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EUA. O desafio de reconstruir um país dividido
Mundo 5 min. 20.01.2021

EUA. O desafio de reconstruir um país dividido

EUA. O desafio de reconstruir um país dividido

Foto: AFP
Mundo 5 min. 20.01.2021

EUA. O desafio de reconstruir um país dividido

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Como na guerra civil que dilacerou o país durante quatro anos, Joe Biden tem pela frente o repto de conseguir superar as diferenças políticas num mandato que se antevê turbulento. A presidência Trump vai fazer parte do passado já a partir desta quarta-feira, apesar do trumpismo parecer cada vez mais enraizado na sociedade norte-americana.

Na véspera da tomada de posse de Joe Biden como Presidente dos Estados Unidos, o FBI anunciou que investigava os 25 mil membros da Guarda Nacional destacados para assegurar a segurança do evento. Com o fim de evitar qualquer sobressalto, a notícia aumentou o nível de ansiedade e preocupação sobre a sorte do homem que vai tomar as rédeas da Casa Branca.

Em circunstâncias normais, esta tomada de posse contaria com cerca de 8 mil a 10 mil militares. Depois do assalto ao Capitólio transmitido em direto para todo o mundo, todos os cuidados são poucos para o momento em que Joe Biden jurar a Constituição.

A reta final do mandato de Donald Trump teve todos os ingredientes do que se espera de uma grande produção de Hollywood. Espera-se que o assalto ao Capitólio tenha sido precisamente o último capítulo de uma série a que o planeta assistiu durante quatro anos. Não havia praticamente ninguém que não antecipasse um desfecho destes. A retórica beligerante do anterior inquilino da Casa Branca é uma marca que fica para a história política e será objeto de estudo em universidades por todo o mundo. Mas no dia em que Joe Biden assume os destinos da principal potência mundial são poucos os que acham que o trumpismo se vai evaporar da política norte-americana.

A tomada de posse de Joe Biden é precisamente a metáfora desse dramático parto de um novo Presidente. Ao mesmo tempo que se jura a Constituição norte-americana, há ainda buscas e detenções em todo o país de apoiantes de Trump que protagonizaram a invasão ao Capitólio. O FBI anunciou na segunda-feira que investiga a hipótese de Riley June Williams, uma mulher de 22 anos que participou no ataque, de ter tentado vender o computador de Nancy Pelosi à Rússia. Até ao momento mais de cem pessoas foram detidas e mais de 200 suspeitos identificados desde os acontecimentos.


Biden. Como vai decorrer a cerimónia da tomada de posse
Chegou o dia tão esperado por milhões de norte-americanos. Washinton recebe esta tarde a tomada de posse do novo Presidente dos Estados Unidos no dia em que Trump abandona a Casa Branca.

A poucas horas do fim do mandato, Donald Trump tomou decisões a nível externo que tornam a transição ainda mais difícil. A inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, a inclusão dos rebeldes Hithis do Iémen na lista de organizações terroristas e a confirmação oficial, sem provas, da utilização do Irão pela al-Qaeda como base de operações.

As primeiras medidas de Biden

Espera-se que esta quarta-feira o novo Presidente dos Estados Unidos avance com dezenas de ordens executivas para desmantelar algumas das principais decisões políticas de Donald Trump. Desde logo, Joe Biden pretende dar um sinal sobre o caminho quer escolher. Segundo um memorando interno assinado pelo futuro chefe de gabinete da Administração, o novo chefe de Estado pretende fazer regressar os Estados Unidos ao Acordo de Paris, assinado em 2015, sobre as alterações climáticas, quer acabar com as restrições de viagem a cidadãos de países maioritariamente muçulmanos e implementar rapidamente medidas para combater a pandemia de covid-19.

Joe Biden foi bastante enfático durante a campanha eleitoral sobre a necessidade de declarar guerra à infeção apoiando-se nas orientações científicas e deixando para trás a estratégia errática, e por vezes negacionista, do seu antecessor. Nesse sentido, pretende simultaneamente aprovar um pacote de ajuda financeira e a obrigatoriedade do uso de máscara em todos os edifícios federais e a suspensão do pagamento de empréstimos universitários aos bancos assim como do despejo de inquilinos por renda em falta.

É já praticamente tradição que o Presidente se estreie na Casa Branca com a assinatura de ordens executivas como forma de marcar a pauta do que aí vem. Por exemplo, Donald Trump quando substituiu Barack Obama há quatro anos decidiu aplicar restrições às viagens de cidadãos de países como o Irão, Líbia, Somália, Síria ou Iraque. Também nesse mesmo dia assinou o compromisso de construir o prometido mas inacabado muro entre os Estados Unidos e o México assim como a saída do país do Acordo Transpacífico de Cooperação Económica (TPP) e a construção de dois polémicos oleodutos em territórios indígenas.

A televisão canadiana CBC afirma que uma das intenções de Joe Biden é precisamente cancelar a licença para o oleoduto Keystone XL. A empresa TC Energy Group, que explora o oleoduto, foi contactada pela Reuters, mas não teceu qualquer comentário. O projeto Keystone XL de 9 mil milhões de dólares prevê a criação de um pipeline desde a cidade canadiana de Hardisty, em Alberta, até à aldeia americana de Steele City, no Nebraska.

Foi apresentado em 2008, mas enfrentou fortes protestos de ambientalistas e foi cancelado pelo então Presidente dos EUA Barack Obama em 2012. No entanto, em 2017, Trump aprovou novos planos para retomar a construção, provocando uma nova onda de protestos e batalhas judiciais.

Voltar a apertar a mão aos aliados

O mandato de Donald Trump marcou a rutura e o distanciamento com muitos dos tradicionais aliados dos Estados Unidos. O trabalho da equipa de Joe Biden será reconstruir os laços de confiança com muitos desses países. Espera-se a reaproximação à União Europeia e simultaneamente um discurso mais moderado com países com os quais havia avanços durante a presidência de Obama. É o caso de Cuba e do Irão. A saída dos Estados Unidos do acordo assinado pelo Ocidente com Teerão provocou o regresso dos iranianos ao enriquecimento de urânio acima do acordado.


Conselho Europeu propõe "pacto fundador" para tornar Europa e EUA "mais fortes"
O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, propôs esta quarta-feira o novo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a criação de um "pacto fundador" para tornar a Europa e a América "mais fortes".

O Médio Oriente é outra dor de cabeça para Joe Biden. As decisões de Trump e Mike Pompeo provocaram um terramoto na região. O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e o Acordo do Século que atribui ao Estado judeu a autoridade sobre parte do território palestiniano ocupado incendiou a Palestina e os seus aliados. A guerra comercial com a China é outro dos grandes desafios.

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