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Guilherme Serôdio. “O poder político está a perder legitimidade porque não faz face à crise climática”

Guilherme Serôdio. “O poder político está a perder legitimidade porque não faz face à crise climática”

Foto: Thierry Monasse
Mundo 21 min. 14.04.2019

Guilherme Serôdio. “O poder político está a perder legitimidade porque não faz face à crise climática”

Um dos fundadores do Extinction Rebellion, o grupo que "invadiu" nu o Parlemento do Reino Unido, é português. Já foi detido várias vezes e considera que a sobrevivência do planeta depende de uma mudança política global. Para isso, é preciso fazer muito mais que manifestações. Até porque os governos têm feito orelhas moucas aos cidadãos.

 Começa amanhã a ‘Rebelião Internacional’ convocada para cidades em todo o mundo pelo movimento Extinction Rebellion (XR). São ações pacíficas de rua, em locais icónicos, com o objetivo de levar a polícia a deter civis como forma de chamar a atenção para a catástrofe ecológica em curso e as consequências das alterações climáticas. O movimento começou em Inglaterra a 31 de Outubro de 2018 e no dia 17 de Novembro milhares de pessoas bloquearam cinco pontes no centro de Londres e dezenas foram detidas. Na última ação mais visível 10 ativistas irromperam pelo parlamento inglês seminus.

O movimento conta com o apoio expresso - numa carta publicada no jornal Guardian - de intelectuais do Reino Unido, em que se incluem dezenas de professores universitários e o anterior arcebispo de Cantuária, Rowan Williams. A atriz Emma Thompson é um dos rostos dos XR e apela num vídeo para a rebelião civil, que, diz o slogan, ‘começa dia 15, acaba quando ganharmos’. No Luxemburgo, o movimento está a dar os primeiros passos. Em todo o mundo está a tornar-se viral.

O português Guilherme Serôdio foi um dos co-fundadores da organização na Bélgica. Vive em Bruxelas há sete anos e em entrevista ao Contacto, explica o que o motivou, quais os objetivos do grupo e para onde o futuro os leva. Mas sublinha que, numa organização sem hierarquias, cada pessoa fala em nome próprio.

Como é que começou o Extinction Rebellion Belgium?

O grupo original nasceu em Inglaterra e passado pouco tempo uma ativista veio dar uma palestra, com o nome Heading to Extinction (a caminho da extinção), à frente do Parlamento Europeu, numa concentração de umas centenas de pessoas de preparação para a grande manifestação do clima de 2 de Dezembro. Ela fez um discurso de dois minutos sobre desobediência civil, aquilo para mim fez todo o sentido. Fui falar com ela e estava lá também uma senhora de Gand que está muito envolvida nestas questões. Nós os dois decidimos ali criar o XR em Bruxelas.

Como foi o crescimento do grupo?

Na primeira reunião que organizámos, no final de Novembro, apareceram logo 20 ou 30 pessoas. A 2 de Dezembro houve a terceira maior manifestação da história da Bélgica, que foi a marcha do clima, com cerca de 75 mil pessoas. Na semana seguinte, haveria a grande reunião da ONU sobre o clima na Polónia, a KOP 24, e queríamos mandar uma mensagem ao governo: vão para lá com coragem e o mandato desta multidão que vos apoia. Mas dois dias depois da marcha soube-se que o governo belga estava a dar indicações aos diplomatas para boicotarem as posições europeias, que já de si não são ambiciosas o suficiente. Em resposta a esse sentimento de frustração, na semana a seguir passámos a ter 1700 pessoas a seguirem-nos. Foi uma explosão. Neste momento, temos cerca de 3 mil seguidores nas redes sociais, que participam nas ações. A trabalhar ativamente na organização são cerca de 200. E perto de 50 por semana participam em treinos de desobediência civil pacífica.

Um dos propósitos principais dos activistas dos XR é serem detidos. Já lhe aconteceu?

Já fui detido, identificado várias vezes e tenciono ser muito mais vezes, com muito mais pessoas.

Onde foi detido?

