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"III Guerra Mundial? Já entrámos nela há algum tempo", diz biógrafa de Putin
Mundo 14 min. 01.03.2022 Do nosso arquivo online
Guerra na Ucrânia

"III Guerra Mundial? Já entrámos nela há algum tempo", diz biógrafa de Putin

Guerra na Ucrânia

"III Guerra Mundial? Já entrámos nela há algum tempo", diz biógrafa de Putin

Foto: AFP
Mundo 14 min. 01.03.2022 Do nosso arquivo online
Guerra na Ucrânia

"III Guerra Mundial? Já entrámos nela há algum tempo", diz biógrafa de Putin

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
"Putin está a agir de forma cada vez mais emocional e poderá usar todas as armas ao seu dispor. Incluindo as nucleares. É importante não ter nenhumas ilusões, mas também não perder a esperança", diz a ex-conselheira nacional de defesa norte-americana, Fiona Hill. (Recorde o artigo).

"Numa entrevista publicada na revista Politico, a ex-conselheira nacional de defesa norte-americana e co-autora da mais aclamada biografia de Putin, diz que temos que ter muito cuidado com um homem disposto a tudo para restaurar o império dos czares. Disposto a tudo? Sim, mesmo se for preciso usar armas nucleares. Fiona Hill acredita, no entanto, que o ocidente ainda tem forma de se defender: todas as empresas que fazem negócios com a Rússia devem parar já de o fazer. É esse o preço a pagar para que as tragédias do século XX não se repitam.

A jornalista que entrevistou Fiona Hill, Maura Reynolds, justifica que precisou de recorrer a uma das pessoas que melhor conhecem a mente de Putin e a história da Rússia para tentar descodificar esta realidade que o mundo vive hoje e que leva constantemente a pensar: "Não, ele não pode estar a fazer isto!". 'Isto' é a maior agressão contra um país europeu desde a II Guerra Mundial, com milhares de mortos civis e militares em perspetiva e a decisão do Kremlin de pôr o seu armamento nuclear em alerta vermelho.

Acusou Putin e serviços secretos russos de falsas narrativas  

Fiona Hill tornou-se conhecida quando testemunhou contra o seu antigo patrão, Donald Trump, no processo de 'impeachment' a que o então presidente dos EUA foi submetido, já no final do seu mandato, por alegada interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016. Quem viu Fiona Hill depor não terá deixado de ficar impressionado. Ela era uma alta patente no Conselho Nacional de Segurança dos EUA, especializada nas relações com a Rússia e a Europa e acusou diretamente Putin e os serviços secretos russos de inundar os americanos de falsas narrativas, em conluio com Donald Trump. E disse que a Rússia estava preparada para continuar a minar a democracia dos EUA nas eleições de 2020.


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"Estamos já a meio de uma III Guerra Mundial, quer tenhamos consciência disso ou não", considera Hill, na entrevista ao Politico. Diz isto por ver como as tendências e os "longos arcos da História" estão agora a convergir na Ucrânia. "Infelizmente, estamos a calcorrear velhos padrões históricos que prometemos nunca permitir que voltassem a acontecer".

E, tal como na Alemanha do final dos anos 30, muitas empresas ocidentais não perceberam como ajudaram a montar a máquina de guerra de um tirano, admiradoras da "força" de um autocrata e houve políticos mais dispostos a apontar o dedo internamente uns aos outros do que a trabalhar juntos para reforçar a sua segurança interna.

"Ainda não é tarde demais para derrotar Putin"  

Mas não é ainda tarde demais para derrotar Putin, e é, segundo Hill, um trabalho coletivo. Não só para os ucranianos, ou para a NATO. É uma tarefa que todos os cidadãos e empresas ocidentais podem empreender quando perceberem o que está em causa.

 "A Ucrânia tornou-se a linha da frente de uma luta, não apenas entre democracias e autocracias, mas para manter um sistema de regras em que aquilo que os países querem não possa ser tomado pela força", sustenta Hill. E faz um aviso importante: "Todos os países no mundo inteiro deviam prestar muita atenção a isto".

