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EUA e China lançam guerra para o domínio do mundo

EUA e China lançam guerra para o domínio do mundo

Foto: AFP
Mundo 7 min. 08.08.2018

EUA e China lançam guerra para o domínio do mundo

A escalada de Donald Trump ameaçando taxar os produtos vindos da China em 25% esconde um conflito mais fundo: trata-se do domínio das novas tecnologias do futuro e de uma tentativa de impedir que a mais populosa nação do planeta se torne a primeira potência económica e mesmo militar da Terra. Contacto pediu a opinião aos economistas Francisco Louçã e Nuno Teles sobre as consequências que se preveem na economia mundial.

No dia 1 de agosto, a administração Trump aumentou a parada na guerra comercial que opõe os EUA à China. Até setembro os EUA vão decidir se vão taxar 200 mil milhões de dólares de importações chinesas com taxas alfandegárias até 25%. O governo chinês ameaçou taxar seletivamente 60 mil milhões de dólares de exportações dos EUA para o Império do Meio. Somando esta segunda ronda aos anteriores ataques e contra-ataques de taxas às trocas comerciais entre os EUA e a China, chega-se à linda quantia de cerca de 500 mil milhões dólares, dos 600 mil milhões de dólares de trocas comerciais anuais entre os dois países.

A Casa Branca "exorta a China a pôr termo às suas práticas desleais, a abrir o seu mercado e a empenhar-se em trocas comerciais verdadeiramente concorrenciais", argumentou o responsável norte-americano pelo Comércio Americano, Robert Lighthizer; por sua vez, as autoridades chinesas, em comunicado do Ministério do Comércio, defendem que a China tem de "defender a dignidade do país e os interesses do seu povo, preservar a liberdade de comércio e o sistema multilateral, e proteger os interesses de todos os países do mundo".

A contenção da resposta chinesa demonstra duas coisas: a China não pode taxar mais de 200 mil milhões de dólares de importações dos EUA, porque não importa tanto desse país, e parece ter muito mais a perder nesta guerra, até porque tem um superavit comercial de cerca de 400 mil milhões de dólares anuais e, apesar de ter cerca de 20% dos títulos de dívida dos EUA na sua mão, não tem o privilégio dos EUA de pagar as suas dívidas, ligando pura e simplesmente a impressora dos dólares, moeda de reserva de valor e meio de transação internacional.

Atacar os investimentos chineses em alta tecnologia

Esta guerra comercial é a expressão, por outros meios, de uma guerra pelo poder mundial. Em causa para os Estados Unidos, mais do que superar os défices excessivos da sua economia - obrigando os outros parceiros comerciais a pagar a falta de eficiência e competitividade da economia dos EUA, sob a ameaça de uma guerra comercial apoiada pelo super-poder militar escondido -  é fazer pressão para que Pequim acabe com o programa "Made in China" 2025, em que são apoiadas, com mais de 300 mil milhões de dólares, empresas e projetos de tecnologia intensiva e ligados a setores de ponta, como a inteligência artificial. Um plano que assusta o complexo industrial e militar dos EUA, e coloca em causa a hegemonia norte-americana na próxima vaga da revolução científica.

"Aproveitaram-se de nós", afirmou Donald Trump numa entrevista recente, "os chineses estão a roubar-nos há demasiado tempo". Há cerca de um ano, uma série de dirigentes de empresas e conhecidos quadros políticos dos EUA reuniram-se com dignitários chineses e avisaram, segundo o The New York Times, que a administração Trump estava furiosa com o programa de apoio às tecnologias de alto nível, "Made in China 2025", que tinha feito disparar todos os alarmes do Pentágono e das chefias da segurança nacional.  Apesar da pressão dos EUA, é pouco provável que o governo chinês abdique de decidir como vai dirigir a economia e que setores os fundos públicos devem apoiar prioritariamente. "Não acredito que a China vá desistir do seu projeto 'Made in  China 2025', porque está no coração da competição mundial", argumenta Da Wei, professor da Universidade das Relações Internacionais de Pequim, ao citado jornal. 

