua duas vezes por semana, Ian Brossant acredita que o governo lida mal com a pressão das ruas. 

Os ecologistas dos Verdes que, por princípio concorda com o sistema de pensão por pontos do governo, continua também a bater-se pela retirada da reforma. "Tudo vai na direcção de horários de trabalho mais longos. É um escândalo", diz a porta-voz Eva Sas.

"O método não é sério no que diz respeito às questões em jogo. Ainda não temos números, nem sobre o desequilíbrio global nem sobre a diminuição das pensões", arguementa o secretário-geral. Num resumo do espírito da esquerda, Julien Bayou, acrescenta que é "preciso recuar completamentamente e avançar com negociações verdadeiras". 


  

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