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Mischael Modrikamen.“Donald Trump vai acabar por aderir ao Movement”

Mischael Modrikamen.“Donald Trump vai acabar por aderir ao Movement”

Foto: Thierry Monasse
Mundo 10 min. 18.05.2019

Mischael Modrikamen.“Donald Trump vai acabar por aderir ao Movement”

O principal parceiro de Steve Bannon na Europa que fundou, com ele , um movimento para apoiar o ascenso da extrema-direita no mundo deu uma entrevista ao Contacto. Nesta conversa conta como foi a adesão do Presidente brasileiro, Bolsonaro e confessa pretender alargar o movimento, no futuro, a países como o Luxemburgo e Portugal.

Mischael Modrikamen é um conhecido advogado belga que em 2010 fundou o Partido Popular (Parti Populaire) para renovar a vida política na Bélgica. Queixa-se de ser desprezado pelo establishment e pelos media e fez recentemente queixa aos tribunais por as televisões RTBF e RTL discriminarem as ações de campanha do partido. Nos jornais internacionais, no entanto, nos últimos tempos, o nome de Modrikamen surge muito mais vezes: associado ao norte-americano Steve Bannon, antigo estratega de Donald Trump. Bannon e Modrikamen criaram o The Movement, um ‘clube’ internacional que se destina a dar fôlego aos ideiais de extrema-direita, ou ‘populistas’, primeiro na Europa, depois no resto do mundo. Durante a entrevista, Modrikamen, 53 anos, fumou um charuto enquanto bebe chá de uma caneca com a frase atribuída a Churchil ‘never give up’. A entrevista decorreu na sua moradia num dos bairros mais luxuosos de Bruxelas, onde é também a sede do The Movement.

Como começou a associação entre si e o Steve Bannon? Quem contactou quem?

Ele contactou-me. Quando o Trump era apenas um dos 12 candidatos republicanos percebi que ele era um dos grandes agitadores. Fiz um vídeo em inglês a apoiá-lo, que foi visto três milhões de vezes nos Estados Unidos. O vídeo estava em todos os sites conservadores e também no Washington Post. Trump foi eleito, e eu mandei um memo à equipa de transição do Brexit, em Inglaterra, a dizer que este movimento tinha que se tornar global . Nessa altura estavam ocupados com outras coisas, mas pedi a Nigel Farage para passar a ideia a Trump. E fui à tomada de posse em Washington. Fundei o movimento no papel nessa altura, em Janeiro de 2017, e em Junho recebi um telefonema do Farage a dizer que tinha lido o memo e que Bannon vinha à Europa e encontrámo-nos num almoço em Londres. E demo-nos logo bem. Isso está documentado num filme. Chama-se “The Brink”. No trailer há imagens de mim com Steve Bannon.

O Movement funciona como vocês planeraram há seis meses?

O Movement é um clube de líderes com as mesmas ideias. O objetivo é estabelecer relações. Inicialmente, Steve Bannon queria fazer mais. O que era basicamente fornecer serviços aos membros: redes sociais, ‘big data’, quartéis generais. E fomos confrontados com duas realidades. Por um lado, em muitos países europeus as contribuições do estrangeiro são proibidas. É essa a razão pela qual decidimos não fazê-lo. E, além disso, Bannon não percebeu imediatamente que na Europa as diferenças culturais entre os países são imensas. Por isso, o Movement é neste momento muito informal, o que não quer dizer que não prestemos serviços. Posso dizer-lhe que há imenso pensamento estratégico que está a ser fornecido, basicamente pelo Steve. Não é por acaso que foi ele que conseguiu eleger o presidente Trump contra todas as probabilidades. Os seus pontos de vista e pensamento estratégico são muito procurados e apreciados. Os conselhos dele não são memos com 25 páginas. Podem ser reuniões que vão de 15 minutos a metade de um dia com definição de estratégias.

Quantos líderes estão no Movement?