Em Bruxelas, em meados de Fevereiro, numa conferência com o primeiro-ministro belga, Charles Michel, o ministro do ambiente, o Príncipe do Monaco, e ministros de países limítrofes ao mar do Norte. Era uma conferência sobre os oceanos, absolutamente de fachada e vazia de consequências, e fomos lá protestar e pedir um emergência climática. Escrevemos uma declaração alternativa que deixámos na mesa dos participantes e em que pedíamos que os governos dos países presentes se comprometessem a declarar emergência nacional e a tomar medidas concretas até ao fim do ano. Todos os membros do XR Belgium que participaram ficaram detidos durante quatro horas.

O objectivo era mesmo esse, a detenção?

Fazemos sempre ações diretas não violentas. Mas sabemos sempre ao que vamos e quais são as piores consequências legais. No começo das ações contactamos as pessoas e explicamos porque lá estamos e que, não sendo a ação violenta, não precisam de assustar-se. Somos detidos, mas estamos na Bélgica, não corremos perigo, não vamos ser maltratados…

Essa ação cumpriu os objetivos?

Saiu em todos os jornais. Foi bem escolhida porque como estavam as figuras de proa do sistema, as televisões também estavam e portanto tivemos muita visibilidade. Não é com a interrupção de uma conferência sobre os oceanos que vamos conseguir os nossos objetivos. Na estratégia da XR na Bélgica há toda uma dramaturgia de ações, iremos fazer ações umas atrás das outras e com mensagens claras.

A ação que fizeram recentemente para que fosse aprovada a Lei do Clima na Bélgica, foi a primeira grande ação?

A proposta que estava ser discutida no parlamento era - o que acabou por ser chumbado - inscrever na constituição belga um imperativo de considerar o clima em todas as decisões que se tomassem a nível ministerial. Haveria reuniões inter-ministeriais a cada quinze dias e seria dada muito mais visibilidade ao clima, o que é interessante como ideia. Mas não resolve muito, na perspetiva do XR, e na minha, porque não altera o sistema. Mas foi uma ocasião excelente para gerar uma enorme mobilização e encontro entre as várias ONG’s do clima em Bruxelas.

Como é que isso aconteceu?

Há uma parte da sociedade civil que são as juventudes pelo clima, as marchas pelo clima, todos os grupos que se manifestam pacificamente uma vez e outra vez para se fazerem ouvir. E depois de marchas de centenas de milhar de pessoas semana após semana, meses e meses, até essa proposta de Lei do Clima não tinha havido nenhuma resposta dos políticos. Esses grupos e as ONG’s, onde se inclui o Greenpeace e a Oxfam, vieram ter connosco - que somos vistos como os ativistas radicais, nós que já estamos muito mais desesperados e queremos uma ação muito urgente. E juntámo-nos para uma grande ação conjunta de desobediência civil que dissesse estamos fartos de pedir educadamente. Escrevemos na bandeira: “We are done asking nicely”. Já percebemos que as manifestações não vos dizem nada. Às pessoas que protestam na rua, com calma, vocês não respondem, fingem que não ouvem. Portanto vamos dar outro passo, para lá da legalidade. Não foi só por causa da lei do clima.

A lei do clima é irrelevante?

Não. Seria importante e interessante como passo, seria uma indicação de que o poder político ouve as pessoas na rua, mas não é essencial. O que se vê é que este sistema político está a perder legitimidade porque está a perder capacidade de fazer face à crise do clima deste tamanho. Queríamos convidar a sociedade civil a pensar em novas formas de agir sob pressão, ou seja, sair da legalidade. Foi um sucesso estrondoso. Trouxemos VIP’s, o antigo vice-presidente do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas), que é belga, os organizadores das marchas todas, youtubers, artistas …

