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John Schellnhuber. “O setor da construção é o elefante na sala do clima”
Mundo 10 min. 30.04.2021

John Schellnhuber. “O setor da construção é o elefante na sala do clima”

John Schellnhuber. “O setor da construção é o elefante na sala do clima”

Foto: Gerry Huberty
Mundo 10 min. 30.04.2021

John Schellnhuber. “O setor da construção é o elefante na sala do clima”

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Eminente cientista do clima, o físico alemão desconfia das soluções de “geoengenharia perigosas” de Bill Gates. Acha que a administração Biden entrou no bom caminho, mas que o mundo está a reagir muito devagar. Construir em madeira é a solução mágica e possível.

John Schellnhuber é um dos cientistas do clima mais reputados mundialmente e um dos que há anos avisa a humanidade de que é urgente acabar com os combustíveis fósseis. Nasceu na Alemanha em 1950 e foi registado com o nome de Hans Joachim, nos meios académicos é tratado por John. Foi consultor da chanceler Angela Merkel, do Papa Francisco e fundador do Instituto para Pesquisa do Impacto do Clima de Potsdam. É desde há mais de duas décadas membro do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) e foi coordenador do relatório deste organismo das Nações Unidas em 2001. Foi um dos proponentes da barreira de 2ºC como aumento máximo de temperatura global (em relação à era pré-industrial) que o planeta pode suportar sem o colapso dos ecossistemas mundiais. Atualmente é um dos conselheiros de Ursula von der Leyen nas questões de alterações climáticas e continua envolvido em diversas organizações mundiais de cientistas e cívicas. Para os portugueses o seu nome não é muito conhecido, mas ele conhece bem Lisboa: é um dos membros do júri do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, criado em 2019 pela fundação portuguesa para distinguir pessoas ou organizações que se destaquem na luta contra as alterações climáticas. Na primeira edição, o prémio de 1 milhão de euros foi atribuído a Greta Thunberg. Se a situação epidemiológica na Europa o permitir, em Julho estará em Lisboa para a cerimónia de entrega do prémio.

Como surgiu esta ideia de que podemos travar as alterações climáticas com a forma como construímos?

A ideia anda aí já há algum tempo e tem sido discutida em vários fóruns. É sabido que 40% das emissões de gases com efeito de estufa a nível mundial vêm do ambiente edificado, das construções. Por outro lado, 90% das pessoas vivem de uma maneira onde não se sentem confortáveis. Não seria maravilhoso fazer as duas coisas ao mesmo tempo: criar melhores aglomerados urbanos, onde as pessoas são felizes, reconquistado o espaço público, mas também fazendo isso de forma a estabilizar o clima?! E não seria um projeto maravilhoso para a Europa se todos valorizássemos as incríveis tradições que temos, como a portuguesa e a grega, por exemplo, ou na finlandesa ou a da Alemanha?! Se puséssemos todas as nossas ideias juntas podíamos ser o motor de um novo movimento. Eu nasci em 1950 numa casa de madeira que data do século XVI e que ainda se manterá (teoricamente) daqui a 500 anos. No sítio onde nasci, na Baviera, há um grande conhecimento sobre construção em madeira. Porque o deveríamos deitar fora? Vamos repensar o que sabemos e torná-lo atual, porque agora há tantos novos métodos e tecnologias que podemos usar, como por exemplo a Inteligência Artificial. É possível juntar o high tech à natureza e criar respostas inteligentes e sustentáveis.

É um cientista, porque se interessou por arquitetura e construção?

Por duas razões. Embora eu seja físico, matemático e cientista do clima, sempre tive um grande interesse por artes, arquitetura e design. Fui conselheiro da chanceler Angela Merkel durante bastante tempo. E em 2016 publicámos um grande relatório sobre urbanização para o governo alemão. Para o grande encontro da ONU Habitat que foi na América Latina. Desse relatório resultou que se não conseguíssemos uma transformação no setor da construção todos os nossos objetivos climáticos seriam fúteis e muito simplesmente não seriam alcançados. A partir daí comecei a desenvolver - falando com arquitetos e designers - uma espécie de visão de como o ambiente construído será no futuro, bom para o planeta e para as pessoas, em todo o lado. E depois fui convidado para uma reunião com o governo alemão, e a associação de arquitetos alemães pediu-me para apresentar as minhas ideias no pavilhão alemão da Bienal de Veneza. E fiquei cada vez mais entusiasmado com tudo isto. E então em 2019, no ano do centenário da criação da Bauhaus em Weimar, decidi criar a Bauhaus da Terra, que é uma organização não governamental. E tive imediatamente vários apoiantes de renome. Uma das primeiras foi a Annalena Baerbock que é agora a candidata a chanceler pelos verdes, e que também vive em Potsdam como eu. De certa maneira, comecei uma revolução.

