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João Micaelo, o português que é melhor amigo do líder da Coreia do Norte

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João Micaelo, o português que é melhor amigo do líder da Coreia do Norte

João Micaelo, o português que é melhor amigo do líder da Coreia do Norte

João Micaelo, o português que é melhor amigo do líder da Coreia do Norte


por Ricardo J. RODRIGUES/ 28.10.2020

Fotos: Rui Oliveira

Tinham 13 anos quando fumaram às escondidas o primeiro cigarro das suas vidas. Cresceram juntos até aos 16 na Suíça e reencontraram-se adultos em Pyongyang. Este é João Micaelo, cozinheiro português e melhor amigo de Kim Jong-un.

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Residência 55
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Foto: Rui Oliveira

 

“Um contra um.” Foi isso que Kim Jong-un propôs assim que João Micaelo entrou no palácio de Ryongsong, residência oficial do presidente da Coreia do Norte. É um complexo de 12 mil metros quadrados, guardado por um perímetro de vedações elétricas e patrulhas militares, na zona norte da capital Pyongyang. O nome oficial é Residência 55, mas os locais chamam-lhe Mansão Central de Luxo. João esteve lá duas vezes – uma em julho de 2012, outra em abril de 2013.

A Residência 55 alberga uma série de bunkers e acolhe o comando militar do país em caso de emergência. Possui uma estação de metro privada, duas dezenas de quartos para visitas, salões de festas e banquetes, piscina interior e exterior, campo de tiro, hipódromo e um bom pavilhão desportivo. Foi precisamente aí que Micaelo foi recebido. Da segunda vez que viajou para Pyongyang, apresentou-se perante o líder coreano de calças de ganga e blaser, camisa e gravata, mas tinha à espera um outro desafio. “Um contra um. Tens ali calções e uma camisola, veste-te e vamos atirar umas bolas ao cesto”, disse-lhe o chefe de Estado.

Foto: Rui Oliveira

Kim Jong-un pode ser um dos rostos mais reconhecíveis e temidos do planeta mas, para um português de 36 anos, ele é  o melhor amigo da adolescência. “Andámos ali aos encontrões um ao outro durante uma boa hora, e parecia que éramos miúdos outra vez”, conta Micaelo agora, na sua casa nos arredores de Berna. “Não estava lá mais ninguém, só nós. Ele venceu o jogo por mérito próprio, mas eu disse-lhe logo que o tinha deixado ganhar porque ele era o presidente. Ele olhou-me zangado e depois, pronto, desatámos os dois a rir.”

Quando se conheceram, tinham ambos 13 anos, Kim Jong-un era Un-Pak – e é por esse nome que continua a tratá-lo. Micaelo tinha uma alcunha, Schvenu, mas o chefe de estado norte-coreano já não o trata assim. Agora é João, que na verdade ele pronuncia Yoau. A história da amizade entre estes dois homens pode não servir de grande coisa quando o assunto é a geopolítica internacional. Mas permite outra coisa: auferir a personalidade de um ser que o mundo se habituou a ver como um monstro. Poucas pessoas podem explicar tão bem o que enfurece e faz rir o líder de um dos países mais fechados do mundo. Um jogo de basquetebol, um contra um, tem a característica de causar as duas reações em simultâneo. Fúria, sim, e a seguir gargalhadas.

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A carteira ao fundo da sala
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A turma do sexto ano. João é o primeiro, de pé, à esquerda. Kim é o quinto.
A turma do sexto ano. João é o primeiro, de pé, à esquerda. Kim é o quinto.
Foto: Arquivo pessoal de João Micaelo

A infância em Cabeço de Vide, Portalegre, havia corrido ao ar livre. “Os meus pais tinham emigrado para a Suíça e eu fiquei ao cuidado dos meus avós. Tinha seis anos quando cheguei a Berna e a primeira coisa que reparei foi que não se viam tantas crianças a brincar na rua.” No Alentejo passara os primeiros anos ao fresco, jogos de escondidas e apanhada com os primos e os vizinhos. Mas, aqui, os dias frios obrigavam a canalha a isolar-se em casa. “Quando entrei na escola, não falava uma palavra de alemão e era o único estrangeiro da turma. Os outros miúdos gozavam comigo constantemente e eu estava sempre a bater-lhes. Os meus pais foram muitas vezes chamados ao diretor por causa do meu comportamento”, conta Micaelo.


