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Moçambique: Ataques de extremistas islâmicos impedem eleições em regiões de Cabo Delgado
Mundo 15 min. 15.10.2019

Moçambique: Ataques de extremistas islâmicos impedem eleições em regiões de Cabo Delgado

Moçambique: Ataques de extremistas islâmicos impedem eleições em regiões de Cabo Delgado

Foto: AFP
Mundo 15 min. 15.10.2019

Moçambique: Ataques de extremistas islâmicos impedem eleições em regiões de Cabo Delgado

Completam-se dois anos sobre a data em que um grupo armado de trinta homens desencadeou um violento ataque contra a vila de Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado em Moçambique.

Ninguém até hoje sabe quem é realmente este grupo que continua a sobressaltar o interior da província de Cabo Delgado. Os seus membros dizem que pertencem ao grupo radical islâmico “Al Shabaab”, mas vários especialistas e até alguns clérigos muçulmanos não os consideram como tal. O governo, por razões contraditórias, prefere designá-los simplesmente como “bandidos”.

Na semana passada, por ocasião do aniversário do seu primeiro ataque armado, o grupo voltou a desencadear ataques reconhecidos pelas autoridades  comunicaram que combates “contra os malfeitores” se tinham desenrolado no dia 5 e que terminado com a eliminação de nove deles.

No entanto, após este ataque mais recente, os terroristas divulgaram uma foto com as armas que capturaram, nomeadamente metralhadoras Kalachnikov, roquetes RPG-7, morteiros e munições.

O início desta grave crise de segurança interna começou na noite de 4 para 5 de outubro de 2017, quando um grupo de alegados jihadistas atacou, pela primeira vez, a cidade de Mocimboa e os seus 40 mil habitantes. Em poucas horas tornaram-se senhores da localidade depois de assaltarem os agentes de um posto policial e da guarda de fronteiras.

Em 2018, o balanço dos actos de terrorismo deste grupo na província de Cabo Delgado foi de noventa mortos, 67 feridos e mais de 1600 casas destruídas em várias aldeias.

Segundo o investigador Eric Morier-Genoud, da Queen's University Belfast, o governo já admite que a violência é praticada por “criminosos” desempregados locais e que os ataques são o resultado do jihadismo global que tenta deslocar-se para Moçambique.

O académico diz que a violência e ausência de informações conduzem à confusão sobe o que realmente se passa no norte de Moçambique e sobre o que deve ser feito para reverter a situação.

O jornalista moçambicano Adérito Caldeira, do jornal “A Verdade”, que há muito acompanha este assunto, disse ao Contacto que “ninguém sabe quem é este grupo e que nem mesmo o Governo parece saber, pois o Presidente da República tem apresentado um novo responsável em cada ocasião que fala sobre isso”.

“A designação ‘Al Shabaab’ (jovens em árabe) é apenas usada pelo significado do termo numa das línguas falada na região, e que são basicamente a composição desses grupos. Nunca houve uma revindicação oficial de responsabilidade, apesar das notícias de que o ISIS o terá reivindicado a sua participação em alguns ataques”.

Para este jornalista não há sinais visíveis de radicalização por parte do clero islâmico em Moçambique.

O historiador moçambicano Yussuf Adam também recusa a tese de que o 'jihadismo' esteja na origem dos ataques de Cabo Delgado.

Apesar dos grupos responsáveis pela violência nunca terem feito reivindicações, há suspeitas sobre o grupo militante islâmico al-Sunnah. No entanto, para Yussuf Adam, os ataques “não têm nada a ver com a religião, mas sim com política”.

Numa entrevista à Lusa, após o primeiro ataque, Yussuf Adam, disse que aquilo que se passa na região explica-se de forma simples: "trata-se de uma revolta, de uma sublevação camponesa. Eu diria mesmo de uma sublevação popular, porque são pessoas da região que se sentem exploradas e discriminadas

O jornalista Adérito Caldeira, questionado sobre se há alguma possibilidade destes grupos começarem a ocupar áreas nestas regiões, ameaçando a integridade territorial do país, não hesita: “Já o estão a fazer. Em pelo menos três distritos, as eleições de terça-feira estão condicionadas”.

Na passada sexta-feira, o presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE), Addul Carimo, disse que as eleições em Cabo Delgado serão realizadas “onde for possível”.

Após uma reunião com os observadores da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), Carimo afirmou: “Faremos tudo para garantir que as eleições se vão realizar onde for possível, e onde não haja ameaças à vida das pessoas”.

