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Líderes mundiais tentam evitar internacionalização da guerra na Líbia
Mundo 5 min. 20.01.2020

Líderes mundiais tentam evitar internacionalização da guerra na Líbia

Líderes mundiais tentam evitar internacionalização da guerra na Líbia

Foto: AFP
Mundo 5 min. 20.01.2020

Líderes mundiais tentam evitar internacionalização da guerra na Líbia

Depois do Iraque e da Síria, o conflito na Líbia ameaça internacionalizar-se. Os principais líderes mundiais juntaram-se este domingo em Berlim para evitar mais uma escalada, desta vez no norte de África.

Desde o assassinato, em 2011, de Muammar Khadafi, na Líbia, numa guerra que teve a participação de vários países europeus e dos Estados Unidos, que a comunidade internacional tenta voltar a juntar as peças de um país fragmentado. Rússia, Turquia, Alemanha, Itália e França, entre outras nações, procuraram este domingo, em Berlim, encontrar uma solução para o barril de pólvora líbio. O petróleo, o fluxo de migrantes e a presença do terrorismo salafista estiveram em cima da mesa numa conferência que procurou assentar as bases para um processo de paz. Os participantes, de acordo com o El País, insistem num cessar-fogo permanente e num embargo da venda de armas à Líbia que seja fiscalizado. 

O objetivo em Berlim tem sido, sobretudo, forçar as partes em conflito pelo controlo do país e dos poços de petróleo a deixarem de receber ajuda militar estrangeira num conflito com um número crescente de atores secundários que se alimentam de armas e tropas. São já muitos os alertas para a crescente internacionalização de um conflito que ameaça tornar-se numa nova Síria quando o Iraque e o Irão voltam a estar em turbulência pelo recente assassinato do general Qassem Soleimani.

Quem é quem no conflito líbio

Na semana passada, o rei Abdullah da Jordânia alertou numa entrevista ao France24 que a Turquia estava a transferir para a Líbia milícias da zona noroeste da Síria, onde os seus aliados no terreno, conjuntamente com tropas turcas, resistem ao avanço do exército sírio, que recebe o apoio militar do Irão e da Rússia. No confronto evidenciam-se apoios que retratam a internacionalização do conflito. O governo de unidade nacional, reconhecido pelas Nações Unidas, beneficia do apoio político da União Europeia, bem como do apoio económico e militar da Turquia, e político do Qatar e da Itália, a antiga potência colonial que também admitiu um eventual envio de soldados. Já o marechal Khalifa Haftar que lidera o designado Exército Nacional Líbio, apoia o parlamento eleito e o executivo não reconhecido na cidade de Tobruk (leste) e garante apoio económico e militar do Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Rússia, e apoio político da França e Estados Unidos. As forças leais a Khalifa Haftar bloquearam, aliás, no sábado, os principais terminais petrolíferos situados no leste do país, indicou a Companhia Nacional de Petróleo, na véspera da conferência internacional em Berlim.

Mas o perigo de internacionalização do conflito pode pôr em confronto dois rivais históricos. Para além do pacto de cooperação militar, a Turquia e a Líbia assinaram, no final de novembro, um acordo para demarcar as fronteiras marítimas das suas zonas económicas exclusivas. Este novo desenho fronteiriço abre caminho a que Turquia explore o seu território em busca recursos naturais e o acordo bilateral foi enviado para a aprovação da ONU. O problema é que as áreas delimitadas se sobrepõem às águas territoriais e zonas económicas exclusivas do Egito e da Grécia. Em protesto contra o acordo, o governo grego expulsou o embaixador líbio de Atenas. O governo helénico chegou a dizer que encararia como incitação à guerra o reconhecimento de tal acordo.

De acordo com o El País, o controverso pacto é a última tentativa de Ancara de não ficar de fora da distribuição de petróleo no Mediterrâneo Oriental. Grécia, Chipre, Egito e Israel assinaram vários acordos para a extração e transporte de gás encontrado sob as suas águas, excluindo a Turquia. E Ancara argumenta que a Grécia está a utilizar injustamente a presença de pequenas ilhas junto da Turquia para justificar a extensão da sua zona económica exclusiva que diminui o espaço marítimo turco.

À procura de uma solução para evitar a guerra total

O impacto do acordo alcançado em Berlim e a implementação do cessar-fogo dependerá em grande parte da vontade dos líderes líbios em confronto que não se sentaram à mesa das negociações patrocinadas pela ONU.

"Todos os participantes comprometeram-se a não fornecer apoio militar ou armas e a respeitar o embargo de armas e as tréguas", declarou a chanceler alemã Angela Merkel, segundo o El País, na conferência de imprensa no final do encontro. "Todos os participantes comprometeram-se a renunciar à interferência no conflito armado e nos assuntos internos da Líbia", disse também o secretário-geral da ONU, António Guterres. "Havia um risco real de escalada regional e isso foi evitado hoje em Berlim", acrescentou.

Os principais representantes do conflito, Fayez Sarraj, chefe do governo, e o homem forte da Líbia, Khalifa Haftar, não participaram da conferência, mas viajaram para Berlim, onde se encontraram com Merkel. "As diferenças são tão grandes que não houve um encontro entre os dois. Fisicamente estiveram em Berlim mas não na mesma sala", acrescentou a chanceler. Além deles, estiveram presentes Vladimir Putin (Rússia), Recep Tayyip Erdogan (Turquia), Boris Johnson (Reino Unido), Emmanuel Macron (França), Giuseppe Conte (Itália), Ursula von der Leyen e Josep Borrell (União Europeia), Mike Pompeo (Estados Unidos), Ghassan Salamé (ONU) e Merkel, como anfitriã de uma cúpula realizada na sede do governo alemão sob fortes medidas de segurança.

A presença de figuras da primeira linha da política mundial mostra a gravidade da situação e a urgência de um acordo de paz para evitar a onda expansiva de um conflito capaz de saltar para além das suas fronteiras. "Se não controlarmos a situação, toda a região poderá ser desestabilizada", avisou à imprensa Josep Borrell, Alto Representante da UE para a Política Externa. "Este não é um evento isolado, este é o início de um processo", acrescentou, aludindo ao que espera que faça a diferença entre a conferência de Berlim e os eventos anteriores.

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