Kim Jong-un comove-se durante discurso "eu falhei em estar sempre à altura"
Discurso decorreu durante um desfile em comemoração do 75º aniversário do Partido dos Trabalhadores no poder.

Perdeu o primeiro ano por não saber a língua, mas aos poucos foi aprendendo a expressar-se. No seu prédio viviam dois rapazes da mesma idade, a dar toques de bola no relvado em frente de casa ia contrariando o isolamento. Estudava na escola de Steinholzli, em Koniz, um subúrbio de classes trabalhadoras a uma dezena de quilómetros da capital suíça. “Poucos dias depois de começarem as aulas do 6° ano”, conta Micaelo, “o diretor trouxe à nossa sala um novo aluno que vinha da Coreia do Norte. A minha carteira ficava no fundo da sala e era a única com um lugar vazio, ninguém queria ficar ao lado do português. Então mandaram-no sentar-se comigo.”

A escola de Steinholzli, em Koniz.
A escola de Steinholzli, em Koniz.
Foto: Rui Oliveira

Nas primeiras semanas embirravam um com o outro. “Ele ficou do lado esquerdo, eu do direito, e quando escrevia estava sempre a empurrar o caderno para o meu espaço. Eu dava-lhe um empurrão ou um soco na perna para ele se chegar para o outro lado.” João era mau aluno a matemática. “Aos poucos, ele começou a ajudar-me com as contas e eu explicava-lhe o que ele não entendia em alemão.” Quando as aulas acabavam, rumavam a casa de um ou do outro para fazer os trabalhos de casa juntos. Mas tinham 13 anos, aquelas tardes serviam para muito mais do que cumprir deveres.

 Os pais do português trabalhavam em restaurantes, passavam por isso os dias inteiros fora de casa. “O meu pai é que cozinhava, e deixava-me sempre uma marmita para o almoço. Quando percebeu que o Un-Pak passava as tardes comigo, começou a fazer comida para ele também. Lembro-me de uma vez comermos migas e ele se virar para mim e dizer que aquilo era uma porcaria.” Resolveram a fome atacando a caixa das bolachas, o que valeu reprimenda aos dois. “O Un-Pak era da casa, por isso também levava raspanetes”, conta agora António Micaelo, pai de João.

Kim Jong-un tinha dito aos colegas que era filho dos embaixadores da Coreia do Norte – era essa a versão que o regime escolhera para explicar a sua presença ali. Antes de ingressar na escola de Steinholzli, passara um ano num colégio privado, agora frequentava as aulas num estabelecimento público de uma das zonas mais pobres da capital. “Também vivia lá um dos irmãos mais velhos e a irmã mais nova, mas eu não me dava tanto com eles", diz João. "Assim que chegava lá, íamos para o quarto jogar consola. Ele tinha um Sega, eu tinha um Nintendo. Fiquei para jantar muitas vezes e comíamos sempre churrasco.”

João Micaelo no seu restaurante em Berna.
João Micaelo no seu restaurante em Berna.
Foto: Rui Oliveira

A família norte-coreana ocupava um prédio de seis apartamentos do centro do bairro, numa urbanização de tijolo castanho. As caixas de correio dos atuais habitantes indicam apelidos invariavelmente suíços. Na janela do antigo quarto do líder norte-coreano está hoje pendurado um cartaz onde se lê “Konzernverantwortungs-initiative ja” - que em tradução literal significa “Sim à iniciativa pela responsabilização das corporações”. É o nome de um movimento que junta ironicamente ONGs e políticos de centro-direita. São conservadores que pressionam multinacionais a adotarem políticas de respeito pelo ambiente e os direitos humanos. 

“O Un-Pak sempre foi fanático por basquetebol, e tinha o quarto forrado com cartazes dos Chicago Bulls e do Michael Jordan”, lembra João Micaelo. “Não é que a casa fosse muito luxuosa, ou que ele ostentasse grandes sinais de riqueza, mas usava sempre fatos de treino da Nike e calçava uns Air Jordan, e isso era o sonho de qualquer miúdo naquela idade.” Quando o tempo aquecia, os dois rapazes saíam com uma bola laranja da Spalding para um campo ali perto e passavam horas a jogar, um contra um, a ver quem encestava mais. “Às vezes juntavamo-nos três contra três, e aí ele era extremamente competitivo, queria ganhar desse por onde desse. Mas muitas vezes éramos só os dois, e ficávamos horas naquilo.”

