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Perante a coragem, uma vénia
Opinião Mundo 3 3 min. 13.07.2021
Jornalista baleado nos Países Baixos

Perante a coragem, uma vénia

A praça Dam, no centro de Amesterdão, onde está o monumento improvisado ao famoso repórter criminal holandês que foi baleado na rua durante o dia, a 7 de julho.
Jornalista baleado nos Países Baixos

Perante a coragem, uma vénia

A praça Dam, no centro de Amesterdão, onde está o monumento improvisado ao famoso repórter criminal holandês que foi baleado na rua durante o dia, a 7 de julho.
Foto: AFP
Opinião Mundo 3 3 min. 13.07.2021
Jornalista baleado nos Países Baixos

Perante a coragem, uma vénia

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Quem visitar por estes dias a praça Dam, verdadeiro coração urbano de Amesterdão, vai encontrar um monumento improvisado composto por quatro mil rosas brancas e uma mensagem: "Um ataque à liberdade de imprensa? Não... foi mais uma testemunha inocente a ser silenciada. Aguenta-te Peter!"

Peter R de Vries é uma personalidade célebre no Benelux, sobretudo nos Países Baixos onde é quase considerado como o último dos grandes heróis. Este jornalista de investigação conseguiu resolver casos policiais de grande visibilidade, começando pelo famoso rapto do herdeiro do império Heineken, então o homem mais rico do país – o criminoso, Frankie "Turbo", tinha conseguido escapar da cadeia e esconder-se durante uma década no Paraguai, até que Peter de Vries o interpelou à saída da hamburgueria manhosa onde trabalhava sob o nome de "Francisco".

No programa de televisão que apresentou durante 17 anos, de Vries fez questão de se debruçar – e procurar deslindar – os dossiers criminais mais espinhosos que encontrasse.

No programa de televisão que apresentou durante 17 anos, de Vries fez questão de se debruçar – e procurar deslindar – os dossiers criminais mais espinhosos que encontrasse. Até o assassínio de JF Kennedy foi objecto de uma investigação de seis meses (as conclusões apontaram para o envolvimento da CIA e da Máfia), mas o que mais impressiona no trabalho do investigador são os casos contemporâneos. Sempre corajosamente, criminosos até aí livres são identificados e confrontados; ou a polícia e o sistema judicial veem os seus podres expostos publicamente. As vítimas merecem essa intransigência pela verdade.

Há uma semana, Peter R de Vries saiu dos estúdios da RTL4 (tecnicamente ainda considerado um canal luxemburguês) e, à luz do fim da tarde, começou a caminhar pelas movimentadas ruas do centro de Amesterdão, zona com um dos mais caros metros quadrados no mundo.

O jornalista de 64 anos foi baleado cinco vezes, uma delas na cabeça. Neste momento luta pela vida numa cama dos cuidados intensivos. Depois de uma vida sem medo, a incomodar interesses sem escrúpulos, depois de tantas ocasiões a fazer incidir a luz de uma lanterna sobre os recantos escuros do submundo, o pesadelo da sua família tornou-se uma realidade. 


Repórter criminal holandês luta pela vida depois de ser baleado em Amesterdão
De Vries foi baleado cinco vezes, uma delas na cabeça, de acordo com os meios de comunicação locais.

Actualmente, arriscando a sua segurança de forma altruísta, ele aconselhava a principal testemunha de acusação no processo Marengo, uma gigantesca operação contra um barão da droga, capo da mafia marroquina. O advogado e o irmão da testemunha já tinham sido assassinados, mas Peter R de Vries continuou: pois a busca incessante da justiça não se coaduna com a intimidação, o medo ou a desistência.

Desde terça-feira vivemos num mundo um pouco pior, um mundo em que quem não joga limpo vence, em que a pistola é mais poderosa que a caneta. Um mundo onde tanta falta fazem as mulheres e os homens de coragem; os poucos que se recusam a tomar o caminho tão mais fácil de fechar boca, olhos e ouvidos e conformarem-se com a labuta diária e o sofázinho à noite. Aqueles capazes de enfrentarem um sistema tão injusto quão poderoso, mesmo sabendo que o desfecho inevitável é a prisão, a ruína ou a morte.

Há uma nota de esperança no final da mensagem das quatro mil rosas brancas: "Querido Peter, recupera rápido. Prometo-te que também eu nunca viverei a vida ajoelhado". Não poderia encontrar melhor encerramento para este texto.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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