O perigo que o mundo enfrenta, neste momento, é muito real. "Putin está a agir de forma cada vez mais emocional e poderá usar todas as armas ao seu dispor. Incluindo as nucleares. É importante não ter nenhumas ilusões, mas também não perder a esperança". O jogo de Putin é deixar claro que ele tem as mãos nos comandos nucleares e que não tem medo de os usar. "Mas não podemos deixar-nos intimidar. Temos que nos preparar e perceber o que fazer para o evitar".

O Estado mental de Putin: ódio visceral  

A apreciação que a doutorada em História russa pela Universidade de Harvard faz de Putin, dos  últimos discursos que o líder russo fez - e que a assistimos estupefacto - é que "ele é normalmente mais cínico e controlado do que o que deixou transparecer nos últimos discursos". 

Há um "lado visceral evidente nas coisas que disse para justificar a guerra na Ucrânia. O pretexto é inconsistente e sem sentido para quem não esteja dentro da bolha da propaganda russa". Um exemplo disso é o de alegar que o governo de Kiev é "uma cambada de fascistas nazis drogados". "Isto desafia qualquer imaginação", sustenta Hill. 

Esta emoção visceral é vista por Fiona Hill como extraordinariamente perigosa, simplesmente "porque não há sistemas de controlo à volta de Putin". "Na reunião do Conselho de Segurança Nacional foi muito claro que quem tomou a decisão da guerra foi ele. Mesmo os responsáveis pelos serviços secretos e de segurança foram apanhados de surpresa pela forma rápida como a decisão foi tomada".

Quando começou Putin a sonhar ser um czar

Apesar das manifestações emocionais e viscerais do dono do Kremlin, Fiona Hill acredita que a invasão da Ucrânia não é um impulso de última hora, antes algo cozinhado com tempo. "Houve um plano lógico e metódico, que data pelo menos de 2007, quando ele avisou o mundo e especialmente a Europa, que Moscovo não toleraria uma expansão da NATO. E um ano depois, a NATO começou a conversar com a Ucrânia e a Georgia, a iniciar o processo de abrir as portas". Foi esse o momento no tempo em que Putin terá começado a pensar no seu plano. E, segundo o que se diz na imprensa, a acumular reservas para quando o mundo reagisse à sua investida.

Na altura, em 2007, conta Fiona Hill, ela era uma alta patente no National Intelligence Council, nos EUA, e houve "uma avaliação de que havia um risco sério que a Rússia poderia avançar para uma vasta ação militar, não apenas a anexação da Crimeia, mas uma ação contra a Ucrânia e a Geórgia". Na altura, explica, não houve uma invasão da Ucrânia simplesmente porque o governo de Kiev de então cancelou as conversações para aderir à NATO. O presidente ator Zelensky, eleito há três anos, no entanto, insistia em ocidentalizar o país e aproximá-lo de Bruxelas.

O regresso ao império dos czares

Mais do que recuperar a União Soviética, Putin tem em mente recuperar os territórios mais vastos do Império Soviético. "Isto devia dar-nos que pensar", diz Hill. Vladimir Putin quer recuperar o "Mundo Russo" do tempo dos czares. "Isto já me deu vontade de rir mas também me preocupo como quão sério pode ser". 

Durante os dois anos de pandemia, Putin vasculhou os arquivos do Kremlin revolvendo velhos mapas e tratados e as diferentes fronteiras que a Rússia teve ao longo dos séculos. "Disse repetidamente que as fronteiras da Rússia e da Europa mudaram muitas vezes". E, nos discursos, atacou os líderes bolcheviques, porque "no seu ponto de vista eles deram cabo do Império Russo, perderam terras durante a revolução, e apesar de Estaline ter recuperado os Estados bálticos e parte da Ucrânia, tudo isso se perdeu com a dissolução da União Soviética". A justificação para mexer em fronteiras – um pouco como se fez no fim do século XX, ou após a II Guerra Mundial – "é que se as fronteiras não são perpétuas, então as fronteiras do velho Império Russo ainda estão hoje dentro da área de poder de Moscovo". 