Um conflito que ainda agora começou e que surge a partir de uma posição de aparente vantagem dos EUA, após terem acalmado, na recente visita de Jean-Claude Juncker a Washington, as escaramuças comerciais entre UE e EUA. Apesar de algumas vantagens estruturais estarem nas mãos de Washington, esta guerra tem um resultado imprevisível que aumenta a instabilidade do sistema económico mundial, defende, em declarações ao Contacto, Francisco Louçã, professor catedrático do ISEG: “A guerra comercial dos EUA contra a China (e contra a UE e outras economias) começa com uma vantagem norte-americana: Trump domina os circuitos de pagamentos internacionais (foi o que obrigou as empresas europeias a saírem do Irão) e tem uma força política e militar no seu bloco; e as exportações da China para os EUA são o triplo do circuito contrário (o que significa que, se a mesma taxa for aplicada, os EUA cobram muito mais). Para mais, Trump quer a guerra, porque precisa de protecionismo em alguns produtos de consumo; a China quer o mercado aberto, porque a sua economia está em expansão. Por isso, Trump é agressivo e Xi Jinping é cuidadoso; um joga para o imediato, o outro joga na estratégia".

Para o professor do ISEG, a guerra comercial terá como único resultado certo o aumento da instabilidade no sistema económico global. "Os efeitos na economia mundial são ainda imprevisíveis. Pode vir a ser acentuada a desaceleração presente, mas o perigo maior continua no sistema financeiro e na contaminação de pânicos. O euro e o dólar são os perigos institucionais”, considera Louçã.

O comércio internacional nunca mais será o mesmo

Para já, a política de Donald Trump pode não resolver as questões do défice comercial dos EUA. Estudos apontam que a taxação de 25% das importações que os norte-americanos fazem da China poderiam apenas resultar numa descida de 5% desse défice, dado que estas importações seriam substituídas por outras provenientes de outros países da Ásia.  

Nuno Teles, Doutorado em Economia pela School of Oriental and African Studies e professor visitante na Universidade Federal da Bahia, sublinha, ao Contacto, os efeitos que esta guerra pode exercer no enterrar de instituições internacionais, como a Organização Mundial do Comércio, e na alteração dos fluxos de comércio a nível mundial.

“Ao contrário do que muitas vezes hoje parece ao ler-se a imprensa, a imposição de tarifas comerciais pelos EUA não é uma novidade da história recente. George W. Bush impôs em 2002 tarifas às importações de aço. O que é novo é o modo mais sistémico, ainda que incoerente, como a administração Trump lida com o comércio internacional, adotando uma postura mais protecionista, seja quando logo no início do mandato retirou os EUA do acordo do TransPacífico, seja agora a escalada de tarifas impostas às importações chinesas. É importante notar que esta política se alicerça no enorme défice comercial norte-americano – 566 mil milhões de dólares em 2017 -, entendido por Trump e alguns dos setores industriais que o apoiam como fonte de vulnerabilidade externa do país, ao mesmo tempo que responde aos anseios de uma classe trabalhadora vítima de anos de deslocalização e desindustrialização interna. É difícil antecipar quais serão as consequências para a economia mundial desta guerra comercial. Por um lado, a forma como ela se desenrola parece ser assente numa estratégia improvisada de ação e retaliação e não tanto numa estratégia de reindustrialização norte-americana. Os efeitos na economia norte-americana são indeterminados. A China hoje adotou um modelo de crescimento mais baseado na procura interna, menos dependente das exportações. Assim, a pressão norte-americana para uma total abertura do mercado chinês ao capital estrangeiro pode não ser bem sucedida".

O que pode ainda significar colocar os pregos no caixão de parte das instituições ditas de regulação internacionais, abrindo, segundo Nuno Teles, espaço à ação dos Estados nação e confirmando o privilégio excessivo dos EUA em matéria monetária: "Por outro lado, do ponto de vista político, esta guerra comercial e a completa implosão da Organização Mundial do Comércio que estas ações revelam são suscetíveis de permitir a outros países ganhar autonomia na sua própria política comercial e ganhar, assim, espaço para desenhar as suas próprias políticas económicas fora dos ditames das organizações internacionais. Se é certo que o défice comercial americano é entendido pela administração Trump como uma fragilidade, não devemos esquecer que os EUA detêm a capacidade de produzir a moeda de pagamento internacional, o dólar. Assim, o endividamento externo norte-americano deve ser relativizado, já que pode ser pago na sua moeda nacional (o privilégio exorbitante de que falava De Gaulle). O facto de a China deter títulos de dívida norte-americanos é sintoma da sua submissão ao poder internacional do dólar e não um mecanismo de poder face aos EUA".

Nuno Ramos de Almeida

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