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Mais dois tiros no porta-aviões
Comentário Mundo 3 min. 18.07.2020

Mais dois tiros no porta-aviões

Mais dois tiros no porta-aviões

Foto: AFP
Comentário Mundo 3 min. 18.07.2020

Mais dois tiros no porta-aviões

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
De um lado a corrupção, do outro divisões e nacionalismo. Foi apenas mais uma semana difícil na Europa.

 Imaginemos a Europa como um navio-almirante. Um enorme couraçado que transporta 27 aviões, servindo-lhes de apoio, base e refúgio, organizando-os e permitindo-lhes muito maior alcance e poder do que teriam se voassem por aí isoladamente. Pois bem, o porta-aviões acaba de receber dois tiros de “fogo amigo” em cheio no casco.

O primeiro veio do avião ferrugento da esquadra: a Bulgária é o país mais pobre da União Europeia, e (não é coincidência) também o mais corrupto, pelo menos a avaliar pelos rankings da Transparência Internacional. Mas a liderança do primeiro-ministro Boiko Borissov, antigo porteiro de discoteca e guarda-costas do ditador comunista do país, foi sempre apoiada e encorajada pela gerência alemã do porta-aviões europeu, devido a “afinidades ideológicas” (os governos de Borissov e Merkel são da mesma família política democrata-cristã). O resultado foi que a mafia capturou o que há de mais valioso no país; tudo, desde os melhores negócios, media, hotéis e praias, clubes de futebol e mesmo as instituições judiciais e governamentais estão nas mãos de meia dúzia de oligarcas amigos do poder, isto enquanto a população se foi tornando cada vez mais desencantada e cínica com tudo o que vai vendo em seu redor.

A podridão ficou gritantemente evidente na quinta-feira, quando um político da oposição arribou num pequeno bote a uma praia (teoricamente) pública e foi imediatamente atacado por uns capangas vestidos de negro e óculos escuros. Estes seguranças privados de um mafioso com dinheiro eram afinal membros dos serviços especiais búlgaros, e como tal pagos pelos impostos de todos... No mesmo dia, foi divulgada uma foto do primeiro-ministro dormindo em casa – ao seu lado, um monte de notas de 500 euros, barras de ouro, e um revólver. Tudo isto foi demais até para os desencantados búlgaros, que vieram para a rua em protesto contra a mafia – a polícia respondeu enviando manifestantes para o hospital e a CDU alemã já veio reafirmar a sua confiança em Borissov.

O segundo tiro veio direitinho de quem mais ganhou em juntar-se ao porta-aviões: depois da campanha eleitoral mais renhida (e suja) desde o advento da democracia, a Polónia – um país completamente transformado desde a adesão à UE em 2004, com o PIB per capita a triplicar durante estes últimos 16 anos e os fundos europeus a valerem 3,4% da economia – acabou por reeleger Duda como presidente; um homem que todos, incluindo os seus apoiantes, veem como um fantoche de quem verdadeiramente controla o poder na sombra, Kaczyński. O partido “Lei e Justiça” tem agora caminho completamente livre para, nos próximos anos, afastar tudo e todos que não se conformem com as suas opções ultranacionalistas (e logo, anti-europeias), xenófobas, ultracatólicas, anti-semitas e anti-direitos das minorias; por exemplo uma das promessas/ameaças do reeleito presidente foi criar zonas do país que seriam “livres de gays”. Um programa assim, validado por uma tv estatal que não passa de caixa de propaganda e ajudado por uns programas de subsídios a famílias que se assemelham muito a compra de votos, logrou vencer num país dividido ao meio: este contra oeste, velhos contra jovens, aldeias contra cidades... e liberais contra intolerantes.

De um lado a corrupção, do outro divisões e nacionalismo; assim segue o porta-aviões, cambaleando, não se insurgindo com quem não respeita os seus valores mais profundos. Foi apenas mais uma semana dificílima para a Europa.

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