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Ex-grupos paramilitares da Irlanda do Norte retiram o seu apoio ao Acordo de Paz
Mundo 5 min. 04.03.2021

Ex-grupos paramilitares da Irlanda do Norte retiram o seu apoio ao Acordo de Paz

Ex-grupos paramilitares da Irlanda do Norte retiram o seu apoio ao Acordo de Paz

Foto: Niall Carson/PA Wire/dpa
Mundo 5 min. 04.03.2021

Ex-grupos paramilitares da Irlanda do Norte retiram o seu apoio ao Acordo de Paz

Cresce o descontentamento dos lealistas, alinhados com Londres, pela manutenção de controlos aduaneiros no Mar da Irlanda.

O conflito na Irlanda do Norte que provocou mais de três mil mortos em três décadas é uma ferida ainda aberta na sociedade. O Acordo de Belfast, conhecido como Acordo da Sexta-feira Santa por ter sido assinado nesse dia em 10 de abril de 1998, pôs fim à guerra entre republicanos, defensores da integração desta região sob administração britânica na República da Irlanda, e os lealistas, alinhados com as posições de Londres. Uma confrontação que foi muitas vezes confundida apenas com uma guerra entre duas facções religiosas, católicos e protestantes, mas que tinha sobretudo o modelo de país como razão do conflito.

O tratado assinado pelas duas partes, com a participação de Londres e Dublin, reconheceu o direito à autodeterminação dos habitantes da Irlanda do Norte e promoveu a configuração de um governo bipartido entre as duas partes na gestão da política norte-irlandesa. A maioria dos grupos armados foi desativada e entregaram as armas, apesar de ainda haver pequenas organizações dissidentes que olham para o acordo como uma traição.


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O Brexit veio destabilizar a situação no norte da ilha e foi mesmo uma das pedras no sapato durante as negociações entre o Reino Unido e a União Europeia. Já com a saída de Londres consumada, o cenário na Irlanda do Norte é cada vez mais complexo. O braço político do Exército Republicano Irlandês (IRA Provisório), o Sinn Féin, foi a força mais votada na República da Irlanda em fevereiro de 2020 e defende a reunificação de toda a ilha num só país. 

Um ex-grupo paramilitar lealista, alinhado com as posições britânicas enviou uma carta na quarta-feira ao primeiro-ministro, Boris Johnson, notícia avançada pelo The Irish News, que é mais um pontapé no ninho de vespas que o Brexit despertou.

David Campbell foi até 2012 presidente do Partido Unionista do Ulster (alinhado com Londres) e um dos negociadores desse partido nas conversações que conduziram ao Acordo de Sexta-feira Santa. Preside hoje ao Loyalist Communities Council e acaba de anunciar que esta associação, onde se agrupam várias formações unionistas da Irlanda do Norte, "retira o seu apoio ao Acordo de Sexta-feira Santa e às suas instituições até que os direitos contidos nesse acordo sejam restaurados e o Protocolo Irlandês [o documento anexo ao Acordo de Retirada da UE do Reino Unido] seja alterado para garantir a circulação sem restrições de bens, serviços e cidadãos em todo o Reino Unido.


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Um porta-voz do mais importante grupo de dissidentes do IRA declarou numa entrevista que qualquer infraestrutura fronteiriça entre a República da Irlanda e o norte da ilha, sob jurisdição britânica, seria "alvo legítimo para atacar".

Em outubro de 2019, em plenas negociações do Brexit, um porta-voz do mais importante grupo de dissidentes republicanos do IRA - Novo IRA - declarou numa entrevista que qualquer infraestrutura fronteiriça entre a República da Irlanda e o norte da ilha, sob jurisdição britânica, seria "alvo legítimo para atacar".

Agora a tensão ressuscitada na Irlanda do Norte parece satisfazer as intenções de Londres. Os partidos lealistas que já gozam de respeitabilidade institucional apelam oficialmente a uma revisão completa do Protocolo Irlandês e o Governo de Boris Johnson está a anunciar unilateralmente mudanças sem consultar a UE enquanto grupos paramilitares lealistas estão a encorajar pinturas nas paredes e a sugerir uma campanha de desobediência. Embora digam que é uma manobra "pacífica e democrática", refere a carta. Bruxelas já deixou claro que o que foi assinado não é negociável, embora esteja aberta à procura de soluções flexíveis no âmbito do Comité Conjunto que supervisiona o Acordo de Retirada do Reino Unido da UE.

Johnson concordou em assinar o Protocolo Irlandês como a única forma de avançar com o tão ansiado Brexit por Londres. Afirma que a Irlanda do Norte continuará a fazer parte do mercado interno e da área aduaneira da UE a longo prazo. Era a forma de evitar uma nova fronteira entre as duas Irlandas, que ressuscitaria fantasmas de divisão e poria em perigo a paz alcançada em 1998. Desde então, a fronteira entre republicanos e lealistas tem sido invisível e, na vida prática do dia-a-dia, a Irlanda é apenas uma. O novo mecanismo envolve controlos aduaneiros e sanitários dos bens e serviços que atravessam o Mar da Irlanda. Ou seja, como se a Irlanda do Norte fizesse parte da UE aproximando-a da República da Irlanda, e os lealistas, com um sentido de pertença britânica sentem-se traídos. 

O governo britânico ainda não deu um passo, mas pode usar este mal-estar para reforçar o seu último passo. O ministro para a Irlanda do Norte, Brandon Lewis, anunciou na quarta-feira, na Câmara dos Comuns, que Downing Street prolongaria até outubro o "período de graça" acordado com Bruxelas (previsto até abril), segundo o qual os controlos aduaneiros e sanitários não seriam efetuados até que as empresas afetadas ajustassem o seu funcionamento à nova regra. 

A resposta da Comissão Europeia (CE) e também do Governo de Dublin não tardaram a chegar. Maros Sefcovic, vice-presidente da CE expressou o seu protesto por telefone a David Frost, representante de Boris Johnson que negociou o acordo comercial com Bruxelas e que hoje lidera todos os assuntos relacionados com o Brexit. "A decisão unilateral tomada pelo Governo britânico viola cláusulas importantes do Protocolo Irlandês e a obrigação de boa fé do acordo de retirada. É a segunda vez que o Reino Unido incumpre a lei internacional".

Downing Street foi forçada a recuar depois de Bruxelas ter lançado uma resposta legal. A mesmo que ameaça empreender agora, face ao novo movimento de Londres. O primeiro-ministro da República da Irlanda, Michaél Martin, e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Simon Coveney, também transmitiram a Frost o seu desconforto e desapontamento por uma manobra "extremamente inútil".

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