O responsável eleitoral reconheceu que a ameaça terrorista pode tornar impossível a realização de eleições em alguns distritos desta província.

Carimo declarou que a CNE está a analisar as áreas que possam ser perigosas. “Diria que não há muitas”, disse, sublinhando: “Decidiremos como vamos lidar com essa matéria”.

Algumas aldeias têm sido queimadas nos distritos de Mocimboa da Praia, Macomia e Nangade, com os seus habitantes a fugirem para as zonas do litoral mais protegidas. Naturalmente, não poderão votar nas eleições gerais e das assembleias provinciais, dia 15, por não se encontrarem nos locais onde se registaram.

Adérito Caldeira confirma que os grupos terroristas nunca apresentaram reivindicações concretas e que o seu recrutamento é baseado na pobreza que existe na província.

Sobre a forma como o governo e as forças de segurança lidam com o fenómeno, este jornalista diz que “primeiro negaram, depois quiseram mostrar que tinham tudo sob controlo ...e na semana passada entraram na guerra propagandista divulgando os ataques supostamente vitoriosos, através da imprensa”. 

Num périplo pelo norte do país, em campanha eleitoral, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, confirmou na quinta-feira, em Mocímboa da Praia, que estava em curso uma grande campanha militar para destruir os grupos terroristas que tem matado cidadãos e queimado as suas aldeias em Cabo Delgado.

O candidato da Frelimo dirigia-se a milhares de apoiantes num comício festa que começou na pista do aeródromo local até às ruas de Mocímboa, onde condenou a Renamo, principal partido da oposição, por esta afirmar que foi a “Frelimo que trouxe o ‘Al-Shabaab’ para Cabo Delgado".

Nyusi considerou a declaração da Renamo como sendo ofensiva para as vítimas dos ataques terroristas e para as centenas de jovens moçambicanos que estão no mato a combater os rebeldes.

No mesmo dia, as forças de segurança anunciaram uma ofensiva contra os rebeldes nos distritos de Mocimboa da Praia e Macomia, que teriam provocado baixas severas entre os rebeldes.

Informações locais indicam que o exército tem bombardeado com artilharia as posições dos rebeldes na floresta de Mitope, numa operação de surpresa contra a sua base em Mocimboa da Praia, onde terão morrido três dezenas de insurgentes.

Os combates “contra os malfeitores” desenrolaram-se no sábado passado (dia 5) e terminaram com a eliminação de nove deles”, indicou no seu primeiro comunicado sobre o assunto o ministério da Defesa, sem fornecer mais detalhes.

A newsletter "Carta de Moçambique" afirma que nas operações morreram dois soldados russos que assessoram as forças de segurança.

Os russos não pertencem às forças armadas da Federação Russa, mas a um grupo paramilitar designado “Grupo Wagner”.

O jornalista Adérito Caldeira, à semelhança de alguns investigadores universitários, admite que o financiamento dos extremistas provém de actividades ilegais, como o corte de madeira, tráfico de marfim e de rubis.

Apesar dos grupos responsáveis pela violência nunca terem feito qualquer reivindicação, suspeita-se da mão do grupo islâmico al-Sunnah. No entanto, para Yussuf Adam os ataques não têm nada a ver com a religião, mas sim com política.

Em entrevista à Lusa, o historiador moçambicano garante que "não faz sentido falar de ‘jihadismo’", considerando ser um rótulo como outros que surgem associados "a tudo o que é populações islâmicas."

Para Yussuf Adam, aquilo que se passa na região explica-se de forma bem simples: "trata-se de uma revolta, de uma sublevação camponesa. Eu diria mesmo de uma sublevação popular, porque são pessoas da região que se sentem exploradas e discriminadas."

Violência começou há quase duas décadas

A onda de violência que se tem desenvolvido na zona costeira de Cabo Delgado está associada ao extremismo religioso islâmico e começou há quase duas décadas, considera, por seu lado, o investigador Fernando Jorge Cardoso.

Em entrevista à Lusa no início deste ano, declarou que esta situação, que ganhou uma dimensão de maior escala em Outubro de 2017, com os primeiros ataques violentos, "nada tem que ver com a exploração de gás na região", disse o coordenador de Estudos Estratégicos e do Desenvolvimento do Instituto Marquês de Valle Flôr e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE/IUL.