Recentemente, Moscovo assinou um acordo militar com o Azerbaijão, o Kremlin tem pressionado o Cazaquistão para se reorientar em direção a Moscovo e a Bielorrússia é um Estado fantoche nas mãos de Putin. No meio disto, diz Fiona Hill, a Ucrânia é o estado que desertou destas linhas imperiais. "E o que Putin diz agora é que a Ucrânia não pertence aos ucranianos. Pertence-lhe a ele e ao passado". Se for necessário, Putin vai limpar a Ucrânia do mapa, porque o país não pertence ao "Mundo Russo". Passo a passo, sem que o ocidente tivesse realmente dado conta, Putin foi recuperando várias antigas repúblicas soviéticas, agora de novo debaixo do chapéu de Moscovo. A Ucrânia foi a única que lhe fugiu.

A agenda eleitoral russa. Putin até 2036

Putin anexou a Crimeia em 2014, antes das eleições. Em 2024 vai novamente submeter-se a um escrutínio, embora tenha emendado a Constituição em 2020, o que lhe permitirá manter-se como presidente por mais dois mandatos de seis anos. Segundo Hill, o único real opositor, Alexei Navalny, está preso depois de ter sofrido uma tentativa de envenenamento letal.  E deveria ser canja para Putin ser reeleito, mas Hill considera que "ele tem que dar um espetáculo convincente de que é imensamente popular". 


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Mas há, sustenta Hill - que estuda a Rússia e Putin nas suas duas décadas no poder - "uma enorme apatia no sistema, muitos só apoiam Putin porque não há mais ninguém. E os que não o apoiam não vão votar. A última vez que a sua 'marca' esmoreceu foi antes da anexação da Crimeia. E só isso o pôs de volta aos tops". Há um padrão. Parte da persona de Putin como presidente é o de um tipo duro e sem misericórdia, o protetor da Rússia. E é por isso que a Rússia precisa dele. "Se tudo estivesse em paz, quem precisaria de Vladimir Putin? Se pensarmos em líderes de tempos de guerra – e Winston Churchill é o primeiro que me vem à mente – a seguir à guerra ele perdeu as eleições como primeiro-ministro", afirma.  

 O seu próprio arco de vida

Há outro motivo para Putin avançar agora com os tanques contra Kiev. Em outubro fará 70 anos, mas há muitos políticos com mais de 70 anos e que não se consideram velhos. Mesmo que para um russo seja uma idade avançada – em média têm uma esperança de vida 10 anos inferior a um espanhol. E segundo Hill, Putin já não está assim com tão bom aspeto. "Está com o rosto inchado. sabemos que se tem queixado de dores nas costas. Pode andar a tomar doses altas de esteroides ou pode ser outra coisa qualquer". Na esfera pessoal, do seu próprio arco de vida, ou da perspetiva da mortalidade, "parece haver uma urgência nisto que pode também ser motivada por fatores pessoais".

Hill entende que ele pode ter a noção que "a marcha do tempo está a avançar – passaram 22 anos desde que subiu ao poder". "A única pessoa que nos tempos modernos durou mais tempo que Putin no poder foi o Estaline, e ele morreu no poder".

Guerra nuclear: um fantasma herança da Guerra Fria

Nunca se pensou na hipótese de uma guerra entre as 30 nações da NATO e a Rússia (e Biden e Von der Leyen têm dito explicitamente que não procuram uma confrontação militar com Moscovo), porque uma guerra convencional poderia rapidamente escalar para um conflito nuclear, que ninguém no seu juízo  defende. "Mas é onde estamos", diz Hill. "Basicamente o que o presidente Putin disse muito explicitamente é que se alguém interfere com a Ucrânia terá uma resposta que nunca viram na sua história. E colocou as forças nucleares russas em alerta vermelho. Portanto, ele está a deixar muito claro que o nuclear é uma hipótese em cima da mesa".