Era neste campo de basquetebol que os rapazes gastavam os dias.
Era neste campo de basquetebol que os rapazes gastavam os dias.
Foto: Rui Oliveira

Meses depois de João Micaelo visitar pela primeira vez Kim Jong-un em Pyongyang, em 2012, o presidente norte-coreano tornou-se amigo do basquetebolista Dennis Rodman, quando este visitou o país asiático numa digressão com os Harlem Globetrotters. “Quando vês as fotos deles juntos percebe-se bem como os olhos do Un-Pak sorriem. Tens meio mundo a dizer que ele é o homem mais cruel do planeta, mas depois olhas para aquela imagem e o que vês é a cara de um miúdo que acabou de conhecer um dos seus ídolos.” O português não defende nem ataca o regime da Coreia do Norte, mas uma coisa ele sabe: naquela fotografia com a estrela da NBA não está o tirano que o mundo teme. Está, apenas e só, o seu amigo Un-Pak.

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Os melhores anos
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A casa onde vivia Kim Jong-un. Na mesa à direita do edifício, os rapazes fumaram o seu primeiro cigarro.
A casa onde vivia Kim Jong-un. Na mesa à direita do edifício, os rapazes fumaram o seu primeiro cigarro.
Foto: Rui Oliveira

Kim Jong-un tinha um motorista, e um dia conseguiu convencê-lo a levar os dois rapazes a um parque aquático em Zurique, onde passaram o dia inteiro a andar em escorregas e mergulhar em água aquecida. “Eu achava que ele era mesmo filho dos embaixadores, e por isso podia dar-se ao luxo de fazer essas coisas.” Quando voltaram a casa, sentaram-se num banco de jardim que ainda existe diante da antiga casa norte-coreana na Suíça e Un-Pak sacou do bolso um maço de tabaco.

“Fumámos o primeiro cigarro juntos e partimo-nos a tossir, claro. Anos mais tarde, em Pyongyang, ele contou a toda a comitiva com quem estavamos a jantar essa história. Depois fumámos outra vez à mesa e toda a gente parecia muito contente por isso. As pessoas levantavam-se e vinham cumprimentar-me com um copo de vodka na mão, e eu tinha de beber com eles”, conta João Micaelo. “Acho que o faziam por devoção a ele. Se o líder estava feliz, então eles também estavam. Bem, o que sei é que apanhei uma bebedeira monumental por causa disso.”

António, pai de João Micaelo, na cozinha do restaurante do filho, em Berna.
António, pai de João Micaelo, na cozinha do restaurante do filho, em Berna.
Foto: Rui Oliveira

Partilhariam a mesma carteira de escola durante três anos e cumpririam até ao fim os mesmos rituais. João ajudava o amigo com a língua alemã e este auxiliava-o na matemática. Jogavam videojogos nos dias frios e basquetebol assim que despontava o sol. Viam filmes com Jackie Chang legendados em coreano, mas o que lhes interessava eram as cenas de ação. Falavam bastante de miúdas: o norte-coreano tinha uma especial paixoneta pela atriz Sophie Marceau, a Bond-girl de “007 – O Mundo Não Chega”.

Estavam a chegar ao fim do 9° ano quando Un-Pak o convocou para uma conversa. “Fomos para casa dele e contou-me que na verdade não era filho dos embaixadores da Coreia do Norte, mas sim do Presidente do país”, diz Micaelo. “Eu não acreditei, então ele foi buscar uma fotografia onde estava ele, os irmãos e os pais.” Na foto estava de facto com Kim Jong-il, o segundo líder da dinastia que governa o país. “Mas eu não sabia nada de política, naquele tempo o acesso à internet era limitado e não existiam smartphones. Achei mesmo que ele estava a brincar comigo e não lhe dei crédito.” No dia seguinte, Un-Pak não foi à escola. Nem no dia depois desse, nem no outro. “Procurei-o em casa e não estava. De um momento para o outro, parecia que se tinha evaporado. Fiquei furioso com ele, os amigos não desaparecem assim da vida dos outros.”


