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Golpe de Estado força demissão de Evo Morales na Bolívia
Mundo 4 min. 12.11.2019 Do nosso arquivo online

Golpe de Estado força demissão de Evo Morales na Bolívia

Golpe de Estado força demissão de Evo Morales na Bolívia

Foto: AFP
Mundo 4 min. 12.11.2019 Do nosso arquivo online

Golpe de Estado força demissão de Evo Morales na Bolívia

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
A dois meses de terminar o mandato presidencial, forças armadas obrigaram Evo Morales a renunciar ao cargo e a exilar-se no México.

A capital mais alta do mundo assistiu à deposição no domingo de Evo Morales com as forças armadas bolivianas a obrigar o antigo líder sindical cocalero a demitir-se depois de três semanas de turbulência política e social numa contagem decrescente que começou no dia das eleições presidenciais. Num exílio forçado pelas circunstâncias, Evo Morales aceitou a oferta de asilo do presidente Andrés Manuel López Obrador e voou para o México na terça-feira.

A violência tomou conta do país quando a oposição, encabeçada por Carlos Mesa e Luís Camacho, anunciou que não reconhecia a vitória de Evo Morales com 47% dos votos, o que lhe daria, de acordo com a constituição boliviana, a presidência sem necessidade de uma segunda volta. Morales candidatou-se pela quarta vez à presidência da Bolívia, apesar de os eleitores bolivianos se terem manifestado contra essa intenção num referendo em 2016, decisão revertida no Tribunal Constitucional. A oposição afirma que houve irregularidades na contagem. A Organização de Estados Americanos (OEA) denunciou também irregularidades no apuramento dos resultados e exigiu uma recontagem independente por parte deste organismo. O governo boliviano aceitou uma nova contagem dos votos sempre e quando fosse feita em conjunto com as autoridades daquele país, o que acabou por não ser aceite pela OEA.

A partir daqui, o país incendiou-se como um rastilho que nunca deixou de existir durante os 14 anos que Evo Morales governou um país fortemente polarizado. As casas de vários membros do governo foram incendiadas nos últimos dias e a esperança para Evo Morales acabou quando Williams Kalliman, chefe das forças armadas, e Yuri Calderón, responsável nacional da polícia, pediram a cabeça do presidente boliviano que até tinha acedido às exigências da oposição e da OEA quando anunciou a renovação dos membros do Tribunal Eleitoral e novas eleições presidenciais. Mas a resposta violenta da oposição e a inação das forças armadas acabou por ditar a demissão de vários ministros e de Evo Morales que numa declaração ao país precisou estar a ser vítima de um golpe.

Na terça-feira, milhares de apoiantes do ex-presidente saíram às ruas dispostos a mostrar que não aceitavam a deposição do governo e foram recebidos de forma violenta pelas forças policiais daquele país.

Milagre económico boliviano

Apesar da forte crise que se abateu na América Latina durante os últimos anos, a Bolívia, país rico em petróleo, gás natural e lítio, conseguiu manter elevados níveis de crescimento económico. Em 2017, o FMI atribuia ao planeamento económico a capacidade de investimento faseado. Os sucessivos governos de Evo Morales conseguiram fazer diminuir a pobreza e simultaneamente garantir uma reserva financeira que serviu de almofada nos últimos anos. O elevado investimento público em políticas sociais traduziu-se também em maior dinamismo no mercado interno. A Bolívia que era o país mais desigual da América do Sul passou a figurar nos lugares intermédios das tabelas estatísticas e reduziu a pobreza de 63%, em 2004, para 39%, em 2015, de acordo com a BBC. Em 2014, o salário mínimo tinha já duplicado e o analfabetismo erradicado no país mais indígena do cone sul da América.

Reações internacionais

O secretário-geral das Nações Unidas disse que continua “profundamente preocupado com a situação na Bolívia”. O chefe da ONU pediu ainda para que todas as partes envolvidas cumpram o direito internacional, principalmente os princípios fundamentais dos direitos humanos. O secretário-geral também fez um apelo para que todos os atores se comprometam a alcançar uma solução pacífica para a crise atual e que garantam eleições transparentes e credíveis. Para além de países aliados da Bolívia como a Venezuela, Cuba e Rússia, também o México, habitualmente comedido nas declarações diplomáticas, condenou o que considerou ser um golpe. O governo espanhol não caraterizou o acontecimento como um golpe de Estado mas deixou-o nas entrelinhas. Num comunicado, condenou a ação dos militares e considerou que “esta intervenção nos leva a momentos já passados na história latino-americana”. O líder opositor britânico, Jeremy Corbyn, condenou o “golpe de Estado contra o povo boliviano” e enviou uma mensagem de solidariedade em defesa da “democracia, justiça social e independência”. A alta representante da União Europeia, Federica Mogherini, afirmou que “todas as partes no país devem ter contenção e responsabilidade e devem levar pacífica e tranquilamente o país a umas novas eleições credíveis para que os bolivianos possam expressar a sua vontade democraticamente”. Já Donald Trump considerou que a renúncia de Evo Morales “é um momento importante para a democracia no hemisfério ocidental”. Uma opinião sustentada por Jair Bolsonaro que ironizou e sugeriu o exílio do ex-presidente boliviano em Cuba.

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