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Anestesia local
Opinião Mundo 3 min. 14.09.2021
Legado de Angela Merkel

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Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 14.09.2021
Legado de Angela Merkel

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Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
16 anos depois, o mundo navega direitinho ao icebergue, com a Alemanha adormecida ao leme.

Tenho um amigo que tem uma forma muito própria de lidar com os problemas da vida: escondê-los. Não os prevenir, não os enfrentar, não os resolver; mas sim deixá-los aumentar e ganhar vida própria. Reparem que por vezes até resulta: o problema vai-se arrastando, acaba por cansar-se, e desaparece. 

Às vezes o carro deixa mesmo de fazer aquele ruído irritante, ou a polícia esquece-se de insistir para pagar aquela multa de excesso de velocidade. Pode acontecer. O mais certo, no entanto, é que o carro deixe de arrancar, que a multa vá parar ao tribunal, e que este decrete a suspensão da carta de condução. Os problemas são assim, têm uma forte tendência para apodrecer se não forem cortados a tempo; e aí, as soluções de recurso são sempre piores e mais custosas.

 Se numa versão alternativa da História o meu amigo tivesse sido chanceler alemão nos últimos 16 anos, acho que poucos notariam a diferença. A estratégia de Angela Merkel para lidar com as dificuldades foi invariavelmente a mesma: protelar, adiar, esconder, não decidir e esperar que o problema se resolvesse por si mesmo. Então, no último momento antes do abismo – e só aí – Merkel recorreria ao seu marketing de "ponderação" para apresentar, sob pressão máxima, uma solução paliativa que deixava toda a gente descontente.

O balanço é claro: não funcionou. 16 anos depois, olhamos em volta e vemos o mundo em estado desastroso, navegando direitinho ao icebergue – com a Alemanha adormecida ao leme. E com ela toda a Europa, porque Angela não lidera mas também não deixa liderar. A Rússia semeia a discórdia pelo planeta – e a Alemanha serve de comparsa de Putin para grandes negócios energéticos. 

A China ri-se dos direitos humanos enquanto constrói estradas por toda África – a Alemanha fecha os olhos porque quer vender muitos carros poluentes a Pequim. Os EUA deixaram de incluir a Europa no seu guarda-chuva de segurança, Merkel assobia para o ar e finge que não se passa nada. Há uma crise de refugiados e migrantes em direcção à Europa, a Alemanha aceita alguns para ficar bem na fotografia mas demite-se de pugnar por um plano duradouro e justo para toda a UE. 

O legado de Angela Merkel dentro do país é de "estabilidade". Mas a palavra mais correcta seria "anestesia".

A crise financeira de 2008 esventrou a Europa. Mais de uma década depois, o fosso entre os dois tipos de europeus – grosso modo, os "egoístas" do Norte e os "preguiçosos" do Sul – continua a aumentar, e as origens desse fosso (ou a maior parte delas) residem na inacção insuportavelmente longa de Angela e do seu comparsa Schäuble. 

Quando uma solução tardia e desequilibrada foi finalmente tomada, foi-o sobretudo em benefício dos bancos alemães. E agora, a Europa arde. Literalmente. Isto quando não está a ser inundada. No plano da crise climática, Merkel esperou mesmo até cair no abismo; há dois meses, afectada pelas sondagens e com a hipocrisia ligada no máximo, sentenciou: "temos de avançar mais rápido no combate às alterações climáticas". Seria ridículo não fosse dramático. 

O legado de Angela Merkel dentro do país é de "estabilidade". Mas a palavra mais correcta seria "anestesia". Os dois esquecíveis candidatos a substituir a chanceler apostam em continuar a grande ilusão germânica de viver isolada e tranquilamente às custas de uma Europa e de um mundo em desmoronamento. Alguém devia ter a coragem de dizer a verdade aos eleitores alemães: essa ilusão também já apodreceu.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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