Escolha as suas informações

Na Colômbia a violência é a linguagem do estado
Opinião Mundo 3 min. 26.05.2021

Na Colômbia a violência é a linguagem do estado

Um soldado da marinha colombiana patrulha ao largo da costa de Buenaventura, no departamento de Valle del Cauca, na Colômbia. Os gangues de tráfico de droga sucederam aos guerrilheiros da zona, e estenderam o seu domínio aos mangais, florestas de água que rodeiam Buenaventura.

Na Colômbia a violência é a linguagem do estado

Um soldado da marinha colombiana patrulha ao largo da costa de Buenaventura, no departamento de Valle del Cauca, na Colômbia. Os gangues de tráfico de droga sucederam aos guerrilheiros da zona, e estenderam o seu domínio aos mangais, florestas de água que rodeiam Buenaventura.
Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 26.05.2021

Na Colômbia a violência é a linguagem do estado

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A Colômbia está em greve nacional desde 28 de Abril. Por cá, quase não se ouve o clamor de milhões de pessoas nas ruas.

A Colômbia é um dos países mais ricos da América Latina, a quarta maior economia do continente. Também é um dos mais desiguais: 42% da população é pobre. O índice de Gini do Banco Mundial é de 51,3%, idêntico ao do Brasil. O Gini mede a desigualdade social, a diferença entre o rendimento dos mais ricos e dos mais pobres. Em Portugal é de 31,2% (Pordata 2019).

Quando o presidente Ivan Duque propôs uma reforma tributária, agravada pela situação pandémica, que ia penalizar ainda mais jovens, trabalhadores e pobres, ele sabia que esta seria mais uma forma de violência sobre os colombianos. Quando milhões saíram à rua contra a reforma, Duque enviou a para-militarizada polícia nacional, uma espécie de corpo de intervenção em esteroides, que dispara, mata, cega, carrega indiscriminadamente sobre rebeldes ou marchas pacíficas. 

A reforma foi rapidamente retirada e inúmeras (re)compensações garantidas e negociadas. Então porque continuam milhões de colombianos nas ruas? Porque lhes venderam a ilusão da "paz" e continuam em guerra, fartos da violência do Estado.

Quem está na rua são as três grandes confederações de trabalhadores (CGT, UCT, CTC) que representam milhares de sindicatos, de todo o país, dos mais liberais aos comunistas, duas confederações de pensionistas, dois sindicatos dos trabalhadores da educação e do petróleo, associações de camionistas que têm suprimido distribuições e bloqueado grandes vias, a Organização Nacional Indígena e conselhos indígenas de várias regiões, inúmeros movimentos de mulheres, e a Associação de Estudantes da Universidade Nacional. 

A violência das ruas é apenas a resposta na mesma língua. A única que a brutalidade do neo-liberalismo conhece.

As perdas de capital do último mês são incalculáveis, diz o governo. O país não aguenta mais 8 dias assim, diz o empresário têxtil e magnata Arturo Calle. "Assim" quer dizer: sem produzir. Não quer dizer "assim" com esta violência. Essa é estrutural, para manter tudo na mesma.

Diz-se que estes protestos são semelhantes aos do Chile de 2019-2020. Mas ao contrário do Chile, em que houve um objectivo concreto de mudança constitucional, cuja lei magna vinha ainda da pena do regime de Pinochet, a Colômbia tem uma das Constituições mais avançadas da América Latina, com reconhecimento de povos originários, demarcações de terras indígenas, uma sociedade multiétnica em que afros, palenqueros, raizales são reconhecidos na lei.

A Colômbia preza-se pela sua estabilidade democrática. Por nunca ter sofrido uma ditadura. Por ser o braço direito dos EUA no continente. Apesar das valas comuns, dos milhões de mortos, feridos, desaparecidos e dos exilados internos. Há mais de 100 anos que a Colômbia é um país em guerra. Apesar de no papel e na lei haver “paz”.

Uma "paz" governada pela facção do actual presidente, que votou Não. Não à paz. Sim à guerra, a esta guerra contra o próprio povo. Uma "paz" em que milhares de activistas, líderes sociais e políticos mulheres, indígenas e afro, ex-guerrilheiros desmobilizados têm sido assassinados impunemente desde o Processo de Paz.

Milhões de colombianos estão nas ruas há quase um mês contra um regime de extracção do trabalho e da terra, contra uma oligarquia colonial; contra a espoliação de minérios, madeiras, petróleo, café; contra o neoliberalismo que já praticamente privatizou todos os recursos. E agora já não há FARC para expiar responsabilidades. É este regime que exerce violência sistémica e repressão sobre os colombianos. A violência na Colômbia é a linguagem com que o Estado fala aos cidadãos. A violência das ruas é apenas a resposta na mesma língua. A única que a brutalidade do neo-liberalismo conhece.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.