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EUA. Um país parado por causa de um muro
Mundo 7 min. 16.01.2019

EUA. Um país parado por causa de um muro

EUA. Um país parado por causa de um muro

AFP
Mundo 7 min. 16.01.2019

EUA. Um país parado por causa de um muro

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Donald Trump ameaça declarar estado de emergência se o Congresso não lhe der cinco mil milhões de euros para começar a construir um muro na fronteira do México. Para já, para fazer face à falta dos cozinheiros, o locatário da Casa Branca encomendou 1000 hambúrgueres.

A localidade de Clarsburg, no Estado da Virgínia Ocidental, conta com 16 mil habitantes. Aqui a taxa de pobreza é superior à média dos EUA. A desindustrialização levou que há muito os operários e os mineiros fossem substituídos pelos funcionários públicos. Nas redondezas trabalham 2.500 agentes do FBI, há um departamento do Ministério da Agricultura e 400 trabalhadores de uma dependência da NASA. Muitos deles deixaram de receber salário, desde o dia 22 de dezembro. O comércio da terra já se vai ressentindo – que o diga a presidente da câmara da localidade, dona de um restaurante e de uma loja de roupa: “Em caso de crise é sabido que as pessoas cortam primeiro nos divertimentos e naquilo que é supérfluo”, queixou-se aos jornalistas do Le Monde.

Apesar de este ser um Estado em que Trump ganhou com 68,50% dos votos, os efeitos do shutdown podem vir a provocar um terramoto político: “É necessário encontrar uma solução, insistir neste conflito vai fazer perder votos a Trump”, garante a presidente da câmara, Cathy Goings de seu nome.

O encerramento do governo, o chamado shutdown, começou no dia 21 de dezembro à meia noite, depois de republicanos e democratas não terem chegado a acordo no Congresso para financiar o muro que Donald Trump quer construir na fronteira com o México. Donald Trump exige que o Congresso lhe dê 5,7 mil milhões de dólares (cinco mil milhões de euros) para esse fim. Ameaça prolongar o shutdown até o conseguir, ou mesmo declarar o estado de exceção para colocar os militares a construir o seu muro, utilizando poderes especiais para ultrapassar o bloqueio do Congresso. “Posso manter o encerramento meses e até anos”, declarou o Presidente dos EUA em 14 de janeiro. Para já, este encerramento de governo é o mais longo dos 21 que se verificaram nos últimos 40 anos.

O braço de ferro entre a Administração Trump e a oposição não parece que se resolva tão cedo. Os democratas dominam a Câmara dos Representantes e, mesmo no Senado, Trump precisa de uma maioria qualificada que não tem para fazer passar a sua proposta: os republicanos precisam de uma maioria de 60 senadores, e contam apenas com 51 em 100.

A Casa Branca está a estudar a possibilidade de desviar, para a construção do muro, parte dos 13.900 milhões de dólares orçamentados para o combate a intempéries e catástrofes naturais e que estavam destinados a ser gastos para compensar as perdas nos furacões e incêndios que tiveram lugar no ano passado em Porto Rico, Califórnia, Carolina do Norte e Florida. Para isso teria declarar um estado de Emergência Nacional que será contestado pelos democratas, no que promete ser uma longa batalha nos tribunais.

Esta declaração de emergência tem até oposição de eleitos republicanos por temerem que o Presidente seja derrotado nos tribunais. O senador Ron Johnson, presidente do Comité de Segurança Nacional, declarou à CNN que “odiaria” que Trump recorresse a esse expediente. “Se isso se fizesse, o caso acabaria em Tribunal e o muro deixará de ser construído”, disse.

Segundo uma sondagem publicada no fim de semana passado pelo Washington Post e pela estação televisiva ABC News, 53% dos norte-americanos responsabilizam Donald Trump pelo impasse a que se chegou, contra 29% que atribui as culpas aos democratas.

Cerca de 800 mil funcionários públicos estão sem receber; destes, 420 mil foram declarados essenciais e estão a trabalhar sem receber, como os trabalhadores dos aeroportos ou a guarda fronteiriça; os outros 380 mil foram enviados para casa sem receberem os seus ordenados.

Os trabalhadores afetados vivem grandes dificuldades, uma vez que já devem cerca de 249 milhões de euros dos pagamentos mensais das suas habitações.

Um impacto social que vai afectar ainda mais gente se o shutdown persistir, segundo um estudo recente da Reserva Federal: quatro em cada dez pessoas não têm capacidade financeira de fazer face a uma despesa não prevista de 400 dólares, e um em cada cinco não consegue normalmente pagar todas as suas faturas mensais.

