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Médio Oriente. A guerra por um fio
Mundo 6 min. 08.01.2020 Do nosso arquivo online

Médio Oriente. A guerra por um fio

Médio Oriente. A guerra por um fio

Foto: AFP
Mundo 6 min. 08.01.2020 Do nosso arquivo online

Médio Oriente. A guerra por um fio

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Os militares puseram ao presidente dos Estados Unidos várias hipóteses em cima da mesa. Não pensavam que escolhece a mais extrema das propostas.

Não é estranha a alusão ao assassinato do arquiduque Franz Ferdinand nas redes sociais logo após o atentado contra Qassem Soleimani. À semelhança do acontecimento que levou à Primeira Guerra Mundial, o ataque contra uma das figuras mais importantes do Estado iraniano por ordem da Casa Branca abalou o tabuleiro geopolítico mundial e faz o mundo estar, uma vez mais, à beira de um conflito de dimensões incalculáveis.

Se para a administração norte-americana foi uma resposta legítima ao ataque contra a embaixada dos Estados Unidos na capital iraquiana, o The New York Times abre o véu sobre o que terá levado a esta tomada de decisão por parte de Donald Trump. De acordo com o jornal norte-americano, nos dias que antecederam a iniciativa militar, altos funcionários puseram ao presidente dos Estados Unidos várias hipóteses em cima da mesa. Mas não pensavam que Donald Trump fosse escolher a mais extrema das propostas. Nas guerras travadas desde 11 de setembro de 2001, os funcionários do Pentágono ofereceram várias vezes opções improváveis aos presidentes para que outras sugestões parecessem mais viáveis.

De facto, segundo o The New York Times, "depois de rejeitar inicialmente a opção Soleimani em 28 de dezembro e autorizar ataques aéreos contra um grupo xiita apoiado pelo Irão, dias depois Trump viu as imagens na televisão de ataques contra a embaixada norte-americana". Foi então que escolheu a opção mais extrema apesar da estupefação dos altos funcionários do Pentágono.

Com o embaixador iraniano para as Nações Unidas a reclamar que se tratou de um ato de guerra, os próprios democratas norte-americanos repudiaram o ataque com a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, a questionar o facto de o Congresso apenas ter sido informado oficialmente no domingo, vários dias depois. Entretanto, dois congressistas democratas anunciaram também que vão apresentar uma resolução na Câmara dos Representantes para impedir que Trump leve unilateralmente o país a uma guerra com o Irão. Apesar de estar a braços com um processo de destituição, Donald Trump desafiou os democratas ao que a aprovação do Congresso era uma instância "não requerida" e que a sua conta de Twitter servirá de notificação se decidir atacar novamente o Irão.

"Estas publicações servirão de notificação ao Congresso que, se o Irão atacar qualquer pessoa ou alvo americano, os Estados Unidos irão responder rápida e completamente e, talvez, de forma desproporcional", publicou Trump. "Esse aviso legal não é requerido, mas está dado mesmo assim!"


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Apagar a fogueira com gasolina

Em Bagdade, o Parlamento iraquiano aprovou uma resolução pela saída das forças militares estrangeiras do país, o que levou vários países a suspender qualquer atividade no território. Por sua vez, de acordo com a imprensa local, os deputados iranianos viabilizaram uma moção denominada "dura vingança" que designa o Comando Central das forças armadas norte-americanas como "organização terrorista" e o governo de Donald Trump de "patrocinador do terrorismo".

"Hoje, depois da cruel medida americana de assassinar o general Soleimani, cuja responsabilidade foi assumida pelo presidente dos Estados Unidos, estamos a alterar a lei anterior e a anunciar que todos os membros, comandantes, agentes e responsáveis pelo martírio do general Soleimani serão considerados terroristas", declarou Ali Larijani, presidente desta câmara.

O certo é que o terramoto provocado pelo ataque com drones contra Qassem Soleimani está a provocar dores de cabeça às autoridades norte-americanas que temem a retaliação prometida pelo Irão e reações de cautela nos aliados de Washington que vêem como Donald Trump continua a acirrar a fogueira do Médio Oriente com mais gasolina.

De acordo com a Lusa, o presidente norte-americano advertiu Teerão que os Estados Unidos identificaram 52 locais no Irão e que os atacarão "muito rapidamente e duramente" se a República Islâmica atacar pessoal ou alvos americanos. Alguns desses locais iranianos "são de muito alto nível e muito importantes para o Irão e para a cultura iraniana", precisou Donald Trump numa mensagem da sua conta da rede social Twitter.


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As declarações do inquilino da Casa Branca caíram muito mal, uma vez que o ataque a lugares e bens de interesse cultural em caso de conflito armado é considerado pelas Nações Unidas como crime de guerra. Foi a própria diretora-geral da Unesco que em reunião com o embaixador iraniano em Paris, Ahmad Jalali, enfatizou que os Estados Unidos e o Irão ratificaram duas convenções, em 1954 e 1972, sobre a proteção da propriedade cultural e do património mundial.

Promessas de vingança

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, pediu na segunda-feira que Washington e Teerão se abstenham de "ações irreversíveis", garantindo usar "todos os contactos ao nível da União Europeia" (UE) para uma redução das tensões no Médio Oriente. Numa publicação feita na rede social Twitter, Charles Michel informou ter telefonado ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, sobre a situação no Médio Oriente e na Líbia. "Concordámos com a necessidade de reduzir as tensões na região, que é do interesse de todas as partes", referiu Charles Michel. E garantiu: "Continuarei a usar todos os contactos ao nível da UE e mais além para convencer as partes a absterem-se de ações irreversíveis".

Mas parece inevitável que o Irão reaja de alguma forma ao assassinato de Qassem Soleimani.

O secretário do Conselho de Segurança Nacional do Irão, Ali Shamkhani, assegurou que o Irão equaciona 13 cenários para responder ao assassinato enquanto promete um "pesadelo histórico" aos Estados Unidos. Por sua vez, o ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, indicou que a contagem regressiva para a saída de Washington do Oriente Médio já começou.

Uma das consequências para já do ataque é o anúncio por parte do Irão da saída do acordo nuclear assinado em 2015 que impunha ao país limites ao número de centrifugadoras para enriquecer urânio para evitar que Teerão desenvolvesse armas nucleares. Quase dois anos depois de os Estados Unidos terem abandonado o tratado e terem imposto sanções ao Irão, a morte de Soleimani precipitou a decisão.


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