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Não consigo respirar
Comentário Mundo 3 min. 04.06.2020

Não consigo respirar

Não consigo respirar

Foto: AFP
Comentário Mundo 3 min. 04.06.2020

Não consigo respirar

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
“Não consigo respirar!”, disse George Floyd por dezasseis vezes pelo menos. “Não consigo respirar. Por favor”. As súplicas desesperadas foram as últimas palavras de um ser humano de 46 anos que tinha perdido o emprego no restaurante quando este encerrou devido à pandemia.

 A certa altura do seu disco de 1998 “Há muito tempo que o ar nesta latrina se tornou irrespirável”, os míticos Mão Morta gritam pela voz cavernosa do vocalista Adolfo Luxúria Canibal: “um mundo assim governado é um mundo condenado”.

A “latrina” do título da obra refere-se a um mundo afogado na efemeridade oca da sociedade de consumo, um sistema tão vazio que se tornou “irrespirável”. Desde aí, os problemas gigantescos que apareceram para atormentar o planeta nas duas últimas décadas – e têm sido bastantes – fazem parecer estas preocupações quase domesticadas, mas a sociedade de consumo não desapareceu; idem para o racismo.

“Não consigo respirar!”, disse George Floyd por dezasseis vezes pelo menos. “Não consigo respirar. Por favor”. As súplicas desesperadas foram as últimas palavras de um ser humano de 46 anos que tinha perdido o emprego no restaurante quando este encerrou devido à pandemia. George cometeu três crimes, qual deles o mais hediondo: pagou alegadamente um maço de tabaco com uma nota de 20 falsa; estava no lugar errado à hora errada; e era negro. A pena capital foi-lhe aplicada por um dos neanderthais psicopatas fardados de azul que pululam pelas cidades deste mundo, essa grande percentagem de polícias que serão eternamente fracos contra os fortes mas repentinamente muito fortes contra os fracos estendidos no pavimento. Derek Chauvin esmagou o pescoço da sua vítima por intermináveis, agoniantes 8 minutos e 46 segundos, enquanto três outros capangas fardados comprimiam os pulmões e as pernas do infeliz, perante os olhos e as preces em vão de quem por ali passava. E assim George Floyd morreu na contramão, atrapalhando o tráfego.

Macabra coincidência que o polícia agora acusado de homicídio se chame Chauvin, tal como o fanático soldado de Napoleão que deu origem ao “chauvinismo” – a crença irracional na superioridade e direito à dominação por parte do grupo a que pertence o próprio chauvinista. O que aconteceu não é um defeito do sistema, é sim parte integrante do sistema estratificado e protofascista da “América Primeiro”, em que todos devem conformar-se com o seu lugar na pirâmide – desde que os homens brancos, anglo-saxónicos e com heranças de família estejam no topo da mesma.

As ruas das cidades americanas são um lugar perigoso. Há protestos, manifestações, fogo e pilhagens. A revolta perante a injustiça, misturada pela fúria causada pela opressão centenária, encontram pela frente um presidente capaz de afundar o mundo, se isso for o que custa manter o poder. Um líder incapaz de liderar, um destruidor incendiário no lugar que deveria ser ocupado por um médico, primeiro, e um construtor de pontes, mais tarde. No momento em que escrevo, Trump ameaça lançar o exército contra os seus próprios cidadãos, qual déspota em regime totalitário. É a própria (supostamente grande) democracia americana que se esvai sob os nossos olhos.

Há quatro anos, no discurso de nomeação como candidato republicano, Trump bramou contra “a violência nas nossas ruas e o caos nas nossas comunidades. Tenho uma mensagem para todos vós: o crime e a violência que corroem esta grande nação vão acabar muito em breve.” Muitos reconheceram a cópia do discurso de Nixon nas mesmas circunstâncias (“cidades envoltas em fumo e fogo”) e temeram que o curso da História sofresse uma semelhante viragem desastrosa. Depois de três anos a mascarar a má governação com bons números da Bolsa, cumpre-se então o guião deste filme-catástrofe: números da pandemia fora de controlo e ausência de plano federal de combate; uma economia a afundar-se com 41 milhões de desempregados, um quinto das famílias incapaz de pagar a renda de casa, o plano de recuperação abandonado numa gaveta; motins nas ruas e um conflito social permanente. Trump vê televisão, joga golfe e usa a lira moderna do Twitter, enquanto na Washington envolta em fumo o ar se tornou irrespirável.

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