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Líderes europeus reúnem-se hoje em Versalhes para discutir a guerra na Ucrânia
Mundo 9 min. 10.03.2022
O futuro em cima da mesa

Líderes europeus reúnem-se hoje em Versalhes para discutir a guerra na Ucrânia

O cenário escolhido – que se deve ao facto de ser atualmente a França que detém a presidência rotativa do Conselho da União Europeia – não deixará de carregar vários simbolismos históricos. O mais evidente é que foi em Versalhes que foi assinado o Tratado que pôs fim à I Guerra Mundial.
O futuro em cima da mesa

Líderes europeus reúnem-se hoje em Versalhes para discutir a guerra na Ucrânia

O cenário escolhido – que se deve ao facto de ser atualmente a França que detém a presidência rotativa do Conselho da União Europeia – não deixará de carregar vários simbolismos históricos. O mais evidente é que foi em Versalhes que foi assinado o Tratado que pôs fim à I Guerra Mundial.
AFP
Mundo 9 min. 10.03.2022
O futuro em cima da mesa

Líderes europeus reúnem-se hoje em Versalhes para discutir a guerra na Ucrânia

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O presidente Macron convidou os líderes europeus para discutirem esta quinta-feira no célebre palácio como travar o avanço de Putin na Ucrânia, sair da dependência energética russa e investir numa defesa comum europeia. Amanhã, o programa incide sobre as perspetivas para a economia.

A partir das 16h30 desta quinta-feira, o anfitrião Emmanuel Macron irá receber em Versalhes os restantes 26 líderes europeus (e ainda Charles Michel e Ursula von der Leyen) para o começo de um Conselho Europeu informal que dura esta quinta e sexta-feira. Entre os muitos espelhos e dourados da antiga residência de Luís XVI, vai ser discutida em primeiro lugar a invasão russa da Ucrânia e o que fazer para pará-la. 

O cenário escolhido – que se deve ao facto de ser atualmente a França que detém a presidência rotativa do Conselho da União Europeia – não deixará de carregar vários simbolismos históricos. O mais evidente é que foi aqui assinado em 1919 o Tratado que pôs fim à I Guerra Mundial, cinco anos depois do incidente que a espoletou, a morte do arquiduque austríaco Franz Ferdinand.

Sanções alargadas. Nesta reunião, segundo fonte oficial, poderão ser consideradas mais sanções, mas os líderes estão divididos: “Uns querem carregar ainda mais no acelerador, outros querem esperar para ver o resultado das que já foram implementadas”, seja como for, as que foram tomadas (e já houve três pacotes) estão a produzir um abalo sério na economia russa: o rublo perdeu mais de um terço do valor, a Bolsa de Moscovo fechou, as taxas de juro na Rússia duplicaram. Ontem, foram acrescentadas mais 160 figuras do regime que viram os seus bens europeus congelados, as exportações europeias para o setor naval foram banidas e também a Bielorrússia sofreu as mesmas sanções. No plano da reunião serão discutidas sanções diretas ao próprio Putin e ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov.


Joe Biden, presidente dos EUA.
Biden anuncia embargo às importações de petróleo e gás russo
O Presidente norte-americano, Joe Biden, anunciou um embargo às importações de petróleo e gás russo para os Estados Unidos, em resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Investir na defesa tem de ser agora. Outra parte da discussão será a das despesas com segurança e defesa. O assunto vem sendo abordado há algum tempo, com a União Europeia a gostar da ideia de se armar a sério, em vez de depender unicamente da NATO. Em março, haverá um Conselho Europeu só sobre defesa, onde deverá ser adotada a chamada Bússola Estratégica Comum, um documento que define as prioridades de defesa da UE a longo prazo, e que contém questões como cibersegurança e uma vertente de defesa a partir do domínio do Espaço.