E já deu provas que não tem barreiras morais para usar a caixa de ferramentas à sua disposição: "Para quê ter um instrumento se não é para usar?". Hill recorda que Putin usou plutónio para assassinar Alexander Litvinenko em Londres e o agente novichok na tentativa de matar Sergei Skripal e a sua filha em Salisbury, e ainda Alexander Navalny, o líder da oposição, que acabou por sobreviver a um envenenamento e que está agora preso. "Portanto, se alguém pensar que Putin não usará algo que tem, que é invulgar e cruel, pense melhor. Cada vez que pensamos: 'Não, ele não vai, ou vai?' Sim, ele vai. E quer que nós tenhamos noção disso, claro", conclui Hill.

Como derrotar Putin ? Parem já os negócios com a Rússia

Mas há esperança. A pressão tem que ser internacional. "Primeiro temos que pensar em tudo o que Vladimir Putin fez e na natureza do que estamos a enfrentar". À jornalista do Politico, Hill recorda "As pessoas não querem falar de Adolf Hitler e da II Guerra Mundial, mas eu vou falar disso". Não contando com o Holocausto e focando-se na expansão territorial alemã, Putin está a usar a mesma noção de que "há um luto histórico", conjugado com um menosprezo dos direitos da minorias e dos países e está a culpar "os outros" para justificar as suas ambições territoriais. A culpar a NATO, o imperialismo do ocidente, o que seja.


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"Se as pessoas olharem para a história da II Guerra Mundial havia muitas pessoas na Europa que se tornaram simpatizantes do Partido Nazi antes da invasão da Polónia". Infelizmente, diz Hill, "vemos isso repetir-se agora com clareza. Há políticos e figuras públicas nos EUA que embarcam na ideia de que a Rússia foi maltratada pela NATO e que o Putin é um homem poderoso que tem o direito de o fazer: porque a Ucrânia é terra histórica da Rússia, ou porque – como diz Putin – 'o país é governado por drogados nazis'".

Uma das coisas que temos que ter em conta neste contexto histórico mais alargado é como a comunidade empresarial alemã ajudou a facilitar a ascensão de Hitler, considera a co-autora de "Mr Putin. Operative in the Kremlin". "Neste momento, toda a gente que está a fazer negócios com a Rússia ou a comprar o gás e petróleo russo está a contribuir para a máquina de guerra de Putin. Os nossos investimentos estão agora literalmente a alimentar a invasão da Ucrânia".

Hill propõe uma ideia radical: "Tal como ninguém queria investir na África do Sul durante o apartheid, será que alguém quer mesmo investir os seu dinheiro na Rússia durante a brutal invasão e subjugação em curso da Ucrânia?"

Para além das sanções internacionais já em curso, Hill propõe uma suspensão temporária de todas as trocas comerciais com a Rússia, até haver um cessar-fogo e retirada das tropas russas. Todas as empresas deveriam tomar essa decisão. Todas as pessoas que estão nos conselhos de administração de empresas russas deveriam abandonar os seus cargos imediatamente.  

A Rússia não conseguiria pagar esta guerra sem os preços do petróleo e do gás que têm sido inflacionados. E se a Rússia tiver que recorrer à China (que ainda não condenou a invasão) para fazer negócios, como parceiro único, no entender de Hill, ficará subjugada a Pequim; um satélite da esmagadora economia chinesa e não a potência imperial com que Putin sonha.

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Tal como a II Guerra Mundial foi um segundo ato da I Guerra Mundial, Hill sustenta que o momento que estamos a viver, com a quebra do compromisso da paz na Europa, é a III Guerra Mundial. "E já estamos nela há algum tempo". Muitas das coisas de que falamos agora tiveram as suas raízes na queda do Império Austro-Hungaro e do Império Russo. Recentemente, "tivemos a Guerra na Síria, que é em parte consequência do colapso do Império Otomano, e o mesmo com o Iraque e o Kuwait". "Todos os conflitos a que assitimos tiveram raízes nestes conflitos fundadores. E já estamos numa guerra acesa na Ucrânia desde 2014. As pessoas não se devem iludir de que estamos à beira de algo. Estamos nisto há bastante tempo".

O que a Rússia está a fazer é declarar que "a razão está na força". "É claro, que nós também cometemos erros terríveis . Mas ninguém tem o direito de destruir completamente outro país – Putin abriu uma porta na Europa que nós achávamos que tínhamos fechado após a II Guerra Mundial", resume Fiona Hill.

 

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