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Irão-EUA. Água na fervura do caldeirão da guerra
Mundo 7 min. 15.01.2020 Do nosso arquivo online

Irão-EUA. Água na fervura do caldeirão da guerra

Irão-EUA. Água na fervura do caldeirão da guerra

Foto: AFP
Mundo 7 min. 15.01.2020 Do nosso arquivo online

Irão-EUA. Água na fervura do caldeirão da guerra

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Fosse pela resposta militar do Irão que não provocou vítimas ou pelo recuo de Trump que optou por apenas aplicar mais sanções, o assassinato do general Qassem Soleimani não precipitou a guerra. Mas tanto nos Estados Unidos como no Irão cresce a divisão interna.

As agressões militares mútuas em que se envolveram os Estados Unidos e o Irão não estiveram longe de espoletar um conflito de dimensões imprevisíveis. Se a água entra em ebulição, geralmente, quando atinge os cem graus, a temperatura que se viveu depois do ataque norte-americano que acabou com a vida do General Qassem Soleimani não andou longe disso.

António Rodrigues, jornalista do Público, especialista em temas internacionais, considera que o ataque do Irão foi uma resposta ao "que era exigido pelas milhares de pessoas que andaram pelas ruas nos cortejos fúnebres de Soleimani". Ao Contacto, expressou que foi uma resposta proporcional no sentido em que os Estados Unidos já haviam atacado anteriormente uma base iraquiana de influência iraniana antes de assassinarem o general. Na opinião de António Rodrigues, o facto de a retaliação de Teerão ter sido comedida ao ponto de não ter provocado qualquer vítima foi "uma mensagem clara" de que o Irão se sentia forçado a responder mas que não queria prolongar a guerra.

Também Bruno Stevens, repórter fotográfico que cobriu durante vários anos a situação no Iraque e no Irão, considera que Teerão tem assumido uma postura mais ponderada e cautelosa. "Ao longo das últimas décadas, o Irão nunca invadiu nenhum outro país", explicou ao Contacto depois de recordar a agressão do Iraque ao Irão com o apoio dos Estados Unidos em 1980. "O Irão tem sido a parte mais sóbria em todo este conflito", reiterou.

De facto, este domingo veio a confirmação, com o líder iraniano da Guarda Revolucionária a declarar, no parlamento que o objetivo dos ataques com mísseis lançados na quarta-feira contra bases com militares norte-americanos no Iraque não era "matar soldados inimigos" mas sim causar danos materiais. "O nosso objetivo não era realmente matar soldados inimigos, isso não era importante", afirmou o general Hossein Salami, de acordo com a Lusa, durante uma audição realizada à porta fechada no parlamento iraniano, segundo um excerto transmitido pela televisão estatal iraniana. "Os danos materiais (provocados pelos mísseis) era justamente aquilo que pretendíamos porque queríamos dizer que somos tão superiores ao inimigo que podemos atacar qualquer ponto que escolhermos", prosseguiu o general.

Com o Irão a deitar água na fervura, Donald Trump, isolado na opção militar, evitou uma nova agressão, ficando-se pela imposição de mais sanções, e viu-se obrigado a justificar o assassinato de Qassem Soleimani numa entrevista à CBS. Segundo o presidente norte-americano, o general iraniano preparava ataques a quatro embaixadas dos Estados Unidos. As declarações geraram polémica logo que o secretário de Defesa afirmou desconhecer qualquer informação nesse sentido. "O presidente não referiu uma prova em concreto e eu não vi nenhuma, no que diz respeito às quatro embaixadas", sublinhou Mark Esper.


Pentágono admite não ter provas de que Soleimani planeava ataques a embaixadas
EUA deram ordem para executar, mas não tinham qualquer prova contra o general Qassem Soleimani.

De acordo com o repórter de guerra Unai Aranzadi, que acaba de sair dos Montes Golã, na Síria, é uma demonstração da "incapacidade" norte-americana. "Atacaram de forma tímida o Irão fora das suas fronteiras por não poderem bombardeá-lo formalmente como desejam", considerou. Por outro lado, o jornalista basco duvida que a Rússia tolere uma agressão aberta e frontal contra o Irão, "um país que faz fronteira direta com a sua área de influência".

Apesar das declarações contidas de solidariedade de vários países com Washington, Donald Trump apareceu também isolado internamente com os democratas a denunciarem aquilo que foi um "ato de guerra" contra o Irão em ano de eleições e com o presidente norte-americano a enfrentar um processo de impeachment. António Rodrigues recordou que a habitual unidade "em tempos de guerra" não aconteceu desta vez.

Do lado do Irão, o país rasgou o acordo nuclear que tinha assumido em 2015 que impunha ao limites ao número de centrifugadoras para enriquecer urânio, uma das formas de desenvolver armas nucleares. Quase dois anos depois de os Estados Unidos terem abandonado o tratado e terem imposto sanções ao Irão, a morte de Soleimani precipitou a decisão. Mas Teerão parece ter ganho ainda mais influência sobre o governo iraquiano que exige a saída imediata de todas as forças estrangeiras do seu território.

Polícia iraniana vigia os protestos que invadiram as ruas nos últimos dias.
Polícia iraniana vigia os protestos que invadiram as ruas nos últimos dias.
Foto: AFP

A tragédia do voo 752

Depois de rejeitar a autoria da queda do avião da companhia Ukraine International Airlines, as autoridades iranianas assumiram que o avião civil ucraniano foi abatido inadvertidamente por militares que o confundiram com um míssil de cruzeiro devido ao estado de alerta decretado nessa noite depois dos ataques às bases militares norte-americanas no Iraque.

Durante uma conversa telefónica com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, o presidente do Irão, Hassan Rohani, prometeu "levar à justiça" os responsáveis pela queda do aparelho.

A União Europeia (UE) tinha já pedido a Teerão "total cooperação" com uma investigação séria. Numa nota informativa a UE disse esperar, perante os compromissos assumidos pelo presidente iraniano Hassan Rohani, que "o Irão continue a cooperar totalmente" e "realize uma investigação integral e transparente" sobre este caso, processo esse que "deve cumprir os padrões internacionais". "Devem ser tomadas medidas apropriadas para garantir que um acidente tão horrível não volte nunca mais a acontecer", frisou o comunicado, que ainda lamenta a morte "de tantas pessoas de diferentes países" e reitera as "sinceras condolências" às famílias das vítimas.

A maioria das vítimas da queda do Boeing 737 ucraniano eram de nacionalidade iraniana e canadiana.
A maioria das vítimas da queda do Boeing 737 ucraniano eram de nacionalidade iraniana e canadiana.
Foto: AFP

Especialistas ucranianos que estão no Irão para investigar a queda do avião e obtiveram acesso às caixas negras por parte das autoridades em Teerão. "Todas as informações vão agora ser analisadas", referiu então o chefe da diplomacia da Ucrânia, país que enviou uma equipa de 45 peritos.

O Boeing 737 da companhia aérea privada ucraniana UIA despenhou-se perto da capital do Irão provocando a morte de todas as 176 pessoas que seguiam a bordo. A maioria das vítimas tinha nacionalidade iraniana e canadiana, mas também estavam a bordo cidadãos da Ucrânia, Suécia, Afeganistão, Alemanha e do Reino Unido.



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