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Biden em Bruxelas. O começo de uma bela amizade
Mundo 6 min. 15.06.2021
EUA/EU

Biden em Bruxelas. O começo de uma bela amizade

EUA/EU

Biden em Bruxelas. O começo de uma bela amizade

AFP
Mundo 6 min. 15.06.2021
EUA/EU

Biden em Bruxelas. O começo de uma bela amizade

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Os dois blocos prometem trabalhar juntos no fim da pandemia, no clima, no comércio e tecnologia e na proteção das democracias.

A notícia mais bombástica da passagem de Joe Biden por Bruxelas, hoje dia 15, tem que ver com a trégua na mais longa disputa comercial desde que existe a Organização Mundial do Comércio (OMC). É uma disputa relativa aos construtores de aviões Airbus e Boeing e que dura há 17 anos. Mas não é ainda o fim. É uma suspensão de cinco anos das tarifas sobre exportações EUA/EU, enquanto a questão de fundo sobre os apoios aos gigantes da aviação comercial não for resolvida.

A resolução da questão sobre as companhias que ensombra as relações transatlânticas há quase duas décadas, era vista como uma base sobre a qual se criaria a nova relação amistosa entre  Washington e Bruxelas. “Temos agora tempo e espaço para encontrar uma solução duradoura através do nosso Grupo de Trabalho de Aviação, e ao mesmo tempo salvar milhões de euros em taxas aduaneiras para os importadores dos dois lados do Atlântico”, disse o vice-presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis, responsável pelas negociações com a administração norte-americana. 

A comissão de agricultura do Parlamento Europeu já se manifestou feliz com a suspensão das tarifas, que permitirá aos agricultores europeus exportarem para os EUA. Mas não são só os agricultores que podem beneficiar. Potencialmente, as tréguas terão efeitos em todo o comércio entre os dois blocos.

A guerra começou em 2004, quando os EUA apresentaram queixa na OMC contra a União Europeia, por causa dos subsídios alegadamente ilegais que o bloco estava a conceder à Airbus. 

Por seu turno, a UE também fez queixa por os EUA estarem a apoiar a americana Boeing, contra as regras concorrenciais da OMC. No final de 2019, enquanto a disputa se arrastava, os EUA e a União Europeia impuseram tarifas punitivas às importações. Como resultado, os dois blocos tiveram que pagar um total de mais de  €2,7 mil milhões em taxas aduaneiras.

Agenda Comum Transatlântica

O aperto de mãos foi dado hoje, mas está há meses a ser negociado, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, numa conferência de imprensa conjunta com Charles Michel, o presidente do Conselho Europeu, e onde Joe Biden, que já se sabe é avesso a estes encontros, não apareceu. Mas a conferência ao início da tarde foi contagiada pelo espírito pragmático do atual ocupante da Casa Branca. E a avaliar pela quantidade de temas e pontos apresentados como resolvidos, o encontro desta manhã, dia 15, de Joe Biden no edifício da Rue de la Loi com os dois representantes dos interesses europeus foi intenso. 

Ursula von der Leyen e Charles Michel
Ursula von der Leyen e Charles Michel
AFP

Foi o começo, disse Charles Michel, de “um novo pacto para uma nova aliança e um mundo melhor”. Na declaração conjunta, que levou várias horas a ser divulgada, está escrito: “Nós, os líderes da União Europeia e dos Estados Unidos, encontrámo-nos hoje para renovar a nossa aliança transatlântica, estabelecer uma Agenda Comum Transatlântica para a era pós-pandémica, e comprometemo-nos a um diálogo regular para avaliar o progresso”.  

Na lista de intenções está a declaração de que “juntos, tencionamos acabar com a pandemia de covid-19 e preparar para futuros desafios sanitários e dar impulso a uma recuperação global sustentável; proteger o nosso planeta e alimentar um crescimento verde; fortalecer a cooperação comercial, tecnológica e de investimentos; e construir um mundo mais democrático, pacífico e seguro. Estamos comprometidos a seguir a ordem internacional no âmbito das Nações Unidas, revigorar e reforçar as organizações multilaterais se for preciso e cooperar com todos que partilhem destes objetivos.