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Três meses depois recebeu um telefonema, era Un-Pak que lhe pedia para se encontrarem no banco de jardim, aquele onde três anos antes tinham experimentado pela primeira vez tabaco. “Disse-me que tinha muita pena de ir embora e contou-me que ia estudar para a Academia Militar. Repetiu-me que era filho do Presidente coreano. Dessa vez sim, acreditei nele. Perguntou-me pelos meus planos, eu disse que pensava em tornar-me cozinheiro, como o meu pai.”

Un-Pak nem por um momento lhe confessou qualquer aspiração em tornar-se presidente. Era afinal o terceiro filho da família e as probabilidades de ascender ao poder eram escassas. Em 2009, para surpresa de meio mundo, Kim Jong-il indicou-o como seu herdeiro. O New York Times avança com estas explicações: o seu irmão mais velho, assassinado em 2017, era um crítico do regime e o segundo na linha de sucessão, Kim Jong-chan, era visto pelo pai como “demasiado efeminado”.

No final de 2011, com a morte do pai, Kim Jong-un tornava-se no chefe de estado mais jovem do mundo. Tinha, oficialmente, 29 anos, mas há várias teorias de que teria na verdade 28 e o seu ano de nascimento havia sido adulterado por um discurso de certa forma místico. Nascer em 1982, em vez de em 1983, significava que chegara ao mundo exatamente 70 anos depois do seu avô Kim Il-sung, o fundador da dinastia Kim. João Micaelo sabe apenas que cresceram dizendo ter a mesma idade. O português nasceu em 1983.

Durante anos, João não soube nada da vida do amigo norte-coreano. Fez o seu caminho numa escola gastronómica na Suíça, três anos que lhe serviram para aprender técnicas culinárias e desenvolver um real gosto pelo mundo da alta roda culinária. Empregou-se num restaurante com duas estrelas Michelin nos Alpes suíços e, anos depois, tornou-se chefe-executivo de uma empresa de cruzeiros, viajando pelo mundo todos nas cozinhas dos navios. Em 2008, mercê de uma namorada austríaca, encontrou posto de cozinheiro num restaurante em Viena, e foi ali que permaneceu durante anos.

Foto Rui Oliveira

Estava há um pouco mais de um ano na capital da Áustria quando decidiu vir passar o fim de semana a casa dos pais – continuavam a viver nos subúrbios de Berna. “De repente, vem tocar-me à porta de casa uns jornalistas japoneses, que me perguntaram se eu tinha sido colega de Un-Pak. Disse-lhes que sim, claro, e falei dez minutos com eles sobre as nossas memórias de infância”, lembra. “Não contei grande coisa, na verdade, só que ele gostava de basquetebol e dos Bulls.” O que ele não sabia é que, nesse momento, a sua vida acabava de mudar.

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Há festa em Pyongyang
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Foto: Rui Oliveira

Dias antes tinha chegado o anúncio: Kim Jong-un seria o próximo Presidente da Coreia do Norte. E a notícia era tão surpreendente que os jornalistas entraram em roda-viva: era preciso contar o mais rápido possível a história daquele rapaz desconhecido. “Nesse fim de semana, depois dos japoneses, apareceu uma legião de jornalistas asiáticos à porta de minha casa na Suíça. Vinham da Malásia, da China, da Coreia do Sul, a tentar descobrir alguma coisa sobre ele. Encontraram a escola onde ele estudou, e foi lá que lhe deram o nome do melhor amigo dele: eu.” Nos dias seguintes, uma verdadeira multidão assentou arraiais à porta da casa paterna. “E eu fui-me embora dali e voltei para Viena, pensando que assim me iam deixar em paz.” 

Mas não foi isso que aconteceu. Ao descobrirem onde trabalhava, vários membros da imprensa rumaram à Áustria para que João contasse o que sabia sobre Un-Pak. “Nessa altura, em 2009, era sobretudo a imprensa asiática. Depois houve uma segunda fase em 2011, quando ele subiu ao poder, e aí eu tinha a CNN a querer falar comigo.” A pressão era tanta que temia pelo emprego. “À maioria da imprensa dizia que não, mas alguns não arredavam pé para falar cinco minutos que fosse comigo. E eu lá concedia, desde que não fosse durante muito tempo.” Aos meios portugueses falaria uma única vez, já anos mais tarde – numa entrevista à Rádio Comercial.

