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Monroe, mas pouco Marilyn
Opinião Mundo 5 min. 13.01.2021

Monroe, mas pouco Marilyn

Monroe, mas pouco Marilyn

Foto: AFP
Opinião Mundo 5 min. 13.01.2021

Monroe, mas pouco Marilyn

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Os acontecimentos no Capitólio em Washington só poderão surpreender quem andou distraído. Os EUA são um país muito mais "latino-americano" do que se imagina.

Há uma belíssima história da Mafalda do Quino em que, contemplando o globo terrestre, Mafalda reconhece que, no Norte, "os países desenvolvidos" vivem "de cabeça para cima" e no Sul, de cabeça para baixo, por isso "as nossas ideias caem". Quino, brilhante, inverte o cartoon mas não o texto, e passamos a ver o mundo como Mafalda o vê: com os olhos da Argentina, nos confins do Sul do planeta.

Às vezes é preciso virar a cabeça ao contrário e olhar o mundo de outra perspectiva. Aquela que nunca nos habituámos a ver, porque as nossas referências, a nossa cultura, o nosso cânone, até os media que seguimos nos contam as mesmas histórias, ou uma grande narrativa da história através dos olhos do Norte – os nossos olhos. É preciso chegar à Mafalda para perceber que lá em baixo as ideias não caem, simplesmente "não sobem" (ou não se ouvem) tanto como seria preciso para virar a história do avesso. Mafalda também diz, noutra tirinha, que isso do Norte estar por cima nos mapas "é um truque psicológico inventado pelos que acham que estão por cima" – e assim se propagam ideias de superioridade histórica, moral, económica, ou até racial, a que o Norte sempre se arrogou.

Não foi por acaso que muitos dos chistes que circularam nas redes sociais após o assalto ao Capitólio a 6 de janeiro tinham a ver com a "latino-americanização" das presidenciais dos EUA. Seja na sequência das alegações de fraude lançadas por Trump e que obrigaram à recontagem de milhões de votos desde Novembro, seja nas imagens da horda violenta de criminosos que invadiu o Capitólio onde estava reunido o Congresso para ratificar o resultado eleitoral. Imagens que normalmente atribuímos a estados falhados ou caóticos, de enorme instabilidade político-económica, onde se sucedem golpes de estado, (para)militarizações, repressões sobre dissidências políticas. 

Coisas que, fosse ali ao lado, pensaríamos atribuir a Caracas, a Port-au-Prince, a Tegucigalpa, a San Salvador, mas não a Washington. "Devido às restrições à circulação impostas pela pandemia, este ano os Estados Unidos tiveram de fazer o golpe em casa", é uma das anedotas que circulou, com a sua verdade – é normal e corrente os EUA darem golpes de estado no seu quintal a sul, a América Latina. O problema é que esta é uma verdade que reproduzimos com um encolher de ombros, um laisser faire, uma inevitabilidade, um risinho irónico, porque a banalização desse "truque psicológico", de que fala Mafalda, nos faz condescender para com uma enorme região de 33 países soberanos onde continuamos a acreditar que as "ideias caem".

Em 1823, já grande parte do continente era independente, o presidente norte-americano James Monroe decretou o início daquilo que seria a hegemonia política e económica dos EUA na América, que depois se consolidaria no resto mundo durante o século XX, no pós-guerra. Separando o Novo Mundo do Velho Mundo, a doutrina Monroe (mais geoestratégia, e menos Marilyn) estabelecia assim que nenhum país do hemisfério ocidental poderia exercer poder no continente e que qualquer interferência externa em qualquer país da América seria um ataque direto aos EUA. Essencialmente, os EUA "anexavam" para si o continente, substituindo-se aos antigos impérios colonizadores. O resto já conhecemos.

Olhar para a América invertida, como lhe chamou o artista uruguaio Joaquín Torres-García em 1943, permite então ver os EUA, não como o farol de uma moralidade superior mas como o carrasco de muitos vizinhos a Sul. Permite igualmente olhar para os Estados Unidos como muito mais próximos, na sua génese, de países latino-americanos, do que muitos poderiam pensar. 


A marcha de um milhão de milícias ameaça a posse de Joe Biden
O FBI detetou planos para invadir e "atacar todos os 50 capitólios estatais e o Congresso entre 15 e 20 de janeiro". Está prevista uma "marcha de um milhão de milícias" para impedir a posse do novo Presidente Joe Biden.

Olhar para a América invertida é ver um enorme país que, após a colonização, foi conquistando terra, qual bandeirante, à custa de um genocídio indígena, sustentado na bíblia e numa economia esclavagista que dependia grandemente do tráfico negreiro (primeiro legal, depois ilegal); os crioulos que fizeram independência contra as metrópoles (Inglaterra, França, Espanha e Portugal) e que mantiveram uma espécie de status quo político de forma a concentrar em si a produção da riqueza em monopólios, mais ou menos cartelizados (minérios, muitos; e algodão, açúcar, café, gado, etc.); construíram os mesmos regimes presidencialistas e universalistas à francesa, liberais versus conservadores, senhores da terra versus senhores da cidade; a política das câmaras altas e baixas: e lá no fundo, as "ideias que caem" dos que nunca foram ouvidos – pretos, indígenas, pobres, os condenados da terra.

Olhando a América assim invertida, então, não nos permite identificar de que país estaríamos a falar – aquele retrato é fiel à Colômbia, ao Brasil, à história da Venezuela, mas também, em tantos aspectos aos EUA. Aliás, um dos grandes problemas de não se olhar para o mundo ao contrário é nunca se pensar os EUA como um país pós-colonial – isso é rótulo de pobre do Sul. 

E também é por isso que ficamos estupefactos e nos perguntamos como chegámos aqui: a ilusão de 8 anos de Obama como uma espécie de era prometida por JFK, a (des)ilusão da inevitabilidade da presidência de Trump, um populista, racista, xenófobo, que banalizou o discurso de ódio; e a resistência a Trump vir sobretudo não do centro do poder (como se adivinharia na tal "grande democracia"), mas de sectores socialmente marginalizados: mulheres (primeira marcha), muçulmanos, emigrantes, e, claro, sujeitos racializados. Não há excecionalismo norte-americano: circular em Bogotá ou em São Paulo é dar de caras com estas mesmas circunstâncias políticas e sociais – um pouco mais tropicalizadas, talvez.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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