Refere-se ao acampamento na Place du Trône …

Bem, esse acampamento foi o final de todo um processo. O Occupy For Climate que fizemos em Bruxelas começou por uma ação massiva de desobediência civil. Tomámos a rua toda em frente ao parlamento belga, que é considerado zona neutra, ou seja, não se pode fazer manifestações aí. A nossa mensagem era: “Todas as pessoas aqui estão dispostas a ir presas porque percebem a urgência de tomar medidas”. Tomámos a estrada em frente ao parlamento belga com barris, onde metemos pessoas, com braços dentro dos barris amarrados uns aos outros e em cubos pesados. Fomos completamente cercados pela polícia de choque e tínhamos miúdos lá dentro, de 15, 18 anos. Vieram carrinhas e carrinhas de polícia e aqueles ‘robotcops’ . Ficámos ali durante o dia todo. Depois tentámos ir para o Parc Royal, que também é zona neutra, para montarmos um acampamento, mas a polícia não deixou. Acabámos por mover tudo para a esquina da Rue de la Loi com a Avenue des Arts e dormimos aí. Fomos enganados pela polícia que disse que deixavam entrar comida e as nossas coisas para dormirmos na rua e não deixaram. Eles disseram mesmo que não queriam que estivéssemos confortáveis e por isso não permitiram tendas. Éramos só 30, mas aguentámos todos, foi uma noite horrível. E depois fomos para a Place du Trône, que é um sítio espetacular para fazer uma ocupação. É visível, os jardins têm uma sebe e um caminho, portanto parecia mesmo um parque de campismo. Cobrimos a estátua do rei Leopold II, que foi um colonizador violentíssimo. Acabou por ser um espaço onde as diferentes lutas se encontraram e estiveram a debater como se trabalha contra este sistema e em prol do quê.

Foi a primeira vez que houve essa junção entre vocês e as outras ONG?

Foi uma junção enorme. Os ativistas mais radicais do clima, que somos nós, a organizar isto, mas com toda agente: a sociedade civil, os estudantes e pessoas que se preocupam. E outras pessoas que não estão tão preocupadas com o clima mas que também não gostam de como as coisas estão, tipo coletes amarelos. Tivemos muitos coletes amarelos na manifestação, na tomada na estrada e até na Place du Trône. Pessoas que vêm dos confins da Bélgica …

Mas um colete amarelo e um ativista do clima não quer as mesmas coisas

Quer. Os problemas do fim do mundo e os problemas do fim do mês vêm da mesma fonte.

Mas os ‘gillets jaunes’ começaram a manifestar-se em França porque o preço da gasolina estava a aumentar…

Parece uma luta oposta mas não é. Isso foi a última gota. Há todo um quadro de injustiças gritantes por trás. Ao mesmo tempo, o governo Macron estava a fazer cortes aos impostos sobre fortunas de milhões de euros para pessoas que já têm milhões de euros. E para compensar isso, a aumentar com taxas extra, que vão penalizar pessoas que não têm nenhuma alternativa a usar o carro para o trabalho e que já vivem mal. Percebo de onde vem aquela humilhação e aquela explosão inicial que depois começa a organizar-se. No XR, onde milito, usamos a não violência como tática mas para virar um sistema destes eu quero trabalhar com toda a gente. E os coletes amarelos também. Portanto, convidámo-los.

Na Bélgica estão tão organizados como em França?

A Bélgica é um país rico, mas só de Bruxelas para cima. A Valónia é das regiões mais pobres da Europa, há muita gente que não está bem, mas não têm a mesma força que em França. Vieram super humildemente e de coração aberto saber com se faz uma convergência de lutas, como se usa todo o descontentamento que este sistema está a criar. Eles ofereceram-se para tirar os coletes para não criar problemas. Mas achámos que deviam estar visíveis. Um dos aspetos dos movimentos em torno do clima é que a urgência que a natureza está a impor pode ser usada por todas as forças sociais para acelerar a mudança.

Houve relatos de que os coletes amarelos ‘infiltraram’ a manifestação no domingo após a derrota da lei e que geraram violência. Foi uma espécie de traição?

Não. Foi falta de coordenação. Aquela manifestação devia ter sido mantida como não violenta. A polícia barrou os coletes amarelos quando eles chegaram. E a organização da marcha distanciou-se deles e eles ficaram chateados e alguns começaram a atirar pedras.

