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EUA. Quando a birra é a continuação da política por outros meios
Mundo 6 min. 18.11.2020

EUA. Quando a birra é a continuação da política por outros meios

EUA. Quando a birra é a continuação da política por outros meios

Foto: dpa
Mundo 6 min. 18.11.2020

EUA. Quando a birra é a continuação da política por outros meios

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A recusa de Trump em aceitar o resultado das eleições esconde uma política com dois objetivos: obrigar os republicanos a ficarem sob o seu domínio, para se recandidatar em 2024, e ser amnistiado dos crimes judiciais de que é acusado.

Na quinta-feira passada, um conjunto de autoridades federais e estaduais ligadas ao processo eleitoral dos EUA afirmaram que não encontraram provas de adulteração de votos, nem que qualquer sistema eleitoral tenha sido invadido e corrompido durante a contagem de votos das eleições presidenciais americanas. “As eleições de 3 de novembro foram as mais seguras da história dos EUA”, garantiram os responsáveis pela segurança eleitoral, incluindo a agência Cybersecurity and Infrastructure Security (CISA) do Department of Homeland Security (DHS).

Esta declaração perentória choca frontalmente com a acusação de fraude eleitoral propagada pelo Presidente cessante, Donald Trump, endossada por vários líderes republicanos, que se recusam a reconhecer a vitória do democrata Joe Biden.

“Embora saibamos que o nosso processo eleitoral é objeto de muitas reclamações infundadas e campanhas de desinformação, podemos assegurar-vos que temos absoluta confiança na segurança e integridade das nossas eleições”, lê-se na declaração distribuída pela CISA, a agência que liderou os esforços de segurança e transparência eleitorais a nível federal. O diretor da agência, Chris Krebs, avisou os seus colegas de que Trump poderia despedi-lo por recusar-se a aceitar as acusações infundadas de fraude eleitoral, coisa que veio acontecer no final desta terça-feira. O então diretor Krebs tinha-se preocupado em defender sistematicamente a honestidade do processo eleitoral de 3 de novembro, nas redes sociais, nomeadamente na mais utilizada pelo Presidente cessante, o Twitter. Assegurando que as eleições foram seguras e que todos os votos expressos serão contados. “América, estamos confiantes na segurança do vosso voto”, postava ele em pleno processo eleitoral.

Trump agradeceu os louros das sua Administração ter criado condições para as eleições serem seguras, mas reagiu no Twitter que houve fraude eleitoral, embora mais uma vez não tenha sido capaz de provar as acusações.

“Durante anos, os democratas pregaram sobre a insegurança e manipulação” das eleições anteriores e agora aplaudem “o trabalho maravilhoso que a Administração Trump fez para fazer de 2020 a eleição mais segura da história”. Na verdade, isto é verdade, exceto pelo que os Democratas fizeram – [foi] uma eleição manipulada”, escreveu. O Twitter, como vem sendo hábito nas mensagens do atual Presidente, colocou um aviso no post, lembrando que peritos e autoridades afirmam que não existem dados que apoiem as alegações de fraude eleitoral.

Mobilizar trumpistas na rua

Perante este cenário e o falhanço sucessivo dos processos judiciais que os republicanos têm intentado para pôr em causa os resultados eleitorais é muito pouco provável que Trump esteja convencido que vai impedir a tomada de posse de Joe Biden no dia 20 de janeiro.

O que parece estar em desenvolvimento é uma estratégia para, aproveitando uma votação recorde de mais de 70 mihões de eleitores, organizar e financiar uma poderosa organização que mantenha refém o Partido Republicano, obrigando-o a obedecer a Trump ae forçando a sua eventual nomeação, como candidato, nas próximas eleições presidenciais de 2024. E, sobretudo, criar um capital de agravo, para metade da população dos EUA, que legitime que a atual Administração consiga aprovar um perdão para os crimes judiciais de que Trump é acusado e que será obrigado a responder, assim que perder a imunidade que lhe é dada pelo cargo.

