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Hong Kong não quer ser a sombra da China
Mundo 6 min. 20.08.2019

Hong Kong não quer ser a sombra da China

Hong Kong não quer ser a sombra da China

Foto: AFP
Mundo 6 min. 20.08.2019

Hong Kong não quer ser a sombra da China

Bruno AMARAL DE CARVALHO
Bruno AMARAL DE CARVALHO
Nunca houve tão poucos habitantes de Hong Kong a sentirem-se chineses. As manifestações que abalam a ex-colónia britânica mostram que a entrega do território pelos britânicos à China ainda não é um assunto resolvido na ilha.

É cada vez mais evidente que os manifestantes em Hong Kong querem muito mais do que o fim da polémica lei de extradição proposta pelo governo local que ia permitir que cidadãos desta ex-colónia britânica pudessem ser julgados na China. À medida que as autoridades locais foram recuando, os massivos protestos que colapsaram as ruas de Hong Kong foram mostrando que exigem muito mais do que isso. Dependendo de que ponto de vista se olhe para os acontecimentos, há quem diga tratar-se de uma batalha pela liberdade de uns ou de uma batalha pela soberania nacional de outros.

Os factos mostram que, apesar da descolonização, o processo histórico que desembocou na entrega à China de Hong Kong por parte das autoridades britânicas, em 1997, está longe de estar resolvido. Há 22 anos sob administração chinesa, no território luta-se pela conservação das caraterísticas económicas acordadas na declaração conjunta sino-britânica assinada em 1984 que garantia a preservação de liberdades e direitos por um período de 50 anos, até 2047. “Os atuais sistemas sociais e económicos permanecerão inalterados, assim como o seu estilo de vida”, pode ler-se no documento.

Em entrevista ao El País, Willy Lam, professor catedrático de História e Economia na Universidade Chinesa de Hong Kong, afirmou que “para os manifestantes se trata de uma batalha pela liberdade, para o governo chinês é uma batalha pelo controlo”. A verdade é que a presença da colonização britânica continua presente no dia-a-dia da sociedade. Não apenas pelas ruas dedicadas à monarquia britânica ou pelas construções verticais mas também porque há diferenças evidentes com o que se passa no resto da China. Em 11 semanas de protestos, o choque entre dois modelos de sociedade é cada vez mais evidente com a bandeira colonial britânica a aparecer cada vez mais como símbolo.

A ameaça de uma intervenção militar de Pequim para garantir a soberania do território é real mas apesar da dimensão esmagadora do protesto anti-governamental há uma opinião pública que se manifesta favorável a Pequim. Nos últimos dias, duas figuras de peso mostraram-se do lado do governo chinês. O ator Jackie Chan e a atriz Liu Yifei - que vai interpretar a personagem Mulan no novo live action da Disney - contestaram o caráter violento dos protestos. 

A estrela de artes marciais mostrou-se “preocupado” e “angustiado” numa entrevista ao canal de televisão central da China e explicou que enquanto habitante de Hong Kong e chinês participou na atividade “A bandeira de cinco estrelas conta com 1,4 mil milhões de guardas” com o objetivo de manifestar o seu patriotismo. Para o ator, a segurança, a estabilidade e a paz são fundamentais: “Hong Kong é minha casa e a China é minha casa. Amo o meu país e amo a minha terra natal. Espero que se recupere a paz o mais rápido possível em Hong Kong”, afirmou Jackie Chan.

Já Liu Yifei fez declarações polémicas no Weibo, uma plataforma chinesa semelhante ao Twitter. “Eu apoio a polícia de Hong Kong e agora podes bater-me". A atriz que nasceu em Wufan mas que possui a nacionalidade norte-americana foi acusada de ser hipócrita e há já uma campanha por parte dos manifestantes que apelam ao boicote contra o filme da Disney que se prevê estar nas salas de cinema no princípio do próximo ano.

De acordo com Antony Dapiran, advogado residente no território e autor do livro "Cidade de Protestos: uma história recente sobre a dissidência em Hong Kong", a identidade do território transformou-se também em paralelo durante este processo de transição de soberania: já não avança em torno da ideia da sua modernidade ou prosperidade mas sobre o facto de ser um povo livre. “O que faz deles especiais são os seus direitos e liberdades, algo que não só a China não tem como uma maioria de lugares da Ásia tampouco, o que para Hong Kong é uma razão de orgulho e personalidade”, afirmou ao El País.

Os dados sociológicos parecem corroborar a teoria de Antony Dapiran. O programa de Opinião Pública da Universidade de Hong Kong elabora de maneira periódica uma sondagem que contrasta a identificação popular entre as identidades de quem se sente parte da China ou de Hong Kong. A evolução histórica do estudo de opinião mostra como nos anos posteriores à transferência de soberania, a identidade chinesa se foi impondo até alcançar, em 2008, 38% contra 18% que se sentia de Hong Kong. Nesse ano, os Jogos Olímpicos, que abriram as portas de Pequim ao mundo, reforçaram essa sensação. A partir daí a relação inverteu-se. No fim de junho deste ano, o número de cidadãos que se sentiam mais de Hong Kong do que chineses atingiu níveis históricos: 53%. A identidade chinesa, por sua vez, registou 11%, o valor mais baixo de sempre.

Hong Kong, a pedra no sapato da China

Se é verdade que o progresso económico da China diminuiu consideravelmente a importância da ex-colónia britânica, Hong Kong ainda joga um papel fundamental. Quatro anos antes da transferência da soberania, o território representava 27% do PIB chinês. A partir dessa data começou a cair até chegar a menos de 3% no ano passado. “Atualmente, a cidade faz dinheiro graças aos turistas chineses, ao investimento chinês e às empresas chinesas. Ao mesmo tempo, os núcleos urbanos chineses transformaram-se: Pequim, Xangai, Shenzhen ou Cantão não ficam nada atrás”, assinalou ao El País Antony Dapiran.

Mas a disputa comercial entre os Estados Unidos e a China e a inclusão da gigante de telecomunicações Huawei numa lista negra colocaram Pequim num impasse. Empresas chinesas foram obrigadas tornar-se menos dependentes da moeda estrangeira e da tecnologia, o que devolveu uma maior importância a Hong Kong.

O investimento direto chinês em Hong Kong totaliza 620 mil milhões de dólares, 70% a mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) do território semi-autónomo.  Em 2017, as empresas da China continental captaram 47 mil milhões de dólares em ações e 66 mil milhões de dólares em títulos de dívida emitidos por empresas no mercado de Hong Kong.

Apesar das intenções chinesas, o yuan ainda não é uma moeda totalmente convertível. Ou seja, capaz de liquidar transações financeiras livremente, sem restrições ou dificuldades à compra e venda. Portanto, o controlo de capital restringe o movimento de capital financeiro através das fronteiras. Os depósitos de yuan em Hong Kong valem cerca de 100 mil milhões de dólares. Cerca de 60% do investimento externo da China continental são canalizados através de Hong Kong.

O território é ainda parte integrante do projeto "Área da Grande Baía", que inclui Macau e as nove principais cidades da província de Guangdong. Só esse polo tem uma população de 70 milhões de habitantes e um PIB de 1,5 biliões de dólares.

Com o fim das taxas de crescimento de dois dígitos, a China precisa de Hong Kong para atenuar um panorama económico que se prevê turbulento. Hong Kong oferece ainda um tipo de flexibilidade bem distante da realidade da China continental. É também uma fonte vital para angariar fundos. Este ano, uma vez mais, a Fundação Heritage nomeou Hong Kong como a economia "mais livre do mundo".

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