As vossas ações são por essência não violentas, ou isso é discutível?

A nossa estratégia é a não violência, mas não há nenhum movimento pacífico que tenha resultado sem movimentos paralelos de violência. Nem o Nelson Mandela, nem o Ghandi, nem o Luther King. Na Índia havia ataques. Com as reivindicações do Martin Luther King, havia paralelamente os Black Panthers e o Malcolm X. Há grandes linhas de não violência que expõem a vulnerabilidade do Estado e que expõem a vulnerabilidade de populações inteiras e ganham um grande apoio da massa civil e essa é a sua grande estratégia. Agora não podemos estar a dizer tudo o que é violento não pode ser. Há pessoas que têm origens diferentes. Têm problemas e pressões muito diferentes das nossas. Não têm a capacidade de se defender não violentamente, ou porque não têm as câmaras lá. Porque estar a fazer uma coisa não violenta sem uma câmara de televisão, de repente leva-se uma grande bordoada, ninguém sabe de nada, valeu alguma coisa? Os coletes amarelos têm razão quando dizem que se forem marchar pacificamente ninguém lhes liga. Se queimarem um carro não se fala de outra coisa.

Como é a organização do XR?

Funciona em “holacracia”. Quer dizer que o poder e as decisões são horizontais e não em pirâmide. Os representantes dos cinco grupos de trabalho, escolhidos rotativamente, encontram-se regularmente e dizem o que está a ser feito, o que querem fazer e do que precisam. No princípio tínhamos até um grupo coordenação porque foi preciso montar estas estruturas, mas foi extinto. A primeira Assembleia Geral sem coordenação foi no dia 6 de Abril.

Neste momento no XR é o quê?

Lancei vários grupos que hoje em dia estão autónomos. Estou a tentar lançar o de fundraising e a apoiar o de legal e o de comunicação.

Há quantos grupos?

Cinco. Comunicação; ação e estratégia; filosofia; contágio e ‘outreach’ ( procura de parceiros e treino de pessoas) e o de cultura regenerativa. Isto é uma coisa que vai demorar algum tempo, portanto tem que haver uma cultura de não deixar que os ativistas tenham ‘burnouts’. O grupo de cultura regenerativa procura cuidar das pessoas que fazem parte do XR, com coisas que envolvem organização de jantares, criar laços e comunidade entre as pessoas, ter boa comida nas reuniões, sopa. Há uma cultura de cuidado, de comunidade e de confiança. A nossa visão é que só conseguimos chegar tão longe quão grande for a proximidade e a confiança entre as pessoas.

Vocês mantêm alguma relação com o grupo original no Reino Unido?Para usar o nome têm que cumprir alguns requisitos?

O XR foi desenhado de uma maneira diferente das estruturas de poder que conhecemos, sem hierarquias, muito mais baseada num trabalho em equipa, muito aberto, e cujo propósito é replicar, replicar. Eles criaram um logo e toda a gente pode usar. Temos plataformas de discussão seguras, não é com os ‘googles’, nem com os ‘facebooks’, são coisas seguras, alojadas em servidores geridos com energias renováveis. E dão-nos acesso a estas redes e dão-nos muita formação… O compromisso é fazer ações de desobediência civil não violenta chamando a atenção para a crise climática e ecológica que está a levar à extinção de espécies, incluindo a humana.

Mas há encontros?

Há muitas reuniões à distância e este fim de semana (final de Março) foi a primeira reunião europeia de representantes de XR’s.

Quantos grupos há?

Em quatro meses, foram criados grupos em 47 países no mundo.

Qual é vossa proposta? O que querem?

