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Mercenários pagos pela Turquia combatem no Cáucaso contra a Arménia
Mundo 3 min. 12.10.2020

Mercenários pagos pela Turquia combatem no Cáucaso contra a Arménia

Mercenários pagos pela Turquia combatem no Cáucaso contra a Arménia

Mundo 3 min. 12.10.2020

Mercenários pagos pela Turquia combatem no Cáucaso contra a Arménia

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Recebem 1.000 euros por mês e são combatentes pagos por Ancara que lutavam contra o Governo sírio e que agora fazem a guerra ao lado das tropas do Azerbaijão contra a Arménia em Nagorno Karabakh.

Em 2018, o gabinete de impressão do governo norte-americano publicava um documento com pouco mais de 60 páginas sobre a complexa situação política no Cáucaso, onde a Arménia e o Azerbaijão mantêm um diferendo sobre o enclave separatista de maioria arménia de Nagorno Karabakh. Nesta publicação oficial, a Casa Branca fazia referência às declarações do azeri Hajibala Abutalybov. "O nosso objectivo é a completa eliminação dos arménios. Vocês, nazis, já eliminaram os judeus nos anos 30 e 40, certo? Deviam estar em condições de entender-nos", disse em 2015 o que fora vice-primeiro-ministro do Azerbaijão e presidente da Câmara Municipal de Baku até ao ano passado a uma delegação alemã proveniente da Bavária. 

O ódio à Arménia é tal que o atual presidente azeri Ilham Aliyev indultou e declarou, em 2012, herói nacional Ramil Safarov, que havia sido condenado a prisão perpétua por decapitar com um machado um tenente arménio numa formação da NATO. É neste afluente de interesses que a Turquia, responsável por um genocídio contra o povo arménio no princípio do século XX, se apresenta como aliada do Azerbaijão numa região por onde passam importantes oleodutos e gasodutos que alimentam o mercado mundial de energia.

Quando rebentou novamente o conflito há duas semanas, a Arménia acusou a Turquia de estar a participar militarmente ao lado do Azerbaijão, informação imediatamente negada pelo Governo azeri. Agora, são vários os meios internacionais que dão conta do envolvimento de Ancara nos combates. O El País revelou esta segunda-feira um vídeo que circula nas redes sociais que retrata um grupo de pessoas fardadas que dançam e riem em frente à câmara de um telemóvel. A gravação chegou a um chat no Telegram de mercenários sírios na manhã de 3 de outubro que acabou nas redes sociais como o Twitter.

De acordo com o El País, o vídeo, com pouco mais de um minuto de duração, é gravado em Horadiz, uma cidade do Azerbaijão na retaguarda da linha da frente deste conflito no Alto Karabakh. Os jovens falam árabe e pertencem à Divisão Sultão Murad, grupo jihadista nascido no noroeste da Síria há mais de sete anos. É uma das mais claras provas da presença de combatentes que vieram do conflito sírio para alimentar as fileiras azeris, em combate com os arménios desde 27 de setembro.

Precisamente dois dias antes desta gravação aparecer nas redes sociais, o Presidente francês Emmanuel Macron revelou que tinha informações sobre a transferência de jihadistas sírios da cidade turca de Gaziantep, a pouco mais de uma hora da fronteira síria, para a linha da frente no Alto Karabakh, onde mais de 400 pessoas morreram até agora. 

O jornal espanhol revela que são combatentes estrangeiros no teatro de operações entre arménios e azeris. São mercenários pagos, de acordo com várias fontes, pelos cofres turcos. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), da oposição como este grupo, informou a 6 de outubro que 50 corpos sírios mortos em combate tinham sido deslocados de Nagorno Karabakh de volta à Síria. 

A guerra entre os cristãos arménios e os muçulmanos azeris pode explicar o envolvimento destes homens mas é sobretudo o dinheiro que o faz combater. A OSDH estima que Ancara está a oferecer a estes homens 1.500 dólates (cerca de 1300 euros) por mês, um pouco mais do que aquilo que estão a ser pagos outros mercenários a soldo da Turquia na Líbia.

Um destes mercenários enviado a partir da Síria, contactado por jornalistas do serviço árabe da BBC, referiu o acordo de pagamento antes da sua viagem na ordem dos 2.000 dólares. As autoridades turcas e azeris continuam a negar estas informações. Se por um lado, o Azerbaijão tem a Turquia como aliado predominante, do outro, a Arménia tem a Rússia. Já não é só na Síria e na Líbia que a Turquia disputa o poder dos aliados de Moscovo. A Arménia é o novo cenário em que Ancara participa numa manobra que, juntamente com a tensão com as autoridades gregas a propósito do Mar Mediterrâneo, preocupa cada vez mais a União Europeia.

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