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Meio quilómetro de fila em Nova Iorque para matar a fome
Mundo 3 min. 24.08.2020

Meio quilómetro de fila em Nova Iorque para matar a fome

Meio quilómetro de fila em Nova Iorque para matar a fome

Foto: La Jornada
Mundo 3 min. 24.08.2020

Meio quilómetro de fila em Nova Iorque para matar a fome

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
"O que digo aos meus filhos quando olham para mim com barrigas famintas, especialmente ao meu filho de 11 anos? Parte-me o coração. Eu sou o pai deles. É suposto eu alimentá-los", afirma um dos cidadãos que recorre à caridade. O Food Bank of New York calcula que haja centenas de milhares de pessoas a passar fome no coração económico dos Estados Unidos.

São cerca de 400 metros de fila para recolher comida na organização La Jornada, em Nova Iorque. Antes do sol nascer, revela o New York Post, centenas de pessoas esperam pela abertura das portas no bairro de Queens. Como durante a grave crise que se abateu sobre os Estados Unidos, há um século, a falta de emprego, num grave contexto sanitário, volta a deixar centenas de milhares de pessoas à mercê da caridade. 

Quando a pandemia chegou a Nova Iorque, os armazéns de La Jornada albergavam alimentos para cerca de mil famílias por semana. Agora, ultrapassa as 10 mil. De acordo com o Food Bank of New York, são centenas de milhares de pessoas nesta situação nos cinco principais bairros da cidade.

"Faz-me lembrar o quadro da Grande Depressão em que um homem de fato e gravata dá a outro homem de fato e gravata uma maçã. Era tudo o que ele tinha", afirmou Pedro Rodriguez, da La Jornada, ao New York Post. "Damos tudo o que temos, mas isso não é suficiente".

Idosos, mães e filhos, jovens, entre eles muitos imigrantes, esperam horas para saciar a fome. "Sentimo-nos debaixo de água, afogados num tsunami de pessoas", acrescentou Rodriguez, um voluntário que é também o diretor executivo do armazém de alimentos. "Isto não é como uma pequena miúda a cair. Os números são inacreditáveis".

Em menos de uma hora de sábado, Rodriguez e o seu exército de outros voluntários - cerca de 400 espalhados por Queens - serviram quase 250 nomes. O protocolo era que quem chegasse primeiro seria também o primeiro a ser servido. Até que os mais necessitados começaram a chegar de madrugada com medo de que a comida não chegasse. No fim de março, a fila chegou a atravessar 28 quarteirões.

Os casos reportados pelo New York Post são muito diversos. Walter Barrera chegou às 6 da manhã para ir buscar arroz, batatas, latas de sopa e até mesmo fruta e vegetais para alimentar a família durante uma semana. Com 50 anos, passa pelo armazém todos os sábados desde que perdeu o seu trabalho na construção há quatro meses. Não consegue encontrar trabalho e os seus dois filhos mais velhos, de 19 e 17 anos, também não. Tem ainda um filho mais novo com 11 anos.

"O que digo aos meus filhos quando olham para mim com barrigas famintas, especialmente ao meu filho de 11 anos?" perguntou Barrera, que veio da América do Sul há duas décadas. "Parte-me o coração. Eu sou o pai deles. É suposto eu alimentá-los".

Por sua vez, Julio Moncayo, operário da construção civil, com esposa e uma filha de 7 anos de idade, não recebe o suficiente para suportar as despesas da renda da casa e a alimentação. "Não posso ser orgulhoso, tenho de vir aqui. Tenho de alimentar a minha família", referiu ao New York Post. "É duro. O que é que vou fazer?"

Aos domingos, o camião da La Jornada instala-se em Woodside. Às quartas-feiras, Rodriguez faz duas paragens no bairro de Corona. As quintas-feiras são reservadas para os cerca de 900 que vivem no complexo onde se situa o armazém alimentar. Os idosos e as pessoas com deficiência vão às sextas-feiras. E os sábados são para qualquer pessoa que precise de uma ajuda. "Nunca estivemos preparados para isto", disse ele, "mas crescemos nisto".

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