É nesse contexto, que podem ser entendidas a convocação das manifestações pró-Trump que contestam a legitimidade das eleições.

Os organizadores, das marchas, tinham prometido uma maré humana “nunca vista”, e a porta-voz da Casa Branca, Kayleigh McEnany, garantiu ter visto mais de um milhão de seguidores do Trump numa praça de Washington em que teria sido difícil de acomodar menos de metade dessas pessoas. A multidão que se reuniu no sábado, 14 de novembro, na Praça da Liberdade da capital federal antes de marchar para o Supremo Tribunal dos EUA provou ser muito mais modesta, provavelmente cerca de 20.000 pessoas, segundo alguns testemunhos das autoridades locais.

Foi uma ocasião para os apoiantes do Presidente cessante, na sua maioria sem usarem máscaras, expressarem o seu apoio a Donald Trump e denunciarem o alegado “roubo” de uma eleição presidencial ganha pelo democrata Joe Biden.

Uma manifestante, citada pelo diário francês Le Monde, originária de New Jersey, garantiu que nunca tinha participado numa manifestação comparável. “Desta vez, pensei que era importante que o Presidente o nosso apoio, Trump fez tanto pelo país. É provavelmente um dos maiores presidentes do país, e preocupa-se realmente com os americanos e pessoas como eu”, disse. “Estamos aqui porque estamos preocupados, a nossa liberdade está em jogo”, acrescentou o seu marido, ao jornal francês.

O casal está “dececionado” com o resultado e convencido que Trump “foi impedido de vencer”. Mas apesar disso, expressam com cautela as suas desconfianças sobre o processo eleitoral de 3 de novembro.

“Até os votos serem verificados, não sabemos” quem ganhou de facto as eleições presidenciais.

Reconhece e não reconhece

Mais de uma semana depois de todas as projeções, com a esmagadora maioria dos votos contados e certificados, apontarem para a eleição de Joe Biden como Presidente dos EUA, Trump continua sem admitir a derrota. Pelo contrário, o chefe de Estado mantém a tese de que houve fraude eleitoral e mantém o desafio nos tribunais, mesmo que paulatinamente se perceba que as várias estratégias ensaiadas não poderão impedir a tomada de posse do novo Presidente a 20 de janeiro.

Trump partilhou no Twitter, este domingo, um excerto de um programa da Fox News em que o seu autor dizia que “alguma coisa não parece bater certo” na vitória de Biden. A acompanhar o vídeo, o Presidente em funções escreveu: “Ele ganhou porque a eleição foi manipulada”.

Mais tarde, Trump voltou ao Twitter para corrigir o tiro, provavelmente respondendo aos títulos que afirmavam que o Presidente tinha reconhecido a derrota. “Ele apenas venceu aos olhos dos MÉDIA FALSOS. Não concedo NADA!”, escreveu, reafirmando que as eleições foram “roubadas”.

Às voltas com a justiça

Normalmente, a melhor maneira de compreender as ações de Donald Trump é perguntar o que é que ele ganha com isso? Mais quatro anos na Casa Branca alargariam a sua imunidade em relação às investigações dos procuradores de Nova Iorque sobre possíveis atividades criminosas, como empresário e cidadão, de Trump; aliviariam a pressão dos credores bancários; e enriqueceriam ainda mais os seus negócios familiares.

Partindo do princípio que o Presidente não consegue impugnar estas eleições, Trump está a criar uma história, sobre a forma como os alegados corruptos democratas impediram ilegalmente a sua reeleição, o que poderá galvanizar os seguidores e doadores após a sua saída do cargo.

Segundo o Washington Post, o Presidente disse aos conselheiros na semana passada: “Vou candidatar-me apenas em 2024. Vou apenas candidatar-me novamente”. A sua campanha formou um comité de ação política, chamado Save America, que parece ter sido concebido como um meio para ele angariar fundos para influenciar o Partido Republicano após o fim da sua presidência. No fundo, Trump cria uma crise constitucional para ganhar fundos e poder voltar à tona de água em 2024.

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