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Juiz do Supremo Tribunal apanhado em esquema para incriminar Lula

Juiz do Supremo Tribunal apanhado em esquema para incriminar Lula

Foto: AFP
Mundo 3 min. 13.06.2019

Juiz do Supremo Tribunal apanhado em esquema para incriminar Lula

Bruno Amaral DE CARVALHO
Bruno Amaral DE CARVALHO
Nova divulgação de mensagens trocadas entre Moro e procurador revelam apoio de juiz do Supremo que impediu a libertação de Lula e que este pudesse dar uma entrevista na prisão, antes das eleições.

A edição brasileira do Intercept publicou na quarta-feira novas mensagens entre o ex-super-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol que revelam o envolvimento também do juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux num esquema para manipular decisões judiciais no caso Lava Jato. No domingo passado, a divulgação de ficheiros informáticos retirados dos telemóveis de Dallagnol e de Moro, agora ministro da Justiça, caíram como uma bomba no já tenso cenário político brasileiro ao mostrarem que o poder judicial cometeu várias ilegalidades para levar Lula da Silva à prisão e impedir que se candidatasse à presidência do Brasil. 

O Intercept teve acesso a um pacote de ficheiros enviado por uma fonte anónima há algumas semanas que continha mensagens de texto, áudio e vídeo trocadas entre 2015 e 2018 pela aplicação Telegram. 

Neste diálogo que agora se divulga, Deltan Dallagnol e procuradores revelam o apoio do juiz do STF Luiz Fux à Lava Jato. Na troca de mensagens, Dallagnol explica ter conversado: "mais uma vez com Fux hoje, reservado, é claro". De acordo com o procurador, "o ministro [juiz] Fux disse quase espontaneamente que Teori Zavascki fez queda de braço [braço de ferro] com Moro e se queimou, e que o tom da resposta de Moro foi ótimo", numa referência à repreensão feita por Zavascki, também juiz do STF, a Moro pelas escutas telefónicas à então presidente Dilma Rousseff. 

De seguida, Dallagnol revela aos procuradores que podem contar com Fux: "disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez. Só faltou, como bom carioca, chamar-me para ir à casa dele rs [risos]. Mas os sinais foram ótimos, falei da importância de nos protegermos como instituições, especialmente no novo governo". As mensagens foram encaminhadas por Dallagnol para o então juiz Sérgio Moro. "Excelente, in Fux we trust", respondeu Moro, em inglês, numa referência ao lema das notas de dólar norte-americano “in God we trust” [em Deus confiamos]. Luiz Fox é juiz do STF desde 2011 e foi precisamente o juiz que impediu, no STF, Lula da Silva de dar entrevistas antes das eleições presidenciais de 2018. Também negou o habeas corpus ao ex-presidente quando a defesa recorreu ao Supremo. 

Esta semana, Moro e Dallagnol desvalorizaram a divulgação das mensagens negando que tivesse havido algum tipo de conluio e interferência no caso Lava Jato. O presidente Jair Bolsonaro assistiu, quarta-feira, ao lado de Sérgio Moro ao jogo entre o Flamengo e o CSA no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Entretanto, o escândalo chegou também ao maior grupo de comunicação do Brasil com a Globo a responder que foi procurada pelo Intercept através do jornalista Glenn Greenwald para divulgar as conversas de Moro. 

De acordo com um comunicado, a emissora recusou a oferta. Em entrevista à Agência Pública, Glenn Greenwald afirmou que "os documentos mostram como Moro e Deltan estão trabalhando juntos com a Globo" e que isso será revelado nas próximas reportagens. “A identidade dele não é mais de juiz apartidário, agora Moro sabe que é uma figura da direita extremista. E ele vai continuar assim porque todo mundo sabe que Moro não é uma pessoa contra a corrupção mas uma pessoa que faz corrupção quando quiser", concluiu.

 Já Lula da Silva, segundo os advogados, mostrou-se surpreendido com a velocidade a que “a verdade” começa a aparecer. A defesa do ex-presidente considera que com os novos dados há elementos para pedir a anulação do processo que o levou à prisão. Dentro do STF já há movimentações com um dos juízes a analisar três recursos relacionados com o caso. Um deles exige que o ex-juiz Moro seja inabilitado. O julgamento está marcado para o fim de junho. Também há um pedido de habeas corpus para Lula e um pedido para a libertação de todos os presos que já esgotaram os recursos.


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