Em 2017 foi criado um Fundo Europeu de Defesa, que entrou em vigor neste orçamento de 2021-2027.  Mas a atual guerra na Ucrânia torna mais evidentes as fragilidades europeias a nível de defesa e torna o assunto mais urgente, segundo alguns líderes. Porva disso é que nas últimas duas semanas já foram quebrados vários tabus; um deles foi a Alemanha aprovar a duplicação do seu investimento de defesa. Também a Dinamarca já anunciou que vai aumentar o seu orçamento de defesa e vai acabar com as importações de gás russo. Macron é um dos que mais tem defendido uma soberania europeia em matéria de defesa. Mas como disse fonte europeia, “o tema de defesa e da compra de armamento conjunto é dos mais complexos. Não é como ir fazer compras ao supermercado”.

Cortar nos combustíveis russos, mas a diferentes velocidades. Outra questão vital é a da energia: a União Europeia importa 90% do gás que consome, e desse total, 45% vem da Rússia. A Rússia também fornece cerca de 25% de petróleo e 45% de carvão. Na passada terça-feira, dia 8, a Comissão apresentou um plano para a UE libertar-se de 2/3 do gás russo até ao fim do ano. Mas a questão energética não é fácil de resolver por decreto e de uma vez: “Não é possível a Europa terminar imediatamente, como fez os EUA, as suas importações imediatamente dos combustíveis fósseis russos. A palavra chave aqui é “phase out” (eliminar gradualmente)”, disse fonte europeia.

A decisão de Biden foi fácil de tomar: a América importa apenas 7% de petróleo russo. Na Europa há 11 países que não podem fechar imediatamente a torneira ao gás russo. Morreriam de frio. Um deles é a Alemanha, e o chanceler Olaf Scholz já disse que não tem, para já, alternativa. Chegar a estes 2/3 que a Comissão traçou como meta é, segundo fonte oficial europeia, “um desafio imenso, a que os Estados-membros se vão dedicar”. E há também um “plano de contingência se a Rússia retaliar e cortar o gás aos países que neste momento não podem viver sem ele”. 


O chanceler alemão Olaf Scholz manifestou-se esta segunda-feira contra a hipótese de a Alemanha, e a Europa, conseguirem, para já, libertar-se do gás e petróleo russos.
Bruxelas apresenta plano para reduzir 2/3 do gás russo até ao fim do ano
Atingir este objetivo vai ser “difícil como o raio”, desabafou o comissário Frans Timmermans, mas a agressão russa à Ucrânia não deixa alternativa.

Alguns países prevêem acabar totalmente em 2030, outros em 2027. “Mas não deverá haver uma data a sair desta reunião”, disse fonte europeia. Este inverno parece já estar fora de perigo. A Comissão propôs agora que os Estados criem reservas de 90% das necessidades até ao dia 1 de outubro, para garantir a segurança energética do próximo outono/inverno. Outro dos pontos que serão discutidos.

Ao procurar acabar com a dependência russa, a Europa também deverá dar um empurrão para as energias renováveis, cujo financiamento já está contido nos planos de Recuperação e Resiliência e os fundos já começaram a ser entregues aos países.

Os preços da energia, quem vai pagar a fatura? Os preços do petróleo e da eletricidade ao consumidor – que estão a atingir níveis históricos que lembram o choque petrolífero dos anos 70 – é outra das questões que será debatida ao longo da tarde e princípio da noite em Versalhes. O problema é visto como gravíssimo e Emmanuel Macron já se dirigiu à nação francesa a pedir que baixem os termostatos das casas e apaguem alguns candeeiros. Mas há no pacote da Comissão medidas fiscais ou de ajuda direta aos consumidores que os Estados-membros podem adotar. E isso vai ser discutido.

Refugiados, 2 milhões em poucos dias. Outra questão premente. A maneira com a Europa vai acolher a quantidade de refugiados que está a chegar da Ucrânia será outro dos pontos a debater. Uma pequena comparação para se perceber a escala. “Em 2015, a UE acolheu 1.5 milhões de refugiados. Em poucos dias atravessaram as fronteiras da UE mais de 2 milhões de refugiados ucranianos e mais chegarão”.