Antes contávamos. Mas neste momento nem isso é importante. Estamos a espalhar as nossas ideias. Somos um clube, nada mais e nada menos.

Tem contactos em Portugal ou no Luxemburgo?

Ainda não, mas numa fase posterior queremos ir aos países onde estão a ser lançados partidos populistas.

Qual é o seu papel neste momento?

Sou o co-fundador e o diretor executivo. Basicamente, eu e o Steve falamos um com o outro e trocamos uns 15 emails por dia. Emails curtos, duas frases. Inicialmente comecei por escrever 25 linhas. É totalmente inútil, ele não as lerá. Portanto, é estilo telegráfico, a combinar os passos a dar.

Como é que estas iniciativas são financiadas?

Financiamento privado. É a fortuna do Steve. Até aqui não tem sido dispendioso. O que teria sido caro seriam os serviços organizados para os partidos.

É essencialmente viagens e hotéis?

E algumas pessoas que trabalham para nós. Além de mim e do Steve há mais umas 4 ou 5 pessoas aqui e algumas nos EUA também.

Acha que o Trump vai ganhar as próximas eleições?

Não duvido. A economia está a florescer. Os melhores números dos últimos 60 anos, há quase pleno emprego e a sua popularidade está a disparar.

As relações entre Trump e Bannon, após este ter saído da Casa Branca não se tornaram muito difíceis?

Temos excelente relações com a Casa Branca. Donald Trump vai acabar por aderir ao Movement.

Está muito ocupado hoje, com entrevistas e um conferência de imprensa. Há alguma novidade?

Estou ocupado porque estou em campanha. Além das eleições europeias, temos uma eleição nacional e regional. E para além disso, há tudo o que diz respeito ao The Movement. De manhã estive numa conferência de imprensa aqui perto para apoiar candidatos locais, depois voltei para falar com o Contacto, a seguir dou uma entrevista ao Frankfurter Allgemeinen e à noite tenho a CNN. Uma exposição internacional enorme mas aqui na Bélgica sou completamente boicotado. Não me verá na tv. Ver-me-á na televisão em todo o lado, menos na Valónia.

Porque acha que isso acontece?

A Valónia é peculiar, tem sido dominada pela esquerda nos últimos 50, 60 anos. Com a esquerda a controlar não apenas a política mas também os media, a universidade. Não encontra professores de política de direita nas universidades aqui, porque os professores são cooptados. E os jornalistas da Valónia acham que eles decidem quais as ideias aceitáveis. E as minhas ideias são totalmente inaceitáveis. Em termos de incorreção política eu tenho a nota mais alta. O que significa que sou eurocético, quero limitar as migrações, estou contra o Islão radical e sou sionista, apoio Israel. Na Valónia isto está para lá de aceitável. Mas numa democracia normal eu seria convidado porque sou porta-voz de valores e ideias defendidas pela vasta maioria.

Acredita que nas próximas eleições a extrema-direita vai tornar-se o terceiro grupo no Parlamento Europeu?

Em primeiro lugar, não gosto do termo extrema-direita. Não tenho nenhum problema com populista. Sou conservador e populista. Não me encaixo na extrema-direita, temos estrangeiros nas nossas listas e a verdadeira extrema-direita escreve coisas horríveis, próximas do fascismo. Estas pessoas não são os meus modelos. Admiro Churchil, De Gaulle, Clemenceau e venho de um background socialista. O meu pai foi preso pela Gestapo quando tinha 16 anos. Passou três meses na prisão como resistente. Uma parte da minha familia foi deportada e morta em campos de concentração, por isso não tenho mesmo nada o sentimento de ser da extrema-direita. Sou conservador, estou preparado para dizer as coisas como elas são. Mas não sou um extremista, longe disso.

O que é um populista ?

O termo teve conotações muito negativas durante anos. Para nós significa que queremos representar o homem da rua. É isso o que Trump está a fazer; é o que estão a fazer os apoiantes do Brexit e também o que estão a fazer os gillets jaunes em França. E o Matteo Salvini em Itália, contra as elites. Eu quero ser o representante do homem da rua na Valónia e em Bruxelas.