E como é vista a sua intrusão no mundo da arquitetura ?

Como sou um cientista do clima os arquitetos pensam que eu não percebo nada de arquitetura. Mas para fazer este tipo de transformação é preciso que todas as especialidades sejam chamadas. Eu posso calcular quanto CO2 se salva se se construir em madeira. Posso até calcular como gerir florestas de forma a fornecer os melhores recursos, porque vai ser preciso cortar e reflorestar, mas depois são os arquitetos que sabem como construir. Como cientista do clima eu faço parte de uma equipa. É preciso falar com todo o tipo de gente. Esta velha ideia da Bauhaus como uma abordagem holística é o que faz sentido.


Nova Bauhaus. Uma revolução cultural e casas em madeira para travar a crise climática
Uma ideia lançada em setembro vê agora a luz do dia. A nova Bauhaus, diz a Comissão, não é uma cópia do movimento alemão de há um século, tem o objectivo de inventar novas casas que combatam o aquecimento global.

E como é que essa ideia se pode aplicar à União Europeia?

A ideia da Nova Bauhaus Europeia é juntar toda a gente e não só de uma maneira vertical, das várias disciplinas, mas também através da Europa. A maneira como se constrói casas na Sicília, que é muito resistente ao impacto das alterações climáticas, pode-se combinar com a maneira como as pessoas na Finlândia fazem um bom uso da madeira. Acho que vamos acabar por ter uma nova narrativa na arquitetura. E é mesmo esse o plano, começar uma revolução, tal como foi a da Bauhaus original.

Insiste na construção em madeira, mas se calhar a madeira não será a matéria prima mais à mão em muitos países.

Sim, claro. É possível usar o barro, por exemplo. Vivi uns anos no Novo México, em Santa Fé, e lá há muita construção em barro porque é belo e funciona como um ar condicionado natural. Na Ásia o bambu é uma matéria prima excelente. Falei com Shigeru Ban, o famoso arquiteto japonês que ganhou um prémio Pritzker, e ele é aficionado de bambu. O bambu cresce 14 metros em 6 anos e bem utilizado pode-se construir arranha-céus com ele. A natureza oferece-nos tantas soluções às quais temos estado completamente cegos! Enquanto isso olhamos apenas para o cimento, o aço e o vidro. Isto era completamente compreensível quando depois da II Guerra Mundial foi preciso reconstruir cidades e foi preciso reconstruir depressa. Berlim, por exemplo, foi 95% destruída. Mas agora podemos fazer muito melhor.

Acredita que as pessoas irão mudar e acompanhar este movimento?

Recebo muito apoio público. Publiquei recentemente dois artigos de uma página inteira no Frankfurter Allgemeine Zeitung, por exemplo. E recebo muitas respostas entusiásticas porque as pessoas adoram esta nova narrativa. Toda a gente gosta de construção nestes materiais mais orgânicos, como a madeira, e também de um desenvolvimento policêntrico. A tecnologia existe, com madeira laminada consegue-se construir quase tudo. O grande problema neste momento são as regulações. A minha esperança é que a União Europeia comece uma reforma das regulações de construção, para que sejam aceites novos materiais e novas técnicas, e que seja adotada por muitas nações. Se as regulações nacionais adotarem isto, a revolução começará muito depressa. E o custo de construir em madeira será muito mais baixo do que o de construir em cimento. Neste momento estamos muito perto de ser o mesmo preço. Mas a longo prazo é mais barato, porque a madeira pode ser reutilizada. Se houver um progresso neste sentido e mudança nas regulações acredito que será uma grande onda e que irá começar imediatamente.

