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Indecisão Barbarossa
Opinião Mundo 3 min. 24.01.2023
Guerra na Ucrânia

Indecisão Barbarossa

Opinião Mundo 3 min. 24.01.2023
Guerra na Ucrânia

Indecisão Barbarossa

Hugo GUEDES
Hugo GUEDES
Um novo verbo acaba de fazer a sua entrada no calão urbano: "scholzar" – inspirado directamente no chanceler Olaf Scholz e que significa vacilar.

Os tanques alemães avançaram pelas planícies cobertas de trigo, tão rápidos quanto aparentemente imparáveis. O grande objectivo era Moscovo, mas de Berlim chegaram ordens diferentes: primeiro era preciso assegurar a Ucrânia e os seus muitos recursos naturais. E assim os Panzers viraram a sudeste, direcção Kyiv; apesar da muita resistência, apenas dois meses mais tarde entraram pela capital ucraniana.

É uma ironia histórica dolorosa, mas houve um tempo em que os tanques alemães não eram cobiçados como essenciais para a sobrevivência, mas sim temidos como mensageiros da morte.

A Ucrânia e o mundo voltam a estar suspensos da Alemanha e dos seus tanques, mas no sentido contrário.

A conquista de Kyiv foi o cume do êxito nazi na que é a maior ofensiva militar de sempre, a invasão da União Soviética pelo exército alemão em 1941 – a famigerada Operação Barbarossa. Apoiados pelas suas divisões de tanques Panzer, 3,8 milhões de soldados germânicos (e de outros países do Eixo) entraram pelos territórios que são hoje da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia. Ali aconteceram as batalhas mais sangrentas, as atrocidades mais abjectas e o maior número de vítimas da guerra em toda a História humana. A derrota nazi mudou o curso da II Guerra e determinou, em grande medida, o mundo em que vivemos hoje.

Hoje, a Ucrânia e o mundo voltam a estar suspensos da Alemanha e dos seus tanques, mas no sentido contrário – os Leopold II, apropriados para esta fase da guerra, são necessários para suster as vagas mortíferas de ataque russo, e serão ainda mais importantes se Putin ordenar o seu exército de presidiários a avançar sobre o Donbass, quando chegar a primavera.

Esmagada pelo peso da sua História vergonhosa, a Alemanha hesita em inflamar os tambores da guerra e recusa enviar (ou deixar enviar) os seus tanques para a Ucrânia. Seria uma atitude compreensível, até mesmo desejável para um país que só em 1999 voltou a enviar tropas para fora das suas fronteiras, se estes fossem tempos normais – só que não são. Recusar tanques neste momento não só diminui a Ucrânia, quando nunca se tornou tão claro que este país está a travar uma guerra decisiva para o Ocidente, como pior – confirma totalmente a narrativa de Putin de que a NATO está dividida, desmoralizada e pessimista.

Um novo verbo acaba de fazer a sua entrada no calão urbano: "scholzar" – inspirado directamente no chanceler Olaf Scholz e que significa vacilar, ter comportamento errático, ou prometer ajuda e não cumprir. Mas mesmo que a pessoa que está no topo do sistema nunca tenha antes demonstrado qualidades de liderança, o problema vem de trás, e é mais profundo. Não esquecer que há um par de anos, também foi criado o neologismo "merkelar", e os significados eram ainda piores, girando sempre à volta de indecisão, incompetência e arrogância moral. Foi durante esses 16 anos que a Europa criou, à custa da dependência do gás, o Frankenstein russo que agora nos aterroriza.

Tudo considerado, confio que os Leopold II alemães, polacos e espanhóis receberão em breve luz verde para chegar a Kyiv. Que isso nunca acontecesse seria um sinal de que a Alemanha continua refém da Rússia e temerosa da reacção irada de Putin. Ou seria um sinal de algo muito pior: que Scholz já não acredita que seja possível evitar a derrota.

 (Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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