Apoia o movimento dos gillets jaunes ?

Não apoio violência. As elites estão à volta de Macron, em Paris, Lyon, Bordéus. Esses são os que lucram com a globalização. E depois há o resto das pessoas, das pequenas cidades, que estão despovoadas e sem serviços básicos. As pessoas têm que fazer dezenas de quilómetros. É claro que quem vive em Paris e tem metro e Uber não precisa de carro. Subir os impostos sobre o diesel é sacrificar estas pessoas que não têm alternativas. Não concordo com a violência e com a infiltração dos Black Bloc. Mas as suas reivindicações iniciais são legítimas.

Acredita que esse grupo populista pode crescer no Parlamento Europeu?

Pode ficar com um quarto a um terço dos votos e devem ter aproximadamente 25 % dos deputados. Até agora o grande problema dos populistas é a divisão em três grupos: o Europa das Nações e das Liberdades, e os Conservadores e Reformistas Europeus e a Europa da Liberdade e da Democracia Direta. Mas isto vai mudar. Talvez façam um grupo no Parlamento Europeu, ou dois. Mas não nos esqueçamos onde está o verdadeiro poder: na Comissão, onde temos um déficit total de democracia, com estes oficiais não eleitos. E, claro, no Conselho Europeu, que é quem toma a decisão final na legislação e nas políticas. E aí um quarto dos líderes são populistas. Os populistas já estão no poder em muitos sítios. Nos EUA, no Brasil, com Bolsonaro, que faz parte do Movement. As eleições europeias são apenas uma entre muitas batalhas.

Como foi essa adesão de Bolsonaro?

O filho dele juntou-se ao Movement há dois meses, em nome do pai. Os filhos do Bolsonaro e a equipa encontraram-se com Steve Bannon em Nova Iorque antes da campanha ser lançada. E na Europa, há muitos populistas no poder: em Itália, na Áustria, na Hungria, na Polónia, na República Checa, na Dinamarca e na Finlândia.

Estes líderes têm as mesmas opiniões sobre os temas principais?

Conseguimos estar de acordo num certo número de assuntos. Todos queremos recuperar soberania, queremos fronteiras para definir quem é e quem não é cidadão – porque sem isto não há democracia. Queremos lutar contra o Islão radical. Sobre isto os populistas de todo o mundo concordam. Para lá disto, claro que há diferenças entre o polaco e o italiano na questão russa. Os polacos, por razões históricas, são muito anti-Rússia. Enquanto Salvini e Orbán têm relações mais próximas com o Kremlin.

Quais são os outros lideres europeu que se destacam?

Estou muito próximo do Nigel Farage. Admiro Orbán e sobretudo Matteo Salvini (o ministro do Interior italiano), que é muito respeitado no mundo inteiro por uma razão. Ele mostrou que o populismo não é só palavras, é ação. Quando em Itália toda a gente se queixava da invasão dos migrantes, que estava a ser um pesadelo, e não havia nada a fazer, ele tomou uma medida: fechou os portos. Num ano a migração em Itália foi reduzida em 90%.

Não acha cruel fechar os portos aos migrantes?

Muito poucos são refugiados políticos. São quase todos migrantes económicos e nós não precisamos deles, sobretudo os que não falam as nossas línguas, não têm formação e não partilham dos nosso valores. Quanto aos verdadeiros refugiados estamos preparados para ajudar, mas perto das zonas de conflito. Vou dar um exemplo, não acho inteligente ter um milhão de sírios a vir para a Europa, mas digo que a Europa pode protegê-los e ajudar a criar campos e locais junto às fronteiras, com a protecção dos nossos exércitos, e dar-lhes comida e educação. A Merkel quando abriu a porta aos migrantes cometeu um grande erro. E está a pagá-lo caro. 

Telma Miguel

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