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Não há almoços grátis
Opinião Mundo 3 min. 21.06.2022
Saco azul russo

Não há almoços grátis

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Foto: Shutterstock
Opinião Mundo 3 min. 21.06.2022
Saco azul russo

Não há almoços grátis

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O interesse público precisa de ser defendido. Sobretudo porque este jogo sujo do dinheiro do Kremlin continua.

Imaginem um bilionário sem escrúpulos. Agora imaginem que, para desregular a sociedade e assim ganhar ainda mais dinheiro à custa dos demais, o mesmo bilionário quer arrancar o Reino Unido à União Europeia. O desejo é partilhado com um certo ditador russo, embora este tenha um objectivo diferente: dividir para mais facilmente invad… reinar sobre a Europa.

O ditador russo tem nome, e o bilionário também: Arron Banks, o homem que decidiu fazer a maior doação política da História do seu país - 10 milhões de euros - para financiar o sítio Leave.eu, uma espécie de braço armado da campanha pró-Brexit. Uma jornalista, Carole Cadwalladr, decidiu então investigar a relação do website com a Rússia, o Facebook e a empresa de agregação de dados Cambridge Analytica. O escândalo aí revelado - estas empresas ignoravam as leis de financiamento eleitoral e as leis de privacidade dos cidadãos - levou a umas multas e ao interrogatório de Mark Zuckerberg no parlamento americano; a então primeira-ministra Theresa May disse que “o dinheiro russo estava a subverter a democracia”. Mas o crime compensou, porque o Brexit aconteceu mesmo.  

Carole Cadwalladr conformou-se. Ela pensava que aqueles 10 milhões de euros provinham de um saco azul russo, mas não podia prová-lo. Sabia que o bilionário testa-de-ferro se tinha encontrado amiúde com oligarcas e o embaixador russo; mas Arron Banks afirmou que “os meus contactos resumem-se a um almoço bem regado de seis horas, lembro-me de pouco”. Só que na cultura russa também não há almoços grátis…

Quando Carole afirmou durante uma conferência TED “… e nem sequer vou comentar as mentiras que Arron Banks disse sobre a sua relação secreta com o governo russo”, Banks meteu-a em tribunal por difamação. Não à organização da conferência, não ao jornal que tinha escrito exactamente o mesmo, mas sim a uma jornalista individual, o elo mais fraco. A implicação dá arrepios na espinha. Um homem poderoso, com muito dinheiro e amigos influentes, pode mudar o destino de todo um país passando por cima das suas leis - e se alguém se atrever a divulgá-lo, mesmo que por evidente interesse público, é amordaçado, processado e arruinado: perdendo o processo, a jornalista teria de pagar do seu bolso cerca de 1 milhão de euros.

O público percebeu o que estava em causa - o direito à informação, e a convicção (provavelmente errada, mas bela) de que não há cidadãos acima da lei por mais poderosos que possam ser. E as pessoas ajudaram. Em campanhas de crowdfunding, 28 887 cidadãos anónimos contribuíram com mais de 900 mil euros para pagar os custos do processo de Carole. Na semana passada, a jornalista ganhou: o tribunal provou que existiram vários outros “almoços” entre o multimilionário e “investidores” teleguiados por Putin, e decidiu que ela tinha razões suficientes para duvidar de Arron Banks, logo que a sua curta frase era do interesse público.

Esta vitória legal também é nossa, e é importante. Porque temos direito a saber. Porque a democracia definha na mentira e na corrupção. Porque a história obscura do Brexit está por investigar, e provámos aqui mais uma pequena peça do puzzle. Porque o interesse público, nos antípodas dos interesses privados dos oligarcas, precisa de ser defendido. Mas sobretudo, porque este jogo sujo continua: o infindável dinheiro do Kremlin continua impunemente a corromper as democracias europeias - o mais recente capítulo aconteceu anteontem em França - e há cada vez menos pessoas com a coragem de levantar a voz.

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