Os departamentos mais afetados pelo encerramento são Agricultura (40%), Comércio (87%), Segurança Nacional (13%), Habitação e Planeamento Urbano (95%), Interior (78%), Justiça (17%), Transportes (34%), Meio Ambiente (95%) e Finanças (83%).

Mais de 40 mil guardas prisionais foram requisitados para trabalhar, mas com a falta de pagamento o absentismo aumenta, o que coloca graves problemas de segurança.

Perante isso, a liderança democrata da Câmara dos Representantes promete votar leis que permitan contornar o shutdown e financiar certos setores da administração dos EUA: “Vamos votar rapidamente o retomar das atividades do Estado e vamos demonstrar que os democratas vão governar de uma forma responsável, ao contrário da Casa Branca, em que reina o caos”, declarou em comunicado a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi.

Para já, os deputados e os senadores aprovaram, por larga maioria, uma lei que prevê o pagamento retroativo, quando acabar o shutdown, dos salários em dívida aos funcionários públicos.

A história de um muro

Quando, a 16 de junho de 2015, Donald Trump lança a sua candidatura às primárias republicanas no átrio da torre em Manhattan que leve o seu nome, parte do seu discurso vai fazer da imigração um alvo e da segurança, obtida pela construção de um muro, uma promessa: “Quando o México envia gente, não envia os melhores (…) envia gente com muitos problemas que os trazem consigo. Trazem a droga, o crime e a violação”; para responder a tudo isso, o candidato promete erigir uma panaceia para todos esses males “Vou construir um muro. Ninguém constrói muros melhores do que eu, acreditem-me. E vou construí-lo por muito bom preço, vou construir esse muro na fronteira e vai ser o México que vai pagá-lo”, prometeu o candidato.

Imediatamente depois de eleito, Trump emitiu uma ordem presidencial para proceder de imediato aos trabalhos para a construção deste muro que teria mais de 1.609 quilómetros. Meses depois, um documento interno da Administração revelava que o custo da construção desta obra, que duraria três anos, seria superior a 21 mil milhões de dólares, sem contar com as despesas de manutenção e de vigilância. Como seria de prever, o México recusou sempre gastar um único peso que seja nessa obra. Apesar das muitas ameaças de Donald Trump.

A impotência e a inação presidencial nessa matéria têm sido compensadas pelo número de vezes que o ocupante da Casa Branca anuncia a sua construção próxima: 217 vezes, segundo o site Fact Base, e dos dilúvios de argumentação apocalíptica que junta à argumentação para a necessidade premente de o construir. Segundo Donald Trump, os EUA estariam a viver uma verdadeira invasão, com “milhares de imigrantes detidos por dia” pela guarda fronteiriça. Não só o número está errado – em 2018 foram detidas cerca de 396.596 pessoas, cerca de 1.087 por dia, segundo dados oficiais – , como este número está a baixar: no ano 2000, esse número de imigrantes ilegais detidos ultrapassava um milhão de pessoas.

Outro argumento do locatário da Casa Branca é que “todos os norte-americanos são penalizados pela imigração ilegal incontrolada”. A realidade é um pouco diferente: o número de ilegais baixou de cerca de 12, 2 milhões em 2000 para 10,7 milhões em 2017, e segundo um estudo do Institute on Taxation & Economic Policy, os imigrantes ilegais contribuem com 8,6% das receitas fiscais.

Finalmente, Trump tem argumentado com o aumento da criminalidade, das violações e do tráfico de droga que acarretariam o afluxo de imigrantes ilegais. Isto apesar de as estatísticas demonstrarem que os imigrantes, tanto os legais como os ilegais, estão menos presentes nos tribunais do que os nacionais dos EUA. Em relação à droga, o Presidente norte-americano garante que o novo muro impediria a entrada de drogas que mataram, só em 2017, 15.842 pessoas nos EUA. É verdade que, segundo a DEA (polícia que combate a droga), 86% da heroína consumida nos EUA chega do México, mas as autoridades também dizem que a esmagadora maioria da droga traficada entra por pontos legais de passagem da fronteira para os quais o muro não alteraria nada.

Por causa do shutdown, quase todos os chefs de cozinha estão a abandonar a Casa Branca. A resposta de Donald Trump à debandada dos cozinheiros foi simples: mandar vir mil hamburgueres da McDonald’s, Burger King e pizzas. “Mandámos vir fast food americana. Paga por mim. Muitos hambúrgueres, muitas pizzas, acho que eles vão gostar mais do que qualquer outra coisa que pudéssemos dar”, disse o chefe de Estado dos EUA. Resta saber se alguma vez o muro fará parte daquilo que os norte-americanos vão pagar.

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