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Grande Este. “Casos de internamento devem começar a diminuir para a semana”
Mundo 8 7 min. 05.04.2020 Do nosso arquivo online

Grande Este. “Casos de internamento devem começar a diminuir para a semana”

Grande Este. “Casos de internamento devem começar a diminuir para a semana”

Foto: AFP
Mundo 8 7 min. 05.04.2020 Do nosso arquivo online

Grande Este. “Casos de internamento devem começar a diminuir para a semana”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O médico sindicalista da CGT e uma enfermeira desta região francesa relatam ao Contacto a “situação limite” que se vive nos hospitais que não irá passar mesmo que as hospitalizações comecem a decrescer, como esperam.

O Grande Este já deixou de liderar a tabela mais trágica de França, o do número de infeções, sendo ultrapassado pela Île-de-France, mas a situação nos hospitais continua “catastrófica”, “sem camas para internar mais casos graves, com falta de pessoal de saúde, de medicamentos e com o material de proteção nos mínimos”

A descrição foi feita ao Contacto pelo médico urgentista Christhope Prudhomme, porta-voz da Associação de Médicos Urgentistas de França (AMUF) e delegado nacional da CGT, e que nos últimos dias tem sido das vozes mais críticas neste país.

“Estamos no limite. Lidamos com esta crise na penúria. Todos os dias lutamos pela falta de condições hospitalares. E no Grande Este, sobretudo, a situação é catastrófica porque já antes da pandemia os hospitais, como o de Mulhouse já não tinham condições para internar os doentes com infeções respiratórias nos cuidados intensivos”, alerta Christophe Prudhomme, médico das urgências no Samu 93, na região de Paris.


Covid-19. Quatro portugueses infetados num jantar de família em Metz
Uma das familiares doentes contou ao Contacto como os primeiros dias da doença "foram muito duros". Há 15 dias que estão de quarentena em casa, depois de uma reunião entre pais e filhas antes do confinamento.

Em novembro passado, recorda o responsável da AMUF, os médicos das urgências em Mulhouse já tinham manifestado a falta de condições, entraram em greve e chegaram a falar em demitir-se, “por não conseguirem tratar em segurança todos os doentes”, sobretudo aqueles que necessitavam de reanimação.

“Já tínhamos avisado que se houvesse um problema grave os hospitais do Grande Este não conseguiriam dar resposta”, recordou.

Mais de 1400 mortes no Grande Este

 “4702 doentes hospitalizados, dos quais 960 em reanimação e 1402 mortes nos hospitais”, estes são os últimos números da “tragédia” no Grande Este, de um de abril. Em pior situação está a Île-de-France com 11214 internamentos, 2436 nos cuidados intensivos, e 1967 mortes. 

“Os médicos e profissionais de saúde estão a fazer tudo o que podem para minorar a gravidade da situação em França, nomeadamente no Grande Este. Todos os dias são de batalha diária. Como não há camas os doentes estão a ser transferidos para os hospitais de outras regiões francesas menos afetadas e ainda para o Luxemburgo, Alemanha e Bélgica”, explica Prudhomme. Graças a esta solidariedade entre países, já houve perto de 100 doentes transferidos, 11 dos quais de helicóptero para os hospitais do Luxemburgo.

Ontem, outros 18 doentes desta região foram transferidos para a região francesa da Occitânia.

Pico da pandemia a "aplanar"

Contudo, este urgentista estima que o pico da epidemia esteja já a aplanar: “Nos últimos dias têm havido menos doentes a precisar de internamento e se as estimativas se confirmarem na próxima semana, o número de infetados graves a necessitar de cuidados intensivos deverá começar a diminuir”. Pelo menos no Grande Este, que já no dia um de abril.

Mesmo assim, no Grande Este, a um de abril já tinham sido registadas menos 10 hospitalizações, que não irão aliviar os serviços hospitalares, mas que deixam antever uma melhoria.

“Os números deste fim de semana é que irão confirmar esta tendência de diminuição do número de doentes internados nos cuidados intensivos”, aponta Prudhomme.


Doentes de Metz transferidos de helicóptero para hospitais alemães
A cidade francesa da região do Grand Est é um dos principais centros da epidemia no país.

Falta de camas na reanimação

Contudo, mesmo com a diminuição de casos, os hospitais vão continuar a lutar com dificuldades, pois os doentes graves vão continuar a chegar e as camas estão todas ocupadas. “Só na île-de-France precisamos de 150 camas diárias na reanimação”, alerta. A solução é continuar a transferir os doentes.

Este urgentista que desde o início da crise tem trabalhado horas infindáveis por dia acusa o governo deste desespero hospitalar.

“Nos últimos 15 a 20 anos, foram eliminadas em França perto de 100 mil camas nas unidades de reanimação, por isso, partimos sem condições para esta ‘guerra’”. E faz a comparação com Alemanha, que faz fronteira com o Grande Este.