"O que está a acontecer na zona costeira a norte de Cabo Delgado não começou, contrariamente às informações, em 2017. Em 2017, começaram alguns actos de decapitação, que tiveram uma repercussão bastante forte em termos mediáticos, porque neste momento falamos de grandes investimentos de gás na mesma zona", sublinha.

Fernando Jorge Cardoso atribui a autoria da situação a uma "seita de dentro do Islão", que vem a actuar na região desde há cerca de duas décadas.

"Em Moçambique existem três organizações islâmicas. Uma delas é apoiada financeiramente pela Arábia Saudita, às claras", explica o investigador.

Trata-se, segundo Fernando Jorge Cardoso de "um acordo feito ainda no tempo de Samora Machel, em 1981, em que o chamado Conselho Islâmico foi autorizado a receber financiamento da Arábia Saudita para avançar com a sua versão mais wahabita, mais salafista, do Islão. Obviamente, não colocando em causa o Estado moçambicano nem se metendo nas áreas seculares" do Estado.

"O que aconteceu neste Conselho Islâmico, que tem a supervisão do wahabismo, da corrente wahabita em Moçambique, foi que numa parte do conselho, particularmente representada por elementos mais jovens que tinham sido mandados estudar em madraças [escolas religiosas islâmicas] da Arábia Saudita e de outros países islâmicos, houve uma cisão. Isto aconteceu em 2000", afirma.

Esta "cisão", segundo Fernando Jorge Cardoso, levou à edificação no norte de Cabo Delgado de um conjunto de mesquitas, onde começou a ser pregada uma abordagem radical do Corão e da 'sharia', a lei islâmica.

"Seis mesquitas começaram a pregar um islão muito mais radical e houve uma primeira sublevação, em 2010, por parte da população, que queimou uma dessas mesquitas, considerando que eram demasiado radicais", explica o investigador.

Por isso, sublinha o investigador, "o Conselho Islâmico de Moçambique, o tal ramo mais wahabita, incentivou e continua a incentivar uma intervenção militar do Governo na zona".

A radicalização, por outro lado, levou a que aquela fação militante moçambicana se aproximasse de elementos com a mesma visão radical do Islão no outro lado da fronteira norte do país, na Tanzânia, segundo Fernando Jorge Cardoso.

"Esta seita mais fundamentalista do wahabismo estende-se por uma região que ultrapassa o rio Rovuma, que passa para o lado da Tanzânia, e manifesta-se através de uma interpretação religiosa do Corão em que as pessoas deverão rezar descalças, deverão rezar com um punhal -- no caso, o punhal é substituído pela catana -, não deverão frequentar as escolas ocidentais - e daí dizer-se que estão ligados à questão do Boko Haram ou do Al-Shabaab, que é como a população local os chama", explica o investigador.

"Portanto, isto é um problema interno, latente, que vem de trás", em que "os ataques são feitos contra autoridades administrativas ou contra a população, ela própria", sublinha Fernando Jorge Cardoso.

Também não se trata de "uma insurreição dos muani", continua, "porque os muani - um grupo ou etnia com cerca de 200 mil pessoas, que se estende pelo nordeste de Moçambique e ilhas do Ibo com ligação forte à Tanzânia, presente na própria língua; muito distinta da etnia macua, a que pertence a maioria da população de Cabo Delgado, ou maconde, que é a segunda grande etnia nessa região - também estão a ser mortos".

"Os objetos da violência, das decapitações e de todos estes atos são a população da área. Portanto, isto não é uma insurgência de natureza étnica ou social contra o Estado ou contra as companhias petrolíferas", diz.

Entretanto, pesquisadores do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) de Moçambique investigaram o que estaria por trás destes atos de violência naquela região. Um trabalho de campo desenvolvido entre os meses de novembro de 2017 e fevereiro de 2018 analisou a complexidade das dinâmicas do grupo Al-Shabaab, que estará ligado à estrutura da violência em Cabo Delgado.

No estudo elaborado em co-autoria pelo clérigo muçulmano Sheik Saide Habibe, e pelos investigadores João Pereira e Salvador Forquilha, intitulado “Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: o caso de Mocímboa da Praia”, o clérigo desfez o equívoco de “pensarmos que (este grupo) é uma extensão do grupo radical da Somália, porque os métodos são similares”. O académico João Pereira, outro co-autor, corrobora a versão governamental de “terroristas” e considera que a ala militar do grupo foi treinada no Congo, Tanzânia, Quénia e Somália e pretende apenas criar “instabilidade na região para permitir o negócio ilícito no qual as suas lideranças estão envolvidas”.