Um dia, no verão de 2012, três homens asiáticos entraram no restaurante pedindo para falar com ele. “Pensava que eram jornalistas. Vieram almoçar, jantar e almoçar novamente no dia seguinte. Eu não queria falar com eles, mas ao fim de tanta espera não tive remédio.” Sentou-se e congelou quando ouviu o que tinham para dizer. “Explicaram-me que vinham em nome do Presidente da Coreia do Norte e que ele me convidava para jantar na noite seguinte em Pyongyang. Caramba, fiquei aflito. Disse que tinha de trabalhar, não podia partir assim para o outro lado do mundo. E eles disseram que esperariam o tempo que fosse necessário, o que não podiam fazer era voltar sem mim.”

No dia seguinte, embarcou num voo para Pequim em primeira classe, sem fazer ideia do que o esperaria. Na China ficou umas horas em que tentou pegar no sono, sem sucesso. Depois entrou num avião das linhas aéreas norte-coreanas, e que tinha sido fretado unicamente para ele. “Eu, um miúdo de Koniz... ia uma pilha de nervos. Em adulto eu passei a ler notícias, sei bem o que acontece a quem ousa por em causa aquele regime. Sabia que tinha falado com os jornalistas. Estava com um medo danado do que me pudesse acontecer. Perguntaram-me se queria beber alguma coisa e pedi rum com coca-cola. Uma Cuba Livre, imagina. Responderam-me que na Coreia do Norte não há coca-cola. Ainda me encolhi mais na cadeira.”

No aeroporto aguardava-o uma limusina, e a primeira coisa que o impressionou foi ver que Pyongyang estava toda às escuras. “Levaram-me para um complexo militar e entrei por um túnel. Subi ao quarto, deram-me cinco minutos para mudar de roupa e levaram-me para uma enorme sala de banquetes. O Un-Pak levantou-se e veio logo dar-me um abraço. Nesse momento, perdi as toneladas de medo que tinha acumulado nos ombros. Ali estava o meu amigo outra vez e era só isso que interessava.”

O banquete foi servido para oito pessoas. Numa ponta da mesa estava ele e o emissário que o trouxera de Viena, na outra estava Kim Jong-un e a mulher. De um lado os tios do líder, do outro os antigos embaixadores em Berna, que Micaelo sempre julgara serem seus pais. “Ele virou-se para mim e disse que eu estava mais gordo. Eu repondi-lhe: também tu. Ainda gozei com ele por Portugal ter ganho por 7-0 à Coreia do Norte no Mundial da África do Sul. Isso ele não gostou tanto, mas lá admitiu que nós éramos melhor em futebol e não havia nada a fazer.”

Foto: Rui Oliveira

Ao jantar foram servidos pratos coreanos e, no fim de tudo, um fondue de queijo, em homenagem aos anos da Suíça. Falaram e fumaram juntos, brindaram com vodka e no fim de tudo houve uma sessão de karaoke, que durou até às tantas da madrugada. “No dia seguinte, almocei com ele outra vez e voltei ao aeroporto, com a promessa de voltar em breve. Ele queria que eu fosse logo, mas tinha coisas para fazer e acabei por voltar em abril de 2013, desta vez por uma semana.” No regresso, tinha o líder do país de calções à sua espera, para uma partida de basquetebol, um contra um.

“Visitei o país todo, sempre acompanhado por uma comitiva que incluía seguranças, tradutores e cozinheiros. Se havia fome eu não vi, mas acredito que sim. Bom, a verdade é que estive em vários países africanos onde a fome era uma coisa muito mais evidente. O que senti sempre era que as pessoas na rua me conheciam todas, e acho que a história da nossa amizade deve ter circulado nos meios de lá, porque toda a gente me vinha cumprimentar com um respeito enorme.”

Depois dessa semana, Micaelo não voltou a ver Kim Jong-un, e pensa que isso se deve a um motivo: “O mundo está mais dividido e ele tem mais em que pensar. Mas, no dia em que se proporcionar, lá voltarei a estar com ele. Um amigo é um amigo, ponto.” Há apenas uma coisa que o alentejano de Cabeço de Vide gostaria de contar ao presidente da Coreia do Norte. “É que voltei a viver no nosso bairro da Suíça, que me casei e há dois anos tive um filho, o Luís. Gostava que ele soubesse é que o meu filho nasceu a 8 de janeiro. Pode não se saber se ele nasceu em 1982 ou 1983, mas essa é a data de aniversário dele.”

Foto: Rui Oliveira


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