Ucrânia na União Europeia? Não tão depressa, Zelensky. O pedido do presidente Zelensky de adesão da Ucrânia à UE, é visto com simpatia. Mas não mais do que isso. “Todos os países estão a favor de haver uma aproximação com a Ucrânia em questões como a democracia, o Estado de Direito. Mas sabe-se que o processo de adesão é muito longo. Basta ver há quanto tempo duram as discussões com os países dos balcãs ocidentais”, comentou fonte europeia. São processos que muitos comentadores externos classificam de excruciantes e que parecem não ter fim.

Mas houve, em relação à Ucrânia, um processo expedito, mesmo assim, garantiu. Os pedidos de adesão feitos pelos países levam normalmente 7 a 9 meses a transitarem do Conselho, onde são entregues, para a Comissão começar a ver a aplicação do processo. “No caso da Ucrânia, levou uma semana”. “Mas trata-se de um país que está em guerra, sem capacidade de preparar o dossiê, com muita documentação complexa que chega a ter mais de 80 mil páginas”, comentou. Mas, disse ainda a mesma fonte, embora sem poder fazer a adesão, o apoio da UE à Ucrânia é total, e está prevista a discussão de um processo de associação, onde poderá haver uma ligação à rede energética europeia, ou ao mercado comum, por exemplo.


Imagem do Observatório Europeu do Sul (ESO) mostra uma imagem gráfica do planeta 'Proxima d', planeta descoberto recentemente perto da estrela mais próxima do sistema solar.
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Mas a adesão da Ucrânia à UE, significaria que os países europeus teriam que dar assistência direta na guerra. A cláusula 42.7 do Tratado da UE é, como o Famoso artigo 5 da NATO, um lema dos Três Mosqueteiros. Ou seja, quando um país é atacado os outros vão em seu socorro “por todos os meios em seu poder”. Este será um dos motivos pelos quais Zelensky já deixou cair a ideia de aderir à NATO, que tanto aborrece Putin.

Ao mesmo tempo que a adesão da Ucrânia à UE não deverá ser considerada, é também “super claro, e a presidente Von der Leyen já repetiu inúmeras vezes, a UE não está em guerra com a Rússia”, disse a mesma fonte. Irá Zelensky fazer intervenção em vídeo conferência para comover os líderes em Versalhes ? Por enquanto não está previsto, mas segundo fonte europeia, Ursula von der Leyen e Charles Michel estão todos os dias ao telefone com o presidente ucraniano.

Economia, uma crise em cima de outra. Na sexta-feira os líderes deveriam chegar a Versalhes com a agenda de discutir o programa de Estabilidade e Crescimento, mas as duas semanas de guerra na Europa vão dar um tom diferente a estas conversas. “Íamos discutir como sair da crise provocada pela covid-19, mas agora estamos a entrar de cabeça noutra crise, também de consequências difíceis de avaliar”.  Na sexta-feira, além dos 27 líderes, da presidente da Comissão Europeia e do presidente do Conselho Europeu, também estará presente Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, e o presidente do Eurogrupo, o irlandês Paschal Donohoe.  Prevê-se uma disrupção grande das economias europeias, e mais uma vez, como aconteceu com a covid-19, ligada à duração e agressividade do conflito.

Matérias primas e alimentação. Na sexta-feira, os líderes irão também discutir outra questão: as matérias-primas. A Rússia é um grande exportador para a Europa de minérios necessários para a transição digital e ecológica. Como produzir semicondutores na UE, um desafio para acelerar a soberania industrial do bloco? “Isto amplifica a nossa determinação de encontrar soluções como procurar novas matérias-primas ou acelerar a circularidade”. Há o perigo de as sanções que impusemos à Rússia acabarem por rebentar na cara da economia europeia.

E há ainda a questão do trigo e cereais, de que tanto a Rússia como a Ucrânia se encontram entre os principais produtores a nível mundial. Segundo a fonte europeia, embora a Europa venha a ser afetada no preço do pão e do esparguete, e por um aumento generalizado de todos os produtos - incluindo os cabazes alimentares - por causa do efeito multiplicador do preço da energia, a grande preocupação é com África. “Há países que são totalmente dependentes do trigo da Ucrânia e da Rússia e a presidente já entrou em contacto com representantes da União Africana para discutir essa questão”.

 

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