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Não são os jogadores, é o sistema
Opinião Mundo 3 min. 16.11.2021
Cimeira do Clima

Não são os jogadores, é o sistema

Cimeira do Clima

Não são os jogadores, é o sistema

Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 16.11.2021
Cimeira do Clima

Não são os jogadores, é o sistema

O sistema global baseia-se na depredação voraz de recursos, na produção e no consumo em massa de produtos inúteis, nos aumentos exponenciais das necessidades em energia.

O título desta crónica também servia para falar da selecção portuguesa, mas em vez disso discutamos a COP26. A forma como esta terminou dá para adaptar uma velha piada da banda desenhada Mafalda: "a cimeira que reuniu mais de 200 países em Glasgow para discutir os problemas mais importantes do mundo terminou com um débil acordo que não é mais que uma declaração de intenções", diz a rádio. Susaninha pergunta a Mafalda se Glasgow é a capital da Escócia. Esta responde prontamente: "Não... é a capital do fracasso".

Uma única frase do texto final da Cimeira do Clima passou em poucas horas por cinco versões diferentes, cada uma mais fraca e vaga, até ao fecho dos trabalhos no sábado. Essa frase era obviamente sobre combustíveis fósseis – carvão, gás, petróleo, as maiores razões para que a Humanidade se encontre no fundo do buraco que continuamos a escavar. O texto original (já de forma diplomaticamente vazia) "incentivava as Partes no acordo a acelerar a eliminação do carvão e dos subsídios para combustíveis fósseis". 

Mas no final, o parágrafo que foi assinado enterra esta simples ideia debaixo de uma montanha de palavras cuidadosamente escolhidas para pouco ou nada significarem. Em vez de eliminação ficou redução, mudança imposta por China e Índia, os países mais populosos do mundo; em vez de acelerar, os governos são encorajados a "pensar em políticas de transição para tecnologias mais eficientes", isto claro "sempre que houver apoios aos mais vulneráveis a essa mudança" – leia-se: sem alguém pagar não se muda nada – e "tendo em conta as circunstâncias nacionais" – leia-se: quem quiser continuar a queimar carvão e perfurar os solos à procura de petróleo, força com isso.

O mais desolador é que mesmo este bla blá sem significado, como lhe chamou Greta Thunberg, deve ser considerado como um avanço, porque se trata da primeiríssima vez – ao fim de 26 cimeiras sobre as alterações climáticas!

O mais desolador é que mesmo este bla blá sem significado, como lhe chamou Greta Thunberg, deve ser considerado como um avanço, porque se trata da primeiríssima vez – ao fim de 26 cimeiras sobre as alterações climáticas! – que as palavras combustíveis fósseis aparecem sequer na declaração final. Até aqui, estavam bem escondidos como se não interessassem para o caso.

A cimeira de Glasgow acaba assim com cada país a prometer (mas não há qualquer forma de exigir ou controlar que essas promessas sejam cumpridas) umas vagas contribuições para os objectivos de redução de gases; todas somadas, essas emissões significam que a temperatura global média vai aumentar 2,4ºC – o que terá efeitos catastróficos e irreversíveis sobre o clima e o planeta, ameaçando directamente a nossa sobrevivência.


Ecologistas consideram acordo de Glasgow "demasiado pobre" em ambição
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, comentou o acordo alcançado em Glasgow alertando que apesar de "passos em frente que são bem vindos, a catástrofe climática continua a bater à porta".

Para os jovens e gerações futuras, com uma vida ameaçada pela nossa irresponsabilidade, ganância e egoísmo, esta inacção é tão insultuosa quanto difícil de compreender. Será porque as nossas elites políticas, quase todos antigos meninos privilegiados e quase todos bem entrados na terceira idade, são incapazes de compreender o problema? Será que até o compreendem, mas não tem capacidade técnica nem política de fazer algo para o resolver?

Essas hipóteses contêm certamente alguma verdade, mas o problema não são os jogadores: é o sistema. E o sistema chama-se Capitalismo, filosofia global única que se baseia na depredação voraz de recursos, na produção e no consumo em massa de produtos inúteis, nos aumentos exponenciais das necessidades em energia ou carne. Ou seja, sem uma mudança radical na arquitectura do mundo, o futuro é negro como a fuligem e não será certamente com promessas vazias que vamos evitar a catástrofe climática. A COP26, pelo menos, serviu para o demonstrar.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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