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Na Rua da Grande Cidade: O suicídio da memória
O que resta do Museu Nacional do Brasil, em Rio de Janeiro.

Na Rua da Grande Cidade: O suicídio da memória

Foto: AFP
O que resta do Museu Nacional do Brasil, em Rio de Janeiro.
Editorial Mundo 4 min. 06.09.2018

Na Rua da Grande Cidade: O suicídio da memória

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
" A memória brasiliera, desprezada e abandonada, suicidou-se."

O calendário indicava dezembro de 2015 quando a então presidente Dilma Roussef, acompanhada pelo prefeito do Rio de Janeiro, saiu do totalmente novo e ainda inacabado metro de superfície da cidade (custo de construção das duas linhas em operação: cerca de 250 milhões de euros) para inaugurar, com a pompa e circunstância devidas, o Museu do Amanhã. Dentro deste edifício futurista em forma de espinha de peixe, projetado pelo mais famoso dos arquitectos-estrela deste mundo (Santiago Calatrava), experiências do mais virtual que permite o estado atual da técnica; e à entrada, uma escultura em forma de estrela de um dos maiores artistas vivos da atualidade, o americano Frank Stella. Tudo moderno, tecnológico, amplo, brilhante, uma entrada de rompante na modernidade. Não se disse sempre que o Brasil é o país do futuro? Pois então. O Museu do Amanhã, cujo número de visitantes anda aquém do esperado e podia estar situado em qualquer cidade do mundo, ficou por uns 50 milhões de euros.

Esta segunda-feira ardeu o Museu Nacional do Brasil. O museu do passado. O país do futuro precisa de passado ou pode dar-se ao luxo de queimá-lo em pira? O que é, afinal, um país? Precisa de saber de onde vem, conhecer a sua matriz cultural, a sua memória histórica? Está disposto a aprender com o passado, o bom e o mau? Ou pode fazer tábula rasa das grilhetas que herdou, e recomeçar tudo numa folha em branco, reinventando-se para que saia melhor da segunda vez?

Em uma só noite, ardeu o local que foi o epicentro do império português – o palácio oferecido ao futuro D. João VI quando este fugiu dos exércitos napoleónicos e mudou a capital de Lisboa para o Rio; o berço do Brasil independente – ali viveram D. Pedro e o seu filho D. Pedro II, os dois imperadores brasileiros, e ali nasceu D. Maria II, rainha de Portugal; e o local, supostamente inexpugnável, onde se reuniam os mais valiosos artefactos que o país tinha amealhado ao longo de 200 anos – o museu, mandado fundar pelo mesmo João VI em 1818, celebrou a 6 de junho deste ano o seu bicentenário… sem dinheiro, a festa foi feita de discursos de funcionários, e nem um único político compareceu.

Em quatro horas, o mundo perdeu uma biblioteca científica com 2.500 livros, um esqueleto humano com 12 mil anos de idade – Luzia, a “primeira brasileira” –, toda uma coleção riquíssima e insubstituível de objetos e línguas das civilizações indígenas que ali existiam antes da chegada dos portugueses, esqueletos de dinossauro, uma colecção de múmias naturais, objetos do Antigo Egipto, ou ainda frescos de Pompeia que sobreviveram à erupção do Vesúvio em 79 d.C… mas não ao flagelo da ignorância em 2018 d.C.

O Museu Nacional ardeu, e o Paço de S. Cristóvão com ele, porque nenhum dos dois hidrantes ali perto tinha água, porque os bombeiros tinham mangueiras pouco maiores que as que temos em casa, porque quatro horas depois ainda chegavam camiões com água após tentativas desesperadas de a sacar ao lago do parque circundante. Ardeu porque o edifício caía aos pedaços, havia infiltrações e buracos, madeira carunchosa, não seguia os regulamentos anti-incêndio. Ardeu porque os mesmos políticos que gastaram milhões públicos em novas obras faraónicas – pelas quais recebem legais e ilegais comissões privadas – não reservaram uns trocados para renovar o edifício classificado e digitalizar as suas coleções. A austeridade de Michel Temer, o presidente golpista, reservou os cortes para a cultura e a educação; o museu tem este ano um oitavo do orçamento que tinha há dois anos. Ardeu pela incúria. Como explicar aos habitantes desse futuro, se houver um futuro com oportunidade de nos redimir dos nossos atentados, que os bárbaros que tinham a responsabilidade de cuidar deixaram isso acontecer?

O mais célebre quadro de Dalí, aquele onde pela primeira vez aparecem os seus relógios derretidos, intitula-se “A persistência da memória”. Se a memória tem qualidades humanas e sabe persistir, então também pode desistir. A memória brasileira, desprezada e abandonada, cansada de resistir, suicidou-se. Que dimensão simbólica tão poderosa num momento em que um populista-fascista, partidário da ditadura militar, está à frente nas sondagens presidenciais. No futuro mais ou menos longínquo, o Museu Nacional do Brasil vai certamente reerguer-se das cinzas, qual mítica fénix. O próprio Brasil é que talvez já não vá a tempo.