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Governante de Salazar não votou em Bolsonaro por temer pela vida da filha e da neta
Mundo 5 min. 29.10.2018 Do nosso arquivo online

Governante de Salazar não votou em Bolsonaro por temer pela vida da filha e da neta

Governante de Salazar não votou em Bolsonaro por temer pela vida da filha e da neta

Foto: Daniel Ramalho/AFP
Mundo 5 min. 29.10.2018 Do nosso arquivo online

Governante de Salazar não votou em Bolsonaro por temer pela vida da filha e da neta

Os brasileiros elegeram o seu próximo Presidente da República, Jair Bolsonaro, numa disputa entre a esquerda com Fernando Haddad e a extrema-direita com Jair Bolsonaro. Uma votação que dividiu famílias portuguesas no Brasil, como a de Inês Patrício e a do seu pai, Rui Patrício, último ministro dos Negócios Estrangeiros português do regime fascista, que entrou para o governo pelas mãos de Salazar.

A polarização política no Brasil está a partir ideologicamente a sociedade e as famílias, como é o caso da do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo Rui Patrício, em que as gerações se dividem entre Haddad e Bolsonaro.

Inês Patrício discorda do posicionamento político do seu pai e último ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Patrício, nas eleições que opuseram o candidato do PT ao da extrema-direita que foi eleito no passado domingo.

A professora universitária, que aos 18 anos se mudou para o Brasil com a sua família, tem tido um papel ativo na campanha por Fernando Haddad, pois vê nele a possibilidade de o país enveredar pelo caminho da educação, como forma de diminuir as desigualdades sociais no Brasil.

"Como professora de uma universidade pública, tenho vindo a acompanhar, desde 2003, o trabalho que o Partido dos Trabalhadores (PT) tem feito junto das universidades públicas. Além da abertura de vagas universitárias, que foi monumental, tivemos também concursos públicos e muito investimento em pesquisa. Na sua maioria, os professores universitários estão a apoiar o Haddad por uma questão de gratidão pelo trabalho desenvolvido", afirmou Inês Patrício, em entrevista à agência Lusa.

Porém, Inês tem visto com alguma revolta o avanço do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, nas intenções de voto dos brasileiros e acredita que esse facto de deveu à desvalorização da possibilidade de um candidato fascista se eleger.

"O erro foi, tanto da esquerda, como do centro, como da direita, de não se terem conseguido contrapor a um candidato que representa tudo aquilo que há de mais horrível na sociedade brasileira, como a ditadura militar, que esteve cerca de 30 anos no poder", disse.

A professora de Economia diz-se chocada com determinadas declarações fascistas, racistas e homofóbicas proferidas por Jair Bolsonaro e lamenta que grande parte da população do Brasil concorde com elas.

"Vamos ser realistas, há uma grande parte da população brasileira que realmente concorda com o candidato. Ele está apenas a catapultar essas reações 'anti-gay', 'anti-esquerda', 'anti-PT'. Ele representa essas forças que estavam já presentes na sociedade e que a direita não conseguiu organizar. O ideal seria que o conservadorismo fluísse por vias democráticas, como acontece em Portugal, onde ninguém põe a hipótese de uma nazista ser eleito", declarou.

Porém, o candidato que Inês tanto abomina é o mesmo candidato que o seu pai, Rui Patrício, apoia e em quem disse ir votar na segunda volta das eleições.

Rui Patrício, o último ministro dos Negócios Estrangeiros do regime fascista, o chamado Estado Novo, vive no Rio de Janeiro há mais de 40 anos e foi essa a cidade que escolheu como local de exílio depois da Revolução do 25 de Abril.

Apesar de na primeira volta ter Geraldo Alckmin como candidato de eleição, o último ministro dos Negócios Estrangeiros da ditadura garantiu que Bolsonaro é o candidato que apoiaria na segunda volta.

"Eu não estive aqui (no Brasil) por isso não votei na primeira volta, onde votaria Alckmin, mas na segunda volta, entre estes dois (Bolsonaro e Haddad), votarei no Bolsonaro", assumiu.

No entanto, seja qual for o candidato que vença a corrida presidencial, Rui Patrício defende que só quer que o Brasil retome a ordem e o progresso.

"O que eu desejo é que o Brasil encontre um rumo adequado com qualquer que seja o candidato que vença. Espero que consiga reencontrar o equilíbrio das finanças públicas, que retome o desenvolvimento económico e que consiga resolver os problemas fundamentais do Brasil. É só esse o meu desejo", afirmou à agência Lusa.

Porém, as diferenças ideológicas não se ficam apenas por estas duas gerações da família Patrício. Também a neta daquele que foi subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino de Oliveira Salazar, Mariana Patrício, opõe-se profundamente ao candidato apoiado pelo seu avô.

Feminista assumida, Mariana tem sido uma voz ativa no protesto contra a desigualdade de género e, em entrevista à Agência Lusa, a lusodescendente afirma que as mulheres continuam a ser o segmento populacional mais prejudicado da sociedade brasileira.

"Com esta possível eleição de Bolsonaro, a tendência é para piorar. Uma das maiores pautas da campanha de Jair Bolsonaro é ser contra as feministas, onde diz que elas são sujas, são feias. Mas considero isso como uma reação aos avanços que a luta das mulheres tem tido no Brasil", disse.

Também as políticas económicas defendidas pelo candidato da extrema-direita preocupam a ativista, que, mais uma vez, defende que serão as mulheres a parcela mais afetada da população.

Bolsonaro "tem um programa económico ultraliberal, onde defende a privatização, nenhum auxílio do Estado, e nisso quem mais se prejudica são as mulheres. Acho que não é à toa, que neste momento de ascensão da extrema-direita conjugado com a crise do capitalismo, que sejam as mulheres do mundo todo que ofereçam uma maior resistência. São elas que têm uma maior consciência daquilo que este movimento produz na nossa vida quotidiana", afirmou.

Tendo uma total aversão pelos ideais defendidos por Jair Bolsonaro, Mariana Patrício seguiu os passos da sua mãe e decidiu fazer campanha pela candidatura de Fernando Haddad, numa tentativa de travar a ascensão da extrema-direita no país que a viu nascer.

"Eu faço campanha pelo Haddad, primeiramente para barrar o Bolsonaro. Se fosse qualquer outro candidato (que disputasse as eleições contra Bolsonaro) eu estaria a fazer campanha por ele, mesmo que fosse um candidato de direita mais moderado. Qualquer um seria melhor que Bolsonaro. Em segundo lugar, acho que o Haddad foi um excelente ministro da Educação e ele tem essa visão da educação como solução para os problemas do país. 'Menos armas e mais livros', que é a proposta dele", defende a jovem que, tal como Fernando Haddad, também é professora.

Num post, de sábado na sua página, do Facebook, Inês Patrício ainda tem esperança numa "virada" nas eleições e fala que o voto do pai se alterou: “Consegui virar o voto do meu pai. Não vai votar. Tem esse direito por conta da idade. Não quer que façam mal a mim e minha filha. Presumo que percebeu que não há humano ser em sã consciência que vote num facínora. E na segunda guerra mundial morou em Vichy. Aos velhos, a memoria da infância é bem próxima”.

Com Lusa (reportagem de Marta Moreira no Brasil).

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