Na declaração conjunta recorda-se que juntos, “os EUA e a EU totalizam 780 milhões de pessoas que partilham valores democráticos e a maior relação económica do mundo. Temos uma hipótese e a responsabilidade de ajudar as pessoas a ter uma boa vida e mantê-las em segurança, lutar contra o aquecimento global e lutar pela democracia e pelos direitos humanos. Criámos a base da economia mundial e a ordem internacional após a II Guerra Mundial com base na transparência, competição justa, transparência e responsabilidade. Algumas regras têm que ser atualizadas: para proteger a nossa saúde, o nosso clima e planeta, para assegurar que a democracia funciona e que a tecnologia melhora as nossas vidas”. 

A nostalgia do tom teve paralelo na locução inicial de Biden na reunião privada com os amigos europeus na qual leu o poema “Terrible Beauty”, de Yeats.

Acabar com a covid-19

Charles Michel explicou que as equipas de lá e de cá trabalharam intensamente nos últimos meses para chegarem hoje aos melhores resultados. Esse trabalho foi feito em três áreas chave: covid-19; clima; comércio e tecnologia; democracia e segurança. E nestas áreas foram criados inúmeros grupos de trabalho.

No que diz respeito à covid-19, nada de diferente do que saíra das conclusões do G7: os dois blocos comprometeram-se a que até fim de 2022 dois terços da população mundial esteja vacinada, o que significa acelerar a vacinação dos países mais pobres. 

Com atuação em três aspetos: o apoio a exportações, através das doações da aliança Covax, com as doações que os países farão diretamente e aumentando a capacidade de fabrico nos países necessitados. Foi criada uma Task force EUA-UE para garantir o fabrico e as cadeias de abastecimento. Na área da saúde e de futuras emergências sanitárias, os dois blocos querem reforçar as competências e os poderes da Organização Mundial de Saúde. E insistem para que se investigue as origens da covid-19.

Salvar o planeta

Em relação às alterações climáticas, a administração norte-americana e as instituições europeias pensam o mesmo, e querem avançar para que se alcance a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, de 1.5ºC. Neste aspeto esperam liderar pelo exemplo, respeitando as metas de redução de emissões que já anunciaram. Para a cooperação neste tópico vai ser criado também um grupo conjunto ao mais alto nível entre a UE e os EUA. 


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O ponto crítico de um aquecimento global irreversível pode já ter sido ultrapassado, com as principais consequências a poderem acontecer "em cascata", alertou hoje o responsável alemão da maior expedição científica jamais realizada ao Polo Norte.

E os três presidentes combinaram acelerar os esforços diplomáticos internacionais para garantir que na cimeira do clima em novembro, a COP26 de Glasgow, os países apresentem metas ambiciosas. Von der Leyen falou de uma aliança transatlântica para as tecnologias verdes e do objetivo de criar incentivos para que a iniciativa privada invista na transição climática.

Ao nível do Comércio e da Tecnologia vai ser ainda criada uma parceria para cooperação, “para evitar desnecessárias barreiras ao comércio e para desenvolver a tecnologia europeia e norte-americana”. Von der Leyen salientou que neste aspeto os dois aliados querem “estabelecer parcerias para garantir uma Inteligência Artificial centrado nos valores humanos e combater desafios de ciber segurança”.


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Quanto às relações com a Rússia, von der Leyen salientou que a EU está “numa espiral negativa” por causa das questões de direitos humanos e “pela forma como a Rússia tem trabalhado por nos sabotar”. “Foi isso que dissemos ao presidente Biden”, explicou.

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Em causa está a disputa comercial entre Washington e Bruxelas por causa de ajudas públicas à aviação norte-americana (Boeing) e europeia (Airbus), que já dura há vários anos.