A primeira constatação é que o grupo se instalou há vários anos na zona Norte da província de Cabo Delgado, primeiro como um movimento religioso constituído maioritariamente por jovens muçulmanos oriundos não só do distrito de Mocímboa da Praia mas também de distritos circunvizinhos. Porém os autores do estudo que não é conclusivo, apuraram que em finais de 2015 o movimento passou a incorporar células militares.

“Eles não levam os seus filhos as escolas formais porque é um pecado, andam munidos de armas brancas para simbolizar a jihad. Eles não aceitam dialogar com as estruturas administrativas locais, não aceitam dialogar com ninguém”, afirma.

O estudo constatou que a base social do grupo “são jovens socialmente marginalizados, sem emprego formal, sem escolarização, grande parte desses jovens são da etnia Kimwani”.

Para os autores do estudo, o que facilitou o recrutamento de jovens foram “as condições sociais degradantes (pobreza, desemprego) exclusão social, carência de serviços básicos de educação e saúde”.

O Sheik Habibe diz que o que contribuiu também para adesão ao movimento foi a “exclusão política dos kimwani, em relação aos Macondes, e que isso vem desde o tempo colonial, facto que explica a popularidade da Renamo entre eles. Para muitos dos jovens, o grupo representa uma oportunidade de realização de sonhos, uma nova família e dá uma sensação de solidariedade e segurança”.

João Pereira, professor na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), precisou que: “as células deles variam entre 10 e 20 pessoas, e conseguem multiplicar-se num distrito para 20 ou 30 células. Diziam-nos fontes locais que só no distrito de Mocímboa da Praia eram pelo menos mil jovens que estavam directa ou indirectamente ligados a essas mesquitas e que operavam nas redes informais. Uma outra fonte disse-nos que só na vila (de Mocímboa da Praia) os Al Shabaab tinham cerca de 350 fiéis”.

“Apregoam o não reconhecimento da estrutura do Estado e a implantação da sharia da maneira como eles concebem. Acabar com a relação do Estado com as lideranças das mesquitas e impedir a educação formal das crianças e substituí-la por uma educação corânica, mudar atitudes e comportamentos das mulheres em termos de indumentária, para eles qualquer muçulmano, principalmente aqueles líderes religiosos estão na linha de fogo, são os principais alvos deles”, sublinha Saide Habibe.

João Pereira adianta que o estudo não conseguiu apurar o número de vítimas desde a escalada do conflito. “De acordo com os depoimentos que recolhemos alguns dizem que morreram mais de 500 pessoas, outros falam em 1500, outros dizem que mais de 350 casas foram queimadas pelas tropas governamentais na perseguição dos grupos, referem uma quantidade significativa de mulheres que terão morrido num ataque que foi feito pelas tropas, porque os Al Shabaad usaram essas mulheres e crianças como escudos humanos”.

Quando Moçambique era uma colónia portuguesa, as autoridades favoreciam o catolicismo e, na época reprimiam o Islão e outras religiões. Mesmo assim, o Islão cresceu e aumentou o número de convertidos. Por altura da independência, os muçulmanos representavam 13% da população, mas esse número cresceu para os 18% na actualidade.

Após a independência, a Frelimo adoptou o Marxismo Leninismo e atacou todas as confissões, mas particularmente o Islão.

O sinal mais evidente foi um incidente no qual o Presidente Samora Machel de pés calçados entrou na principal mesquita do país. Por outro lado, o Estado mandou instalar unidades de criação de porcos em áreas muçulmanas, em nome do “desenvolvimento” dessas regiões.

O regresso de graduados africanos da Arábia Saudita na década de 70 deu à ala reformista dos islâmicos maior notoriedade. Assumiram o controlo de várias mesquitas e, em colaboração com as autoridades portuguesas, expandiram a sua presença por todo o território.

A principal organização nacional muçulmana do país é o Conselho Islâmico que foi criada após a independência com predominância de elementos wahhabitas com apoio das autoridades.     

"Não estamos distraídos e não nos podem distrair, os actos macabros que se registam em algumas zonas do centro do país e, com alguma intensidade, no Norte. Estamos atentos e não vamos deixar que o povo morra, sem protecção. Não vamos deixar"- avisou o Presidente moçambicano no seu último comício de campanha.

Sérgio Ribeiro Soares.

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