O XR tem três exigências que estão a ser finalizadas e vão ser apresentadas na assembleia geral de dia 6. Declaração de um estado de emergência climático, reconhecendo que um sistema económico de crescimento infinito não é compatível com um sistema terra de limites físicos. Desenho de plano federal de emergência para fazer face a esta crise, que pense para lá do crescimento económico e que inclua a renovação de um plano de educação nacional em torno de qualificações novas e de uma nova relação com a natureza. E a instituição de assembleias cidadãs que tenham o mesmo poder de intervenção para esse plano de emergência nacional e, ao mesmo tempo, de supervisão de implementação. E no desenho desse plano banir totalmente os lobbies corporativos.

Os XR pedem uma revolução e uma utopia. Um mundo completamente diferente do que o que existe?

Queremos uma revolução contra a utopia que existe hoje. Porque isto é que não é normal. A maneira como vivemos hoje, faraónica e insustentável, está a destruir a vida na Terra. Voamos para todos os sítios, usamos plástico sem fim, comemos comida vinda de todo o mundo e vestimos imensa roupa nova. Temos que voltar ao ‘modo de sobrevivência’.

Que mundo seria possível?

O XR está a lutar contra o sistema atual de extração, produção e degradação que se baseia em crescimento infindável, podemos chamar-lhe capitalismo. A infindável acumulação de capital obriga à contínua exploração de recursos e leva à completa degradação ambiental. Lutamos contra isto, mas não estamos a dizer como viveremos depois. Não existe um nome, ou doutrina. Eu por exemplo não sou um comunista. O que é certo é que vivemos em crescimento económico permanente. Temos que parar isso. Como vamos fazer? Há toneladas de ideias. Como sociedade temos que criar incentivos para o decrescimento e há todo um novo mundo que se abre. A nossa mente está colonizada pelo crescimento do Produto Interno Bruto e pelo crescimento das economias.

Vocês têm filósofos, economistas, cientistas?

Centenas de cientistas assinaram cartas de apoio.

E vão às vossas reuniões?

Normalmente não, mas tivemos o ex vice-presidente do IPCC, Jean-Pascal van Ypersele, na nossa primeira formação. É a maior autoridade em clima na Bélgica.

O que acham da acção do António Guterres?

A ONU não tem muito poder. Ele anda a pedir, mas não tem meios para propor medidas radicais ou concretas. A tónica é muito no ‘crescimento verde’. Todas as propostas de mudar para uma economia verde esquecem que para isso será preciso extrair uma quantidade enorme de matérias primas, produzi-las e transportá-las, e com recurso à energia fóssil, para criar a infraestrutura da economia verde. Nós precisamos de energias renováveis mas para suportar o decrescimento urgente. Para garantir que as pessoas tenham vidas confortáveis com muito menos destruição ambiental. Sem decrescimento não vamos atingir a meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus e evitar o caos climático e um futuro devastador.

Há pessoas que apelam a que os consumidores se tornem vegan ou deixem de usar carro.

Isso é passar a responsabilidade para o indivíduo e não é justo. Se tu fores vegan, podes ficar com a consciência tranquila e dormir melhor, mas como solução não chega porque a pessoa ao teu lado não. E a indústria da carne continua a crescer. Isso é deslocar o fardo do sistema político, que não faz nada, para o indivíduo e dizer é culpa tua. Há toda uma indústria super subsidiada para que tu comas carne e andes de carro e andes de avião. Carne é bom, eu adoro carne, não gosto é de comer carne produzida industrialmente, enoja-me quando vou ao supermercado e não quero participar nisto. O poder das pessoas tem que passar a ser como cidadãos e não como consumidores, nós estivemos muito tempo a pensar que só podíamos fazer escolhas como consumidores. Não é verdade. Temos que voltar a este conceito. Ser vegan pode não mudar muito, mas se te juntares a grupos de pressão e a ativistas, aí podes estar a pressionar para haver uma mudança.

Quando acordou para a existência desta crise? Como é que isto o afeta pessoalmente?