Há muito pouco tempo lançava a dúvida de que se em termos de aquecimento global o mundo já estaria fatalmente ferido. Acha que já ultrapassámos o limiar de segurança?

Só podemos parar o aquecimento global a 2ºC, acho que o 1.5ºC já está fora do nosso alcance. Isto se descarbonizarmos o planeta e a economia global muito depressa e no ano 2050 o mais tardar. A Europa comprometeu-se agora a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55% até 2030, que eu acho que não é suficiente, tem que ser muito mais rápido. Mas aqui vem a parte mais interessante. Se se reflorestar o planeta, se se usar muita madeira e sequestrar em edifícios assim podemos sugar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Mas mesmo se ultrapassarmos os 2ºC e continuarmos a construir em madeira iremos capturar muito CO2. De certa maneira podemos reverter as alterações climáticas construindo em madeira. É como uma bomba de sucção que estará sempre a drenar CO2 da atmosfera através da fotossíntese. Levará décadas e séculos, mas no final restaurará a atmosfera. E esta solução não existe em mais lado nenhum. Por exemplo, se mudarmos para energias renováveis deixaremos de emitir, e isso é fundamental. Mas se passarmos a construir com madeira passaremos a ter um balaço negativo, que é um passo também obrigatório. E isto é a solução mágica.

Não acredita nas soluções tecnológicas que Bill Gates propõe, como por exemplo no seu recente livro Como Evitar uma Catástrofe Climática?

Não acredito. Vi tudo, são meras ilusões. Nunca irá funcionar, são soluções demasiado caras. E, na verdade, muitas delas demasiado perigosas. Mas veja-se, não é maravilhoso que haja uma opção de geoengenharia, simplesmente plantando árvores e construindo belas casas com elas? Não são precisos sonhos loucos de geoengenharia perigosa. Esta é uma solução tão bonita e perfeita! Focámo-nos tanto em várias coisas, como por exemplo na aviação, que na verdade corresponde a apenas a 2% das emissões globais! E não falamos dos 40% de emissões que vêm da construção, e é mais que tempo de fazermos isso. O setor da construção é o elefante na sala do clima. E este no novo Bauhaus europeu irá espalhar a mensagem.

E pode ser mais importante do que parar de emitir combustíveis fósseis?

Há dois lados da moeda. Se não descarbonizamos até 2050 não temos nenhuma hipótese. Disso não há qualquer dúvida. Mas será mais fácil se o fizermos assim, criando emissões negativas ao extrair carbono da atmosfera. As duas coisas juntas: parar a emissão de combustíveis fosseis e reflorestar e usar madeira. E temos que fazer isto pensando qual é a melhor madeira. Com isto estou absolutamente otimista de que podemos alcançar o Acordo de Paris. E é também preciso parar de destruir as florestas tropicais como a Amazónia ou a do Congo e da Indonésia. Se as destruirmos, aí também não temos hipótese nenhuma.

As florestas tropicais deviam ser deixadas em paz?

Sim, as florestas tropicais têm que ser absolutamente protegidas. A Amazónia está a ser destruída para plantar soja, principalmente para alimentar gado. Temos que deixar as florestas tropicais intocadas. E as bolsas de florestas primevas na Europa, que não ultrapassam 2% do território, também devem ser protegidas a todo o custo.

Portanto, ao contrário do que diz Bill Gates, não é preciso encontrar novas formas de criar cimento...

Ele fez muito dinheiro, respeito-o, uma vez encontrei-o numa festa. É um tipo com boas intenções, mas é muito ingénuo às vezes. Posso dar o exemplo do motor de combustão e do motor a eletricidade. O motor de combustão foi melhorado, mas nunca chegará à eficiência energética do motor elétrico. E o mesmo é verdade com o cimento. Porquê melhorar o cimento se temos disponível uma matéria muito melhor?

O que acha do compromisso de Joe Biden de reduzir em 50% até 2030 as emissões norte-americanas?

A parte boa é que uma inversão de marcha da política norte-americana. É uma grande melhoria, mas não chega. Os Estados Unidos podem fazer melhor. Mas é uma grande ruptura com o passado porque o Donald Trump era um criminoso do clima. Espero que na COP-26 em Glasgow isto se materialize porque até agora tudo o que vemos são promessas muito vagas.

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