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Há um novo Robin dos Bosques no Vaticano
Mundo 3 min. 15.05.2019

Há um novo Robin dos Bosques no Vaticano

Há um novo Robin dos Bosques no Vaticano

Foto: dpa
Mundo 3 min. 15.05.2019

Há um novo Robin dos Bosques no Vaticano

Quando o cardeal Konrad Krajewski percebeu que 450 pessoas que vivem num prédio devoluto em Roma tinham ficado sem eletricidade, decidiu ele mesmo ir ligar a luz. Matteo Salvini, ministro do interior italiano, quer ele pague a fatura de 300 mil euros.

Há já alguns dias que um grupo de pessoas se andava a manifestar na via Santa Croce, perto da Basilica de Gerusa-lemme, em Roma. É que no dia 6 de maio a companhia elétrica italiana tinha vindo cortar o fornecimento de eletricidade de um edificio devoluto – e 450 pessoas viram-se de um dia para o outro sem acesso à preciosa energia.

Foi a irmã Adriana Domenici, que trabalha com a população sem-abrigo da cidade, quem alertou o Cardeal Krajewski para o que se estava a passar. A própria explicaria mais tarde as circunstâncias à cadeia de televisão RAI: “Este prédio pertencia ao Estado, foi fechado mas tudo lá dentro funcionava. E há anos que as pessoas começaram a ocupá-lo. Viviam aqui 450 sem-abrigo, entre eles havia muitas famílias de migrantes com empregos precários” . Uma centena de crianças morava aqui em Santa Croce.

Konrad Krajewski é o esmoler do papa, ou seja, o responsável por fazer chegar a ajuda do Vaticano aos mais pobres. Mas havia esta estranha casualidade: antes de se tornar sacerdote, aos 25 anos, o polaco tinha sido eletricista. Isso significa que sabia perfeitamente restabelecer a corrente a uma caixa de eletricidade que as autoridades tivessem cortado. E foi precisamente isso que fez.

Quando os funcionários da companhia estatal de eletricidade voltaram ao edifício para novo corte da luz, deram um um bilhete escrito à mão pelo cardeal, afirmando que tinha sido ele o autor do restabelecimento ilegal da eletricidade. Deixaram tudo como estava. Na tarde de domingo, o sacerdote haveria de esclarecer desta forma o jornalista do Corriere della Sera: “Intervim pessoalmente para reativar os contadores. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias e crianças e sem possibilidade sequer de ter os frigoríficos ligados. Assumo todas as responsabilidades pelo que fiz.”

Matteo Salvini, ministro do Interior italiano e líder da extrema-direita, andava em plena campanha eleitoral quando recebeu a notícia. “Conto que pague os 300 mil euros de faturas em atraso que aquele edifício tem”, disse aos jornalistas. “Sobre direitos e deveres, acredito que uma boa parte de vocês tenha de fazer sacrifícios para pagar as faturas. Se alguém quiser pagar as faturas de milhões de italianos que lutam com dificuldades económicas, ficarei muito feliz.”

As relações entre Salvini e o Vaticano nunca foram boas (o Papa nunca quis receber o ministro do Interior), mas têm-se agravado nas ultimas semanas. Há um mês, depois de o governo italiano ter decretado o encerramento dos portos aos navios de resgate de migrantes no Mediterrâneo, um padre desafiou as ordens embarcando numa dessas embarcações com autorização das autoridades eclesiásticas da cidade. Na semana passada, um grupo de militantes fascistas concentrou-se à porta da nova casa onde uma família de etnia cigana tinha sido realojada, com o objetivo de expulsá-los. Salvini elogiou a iniciativa. No dia seguinte, o Papa Francisco veio dizer que “O amor é o civismo. Cidadãos de segunda são na verdade aqueles que rejeitam e vivem para rejeitar os outros”.

Já em abril de 2016, o antigo estratega principal de Donald Trump, Steve Bannon, aconselhou Salvini a fazer do Papa Francisco um inimigo, dada a sua defesa dos direitos humanos dos imigrantes.

Este episódio com Konrad Krajewski é por isso o capítulo de uma batalha cada vez mais evidente entre a Igreja e um governo anti-imigração em Roma. O cardeal, que tem 55 anos e é reconhecido pela sua renúncia aos direitos adquiridos pelo cargo (nem a casa a que tinha direito quis ocupar) é agora apelidado de Robin dos Bosques pela imprensa italiana. Resta saber se vai ou não pagar a conta da luz.