"Existem duas vezes mais leitos de reanimação disponíveis na Alemanha do que na França, em comparação com a população. Se tivéssemos ido a batalha com o mesmo número de camas que a Alemanha, 10.000, teria sido mais fácil passar para 15.000 do que apenas 5.000 ", vinca.

"Precisamos de 2 milhões de máscaras por dia"

E nem os dois milhões de máscaras de proteção que chegaram à região do Grande Este, na sexta-feira, vindas da China não são suficientes para o pessoal hospitalar.

“Precisamos de dois milhões de máscaras por dia em França, 40 milhões por semana, essa é a realidade”, declara Christophe Prudhomme que se tem desdobrado em entrevistas à TF1, France 2, BFM TV, CNews e France 5.

Palavras que parecem ter chegado ao executivo de Macron. Desde ontem que as autoridades de saúde do Grande Este possuem uma nova plataforma online onde comunicam quais os profissionais de saúde em falta crítica nos hospitais desta região, pedindo a voluntários para se inscreverem e poderem reforçar o pessoal hospitalar.

Uma enfermeira da região de Metz que convive diariamente com a sobrelotação dos cuidados intensivos, confirma as palavras de Christophe Prudhomme.


Grand Est. Hospitais lotados e com falta de camas para doentes com coronavírus
Esta região francesa regista 1378 casos e 21 mortes. Médicos e autoridades alertam para "situação grave" das unidades públicas e para a falta de profissionais de saúde para atender tantos doentes.

 No hospital onde trabalha, as camas dos serviços de reanimação, para os doentes mais graves, que necessitam de assistência respiratória estão sempre cheias. “O hospital já teve de adaptar outro serviço para acolher estes doentes, mas todos os dias chegam novos casos de situações críticas que necessitam de ventiladores”, conta esta profissional que pediu o anonimato.

Testes de despistagem em falta

Porém ainda nunca faltou neste serviço do seu hospital material de proteção para os profissionais de saúde. “Todos temos máscaras, luvas e equipamento para prevenir o contágio”, diz.

Já os testes de despistagem é que são poupados. Na equipa desta enfermeira já houve três casos de colegas seus contaminados. Mesmo assim, quem como ela esteve em contacto com estes doentes “só é submetido ao teste se tiver sintomas”.

A maioria dos doentes internados nos cuidados intensivos são pessoas de idade e “quase todas com outras doenças, como diabéticos, problemas cardíacos ou pulmonares” que as tornam mais vulneráveis à doença, relata esta enfermeira. E até à data, os portugueses tem conseguido manter-se afastados dos cuidados intensivos do hospital onde trabalha. “Só houve dois ou três portugueses internados e apresentavam um quadro clínico de outras doenças”.

Confinamento até ao final de Maio

Questionada sobre se tem receio ou medo de ser contaminada pois está na linha da frente da batalha contra a pandemia, esta profissional de saúde é clara: “Não tenho medo. Sou enfermeira e este é o meu trabalho, além de que me sinto mais protegida contra o vírus no meu local de trabalho, onde uso todo o equipamento de proteção, do que fora dele. Tenho uma maior probabilidade de ser contaminada na rua”.

E acrescenta: “Os meus três colegas infetados ficaram doentes depois de decretado o confinamento aqui em França e eu acredito que eles foram contaminados não no hospital, mas fora do seu local de trabalho”.

Atualmente, França estará já no pico da epidemia que “deve durar até hoje, dia 5 de abril”, de acordo com a previsão da evolução da doença. “Mas,  como se trata de previsões matemáticas só depois poderemos confirmar se o pico já chegou e os casos de infeção estão a diminuir ou não”.


Americanos "desviam" máscaras com destino ao Grand Est
Corrida ao material de proteção individual, maioritariamente fabricado na China, está a criar uma espécie de "faroeste", com encomendas a serem redireccionadas para os que pagam mais.

 “Até ao final de maio o país deverá vai viver nesta situação de crise sanitária e até lá deverão ser mantidas todas as restrições e o confinamento”. No fim deixa um apelo: “Por favor, fiquem em casa, em confinamento, mantenham as distâncias sociais quando precisarem de sair à rua. O isolamento social é a melhor forma de prevenir a propagação do coronavírus”. 

 No total, a França atingiu as 7560 mortes provocadas pelo novo coronavírus, a 4 de abril, mais 1053 do que no dia anterior. Destas 5532 dizem respeito a pacientes que faleceram nos hospitais. Atualmente, 28143 pessoas estão hospitalizadas, 6838 em reanimação.  A França conta com 89953 casos de infeção desde o início da pandemia no país, destes 15438 doentes foram tratados com sucesso.

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