Com o livro do Pablo Servigne, “Comment tout peut s’effondrer”, que li no princípio de 2018. Eu já tinha bastante noção, mas só percebi a escala da destruição global nesta altura. O livro liga tudo. E percebes a fragilidade dos ecossistemas e como não há maneira nenhuma de um sistema de destruição como o que criámos seja compatível com a vida na Terra. Primeiro fui abaixo. Primeiro, acabaram todas as projeções de futuro e a maneira como vês o mundo. Os planos que tens. Quando a noção de que estamos inexoravelmente a caminho da extinção bate, bate imenso. Percebo que a maneira como vivi e a maneira como eu penso que vou viver vai ser muito diferente. É como perder alguém. É um luto. Tens alturas de grande tristeza, de grande ansiedade, meti baixa com eco-ansiedade, que é uma coisa que existe. E depois, demora o tempo que demora a cada pessoa. Depois de fazeres paz com isso decides o que fazer. Após semanas sem dormir bem percebi que se é isto o que vai acontecer vou ter que lidar. Daqui até aqui vou-me bater e depois quando achar que já não há nada a fazer, se calhar irei para o campo e organizar-me da maneira como achar que há hipótese de sobreviver.

Já tinha formação em Ecologia?

Não. Tenho formação em Direito e Ciências Políticas. Mestrado em Relações Internacionais. Sempre olhei muito para o sul global e para o desenvolvimento sustentável. Mas às tantas o desenvolvimento sustentável a ser apoiado pelas grandes máquinas capitalistas do mundo e as revoluções verdes com grandes monoculturas em África e nas Índias, com grandes taxas de suicídio entre os agricultores, não me pareceu sustentável de todo.

E trabalhas em que área?

Trabalho para uma consultora que é cliente da Comissão Europeia. Gestão de conhecimento, gestão de redes, estudos. Na verdade trabalhamos para dinheiro, não interessa muito bem a área nem o quê. São consultores com grande capacidade de adaptação.

Então se calhar até já trabalhaste com uma petrolífera.

Não. Mas houve um projeto de cerca de um milhão de euros para trabalhar com as indústrias automobilísticas e eu fiz uma objeção de consciência dentro da empresa. Não queria, já estou nas minhas contradições a trabalhar para grandes máquinas como a Comissão Europeia. Estava fora do meu limite colaborar num projeto para voltar a atrair a juventude europeia em direção às indústrias automóveis. Foi um bocado puxado, porque objeção de consciência numa empresa não acontece muito… Começou por aí, e depois foi acumulando. E tive grandes problemas de eco-ansiedade e tive que meter baixa. E expliquei porque parava. Fiz uma apresentação na minha empresa a falar de colapso e de decrescimento económico. E depois tivemos um evento grande no final de fevereiro onde tínhamos metido muita energia e toda a equipa estava dependente de aquilo se passar bem para continuar a ter empregos. Até lá não tivemos grandes discussões, mas depois com a minha equipa tive uma longa conversa a explicar porque ia meter nova baixa. Foi super interessante. Uma semana depois a minha superior telefonou-me e disse que andava a pensar no que eu disse e acabou por sair. No dia a seguir à conversa que tivemos nesse evento encontrei um oficial da Comissão Europeia, que trabalhara no nosso projeto. Tivemos uma grande conversa a voltar para casa e ele acabou por se juntar ao Extinction Rebellion. Portanto, mesmo pessoas em altos cargos estão a aderir à nossa mensagem.

Neste momento, o facto de trabalhar em campos opostos está a ser demasiado insuportável de gerir?

Sim. E também porque estou no centro de diferentes organizações. Além do XR, faço o WeBrussels, que é um projeto de democracia profunda, ajudo no Ágora, que é um projeto político em Bruxelas para concorrer às eleições regionais com assembleias populares de cidadãos, paralelas ao parlamento. com cidadãos tirados à sorte. É uma experimentação política. E estamos a criar uma fundação de alocação de fundos coletivamente, independente do financiamento de multinacionais e famílias ricas.

Como reagem as pessoas à sua volta ao seu envolvimento no XR?

Afeta-as muito, de forma positiva. Eu tenho um emprego bem pago, tenho 34 anos para que me estou a chatear? E aí as pessoas percebem a seriedade com que os militantes no XR levam a crise sem precedentes que vivemos.

Telma Miguel

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