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Humor negro
Editorial Mundo 2 min. 23.07.2019

Humor negro

Humor negro

Foto: DR
Editorial Mundo 2 min. 23.07.2019

Humor negro

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Em democracia parece poder-se votar em toda a gente, desde que não façam nada de muito diferente. O triunfo dos bobos e dos grunhos é uma última forma de disfarçar o evidente com o barulho das luzes.

O comediante Volodymyr Zelensky, que tinha ganho com 72% as presidênciais na Ucrânia, triunfou nas legislativas de domingo passado, com mais de 42% dos votos, com o seu recém-formado partido “Sevidor do Povo”. O nome do partido é tirado da série de televisão que o próprio Zelensky protagonizava, e que conta a história de um modesto professor de História que ganha as eleições contra uma clique de políticos corruptos. 

 A vitória de Zelensky nas presidênciais, sem fazer qualquer comício e atividade de campanha eleitoral clássica, significou que “Zelensky fez o papel do dedo do meio”, garante o politólogo do centro de estudos de Penta, em Kiev, Volodymyr Fesenko, à “Revue Deux Mondes”, aludindo ao célebre e popular pirete. 

 Vivemos na época de um pirete galáctico generalizado à escala planetária. A eleição de Zelensky, precedida das vitórias de Beppe Grilo na Itália, da eleição do presidente da Câmara de Reykjavic, Jón Gnarr e do Presidente da Guatemala Jimmy Morales, todos comediantes, são a prova desta deriva mundial. Dizia um dos percursores da conquista do poder pelos humoristas, o francês Coluche, que chegou a ter mais de 30% da intenções de votos na corrida presidêncial francesa de 1981: “deixarei de fazer a política quandos os políticos deixarem de nos fazer rir”. 

 Esta ideia dos humoristas como subversores da política está alicerçada na sua suposta independência em relação aos poderes e às práticas dominantes. É preciso lembrar que os bobos da corte gozavam de uma maior liberdade para dizerem coisas, mas não deixavam de ser do rei, e o seu papel era serem uma espécie de momento de descompressão para permitir que tudo ficasse exatamente como estava. 

 O dono do canal de televisão – em que Zelansky emitiu o seu exercício ficcional de moralização da política, “Servidor do Povo” – é o oligarca Ilhor Kolomoisky, que entrou em rota de colisão com o então Presidente Porochenko, também oligarca, quando este manifestou a intenção de nacionalizar a empresa de distribuição de petróleo do primeiro. Seis meses depois, estreou “Servidor do Povo”. 

 O populismo dos cómicos, embora mais inteligente que o populismo dos grunhos que se observa em outras latitudes, não deixa de ser, politicamente, uma forma de descompressão para que tudo fique sobretudo na mesma. E para que o poder real, de quem lucra, fique essencialmente salvaguardado. 

 Esta erupção é obviamente filha da crise económica e da crise da representação política, mas é um sintoma de algo muito mais profundo. 

 A definição de política pressupõe a possibilidade de tomar caminhos diferentes e de fazer escolhas. Coisa que há muito o sistema político não garante. Em democracia parece poder-se votar em toda a gente, desde que não façam nada de muito diferente. 

 O triunfo dos bobos e dos grunhos é uma última forma de disfarçar o evidente com o barulho das luzes.