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Água não-potável de Gaza está a 'envenenar lentamente' os palestinianos
Mundo 4 min. 13.10.2021
Palestina

Água não-potável de Gaza está a 'envenenar lentamente' os palestinianos

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Água não-potável de Gaza está a 'envenenar lentamente' os palestinianos

Foto: Mohammed Talatene/dpa
Mundo 4 min. 13.10.2021
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Água não-potável de Gaza está a 'envenenar lentamente' os palestinianos

Pelo menos 97% da água de Gaza não é potável, de acordo com uma declaração conjunta emitida pelo Monitor dos Direitos Humanos do Euromediterrâneo e pelo Instituto Global da Água, Ambiente e Saúde (GIWEH).

As organizações de direitos humanos alertaram durante anos para a deterioração da situação da água na Faixa de Gaza, que piorou de forma substancial desde os ataques de Israel em maio. A crise da água na Faixa de Gaza afeta cada um dos dois milhões de habitantes do enclave costeiro, noticiou a Aljazeera. 

Neste momento, em Gaza, grande parte da população vê-se obrigada a recorrer à compra da sua água potável a fornecedores privados, uma vez que a água da torneira municipal muitas vezes não funciona devido a longos cortes de energia, e é normalmente demasiado salgada para beber, mesmo quando funciona. 

Os recursos hídricos fortemente poluídos na faixa têm também um sério impacto na saúde pública, com as crianças, em particular, a enfrentarem o risco de doenças transmitidas pela água. 


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Na 48ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, na passada segunda-feira, o Instituto Global para a Água, Ambiente e Saúde e o Monitor dos Direitos Humanos do Euromediterrâneo disseram que a água em Gaza é "imbebível" e "envenena lentamente" as pessoas.

 "O bloqueio israelita a longo prazo causou uma grave deterioração da segurança da água em Gaza, fazendo com que 97% da água esteja contaminada", disse uma declaração conjunta. "Os residentes do enclave sitiado são obrigados a testemunhar o lento envenenamento dos seus filhos e entes queridos", apontava o documento.

Muhammed Shehada, chefe de comunicações do Monitor Euro-Med, afirmou no seu discurso ao Conselho de Direitos Humanos que cerca de um quarto da propagação de doenças em Gaza é causada pela poluição da água, e 12% das mortes de crianças pequenas estão ligadas a infecções intestinais relacionadas com água contaminada. 

Acrescentou que a ofensiva israelita de 11 dias em Gaza no passado mês de Maio afectou gravemente as infra-estruturas básicas de água e exacerbou a crise no enclave sitiado. As autoridades municipais de Gaza afirmaram numa declaração que 290 instalações de abastecimento de água, incluindo a única fábrica de dessalinização no norte de Gaza, foram danificadas durante o ataque e necessitam de reparação urgente. 

As redes de esgotos também foram destruídas, inundando as ruas com água suja. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), tanto a salinidade como os níveis de nitratos nas águas subterrâneas de Gaza têm estado "bem acima" das directrizes para água potável segura. Cerca de 50 por cento das crianças de Gaza sofrem de infecções relacionadas com a água, disse a OMS.

A crise agravou-se durante as últimas décadas devido ao bloqueio israelita punitivo, à redução do financiamento humanitário, e à série de ataques militares israelitas. Falesteen Abdelkarim, 36 anos, do campo de refugiados de Al-Shati, disse à Al Jazeera que a água na sua área é "imbebível". "Sabe como se viesse do mar. Não podemos usá-la para beber, cozinhar ou mesmo para tomar banho", disse. Segundo a residente, os palestinianos que vivem em Gaza só têm acesso à água municipal três vezes por semana, e por vezes, esta vem "misturada com esgotos", porque as infra-estruturas em falta nos campos de refugiados não a conseguem tratar adequadamente. 


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"A vida nos campos de refugiados é miserável". Compramos sempre água potável aos vendedores", disse Abdelkarim, uma mãe de cinco filhos. 

Muitos vendedores privados em Gaza dessalinizam a água e vendem-na às pessoas na faixa. O custo médio é de 30 shekels (seis euros) por 1.000 litros de água. 

A reportagem da Aljazeera amplificou a voz de vários habitantes cujos desafios são permanentes. Como Muhammad Saleem, de 40 anos, morador do bairro Al-Sheikh Redwan no norte de Gaza, que partilhou que os esforços para cultivar um jardim na sua casa tinham falhado porque a água estava demasiado poluída. "Todas as minhas plantas secaram e morreram devido à elevada salinidade da água e ao elevado teor de cloreto", disse ele à Al Jazeera. 

Muhammad acrescentou que tem sido "impossível" durante anos para ele e a sua família utilizar a água da torneira municipal para beber, cozinhar, ou qualquer outra necessidade. "Se as plantas morreram por causa desta água, o que fará ela com o corpo das pessoas?", questionou.

A crise aguda da eletricidade também dificulta o funcionamento dos poços de água e das estações de tratamento de esgotos, levando a que 80% dos esgotos não tratados de Gaza sejam descarregados no mar, enquanto 20% se infiltra no subsolo, de acordo com a declaração. 

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