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Espanha. Doação de 65 milhões a amante pode levar rei Juan Carlos à prisão
Mundo 9 6 min. 11.08.2020

Espanha. Doação de 65 milhões a amante pode levar rei Juan Carlos à prisão

Espanha. Doação de 65 milhões a amante pode levar rei Juan Carlos à prisão

AFP
Mundo 9 6 min. 11.08.2020

Espanha. Doação de 65 milhões a amante pode levar rei Juan Carlos à prisão

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
As confissões e contas na Suíça da ex-amiga íntima Corinna Larsen levaram a justiça a investigar o rei emérito espanhol sobre possíveis crimes fiscais. Agora Juan Carlos pode ser condenado.

Juan Carlos fugiu de Espanha para salvar a imagem do seu filho, o rei Felipe VI após as notícias de que o monarca emérito estaria a ser investigado a propósito de milhões que depositou em contas bancárias na Suíça, algumas em nome da ex ‘amiga íntima’ Corinna Larsen, referentes a supostas doações feitas pela monarquia da Arábia Saúdita. 

Doações que estão alvo de averiguações pelas autoridades suíças e espanholas no sentido de apurar a sua legitimidade ou se poderão constituir fraudes fiscais e crimes de branqueamento de capitais.

Advogado espanhol explica

A confirmar-se o envolvimento do rei emérito em atividades ilícitas poderá ele ser julgado, condenado e preso?

“Neste momento não há nenhuma acusação concreta contra o rei emérito. Sobre ele não recai nenhuma acusação”, começa por clarificar ao Contacto o advogado espanhol Fernando Osuna, especialista em direito penal e civil.

“Se algum dia for acusado pela justiça e se for citado para comparecer em tribunal ele terá de o fazer. Porque já não é rei de Espanha, desde que abdicou do trono, em 2014. Agora o rei é o seu filho. E sendo monarca emérito perdeu a imunidade”, explica este especialista. Esta imunidade é reconhecida pela Constituição espanhola ao chefe de estado.

 Juan Carlos pode ser extraditado

Como deixou de estar protegido por essa imunidade, Juan Carlos se for acusado formalmente pode assim “ser julgado e a ser condenado, pode ser preso”.

E mesmo estando exilado num país com acordo de extradição, neste caso, a polícia poderá repatriá-lo para o seu país para comparecer em tribunal, acrescenta Fernando Osuna que mais uma vez sublinha que, “de momento, não há nenhuma acusação contra o monarca emérito”.

De momento existem apenas suspeitas contra Juan Carlos, de 82 anos sobre a origem de parte da sua fortuna.


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Os milhões da Arábia

Atualmente, há duas frentes de investigações judiciais sobre mais de 100 milhões de euros alegadamente doados ao monarca.

Uma investigação na Suíça e outra em Espanha, pelo Supremo Tribunal Supremo e Audiência Nacional.

Num dos casos, as suspeitas recaem sobre 65 milhões de euros que Juan Carlos terá oferecido a Corina Larsen “por amor”, como a própria afirmou e que foram colocados numa conta na Suíça em nome da amiga íntima alemã, em 2012. Um presente “irrevogável”, mesmo no caso de Corinna falecer antes de Juan Carlos. O dinheiro faz parte de um alegado “presente” de 100 milhões de euros do monarca da Arábia Saudita Abdullah Bin Abdulaziz ao pai do Rei Felipe VI, em 2008.

Só que em 2014, Juan Carlos decide pedir a devolução dos 65 milhões de euros a Corinna Larsen, segundo a mesma refere numa carta enviada a Felipe VI e que o jornal El Mundo teve acesso. Corinna Larsen recusa a dar-lhe o montante. Ao que tudo indica, o pai de Felipe VI decidiu pedir os 65 milhões depois de abdicar do trono.

65 milhões oferecidos a Corinna

Por seu turno, o jornal El Espanhol teve acesso ao documento da doação dos 65 milhões de euros onde consta o nome de Juan Carlos como doador e de Corinna, na altura Corinna zu Sayn-Wittgenstein, o apelido que usava do seu ex-marido, como beneficiária.


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A atriz espanhola Barbara Rey chantageou o rei de Espanha, em 1996, ameaçando divulgar videos "explosivos" do seu romance. Juan Carlos pagou-lhe mais de três milhões de euros de um fundo criado no Grão-Ducado evitar um perigoso escândalo.

As investigações querem apurar se a doação destes milhões à amiga não se tratou de um crime de fraude fiscal por parte do monarca emérito.

Quando a doação a Corinna foi divulgada, em março, o rei Felipe comunicou ao país que renunciava à herança do seu pai relativa a dinheiros no estrangeiros, e que iria cortar a subvenção pública de 200 mil euros anuais que dava ao monarca emérito. Tudo para minorar o escândalo que já estava instalado. 

Na Suíça estão a ser investigadas desde 2018 as doações do Ministério das Finanças da monarquia da Arábia Saudita ao monarca espanhol que ascendem a 100 milhões de euros depositados em contas bancárias naquele país a um único beneficiário; Juan Carlos, e de onde foram retirados os 65 milhões para oferecer a Corinna Larsen. 

Foi neste país helvético que começaram as dores de cabeça do monarca espanhol com a investigação a incidir sobre a sua fortuna e os dinheiros da sua amiga alemã, tida como testa de ferro do monarca. Posteriormente o Ministério Público do Supremo Tribunal também passou a investigar a origem desta doação.

AFP

 As doações de 85 milhões

Em junho, a procuradoria espanhola anticorrupção reabriu uma investigação para clarificar sobre possíveis comissões pagas a várias pessoas, entre elas  a Juan Carlos, pela adjudicação da construção da linha ferroviária “Ave do Deserto”, na Arábia Saudita, a um consórcio de empresas espanholas, em 2011. Segundo o El País, o Supremo Tribunal decidiu averiguar o monarca emérito, pois já não é chefe de estado.


Juan Carlos com o seu pai.
Quase todos os Bourbons espanhóis fugiram para o estrangeiro
Juan Carlos é filho e neto de monarcas que viveram fora de Espanha. Quando o seu avô fugiu, o escritor Ramón Maria del Valle escreveu: "Os espanhóis correram com o último Bourbon, não por ser rei, mas por ser ladrão."

A justiça helvética foi a primeira a iniciar este processo há dois anos investigando as doações milionárias a Juan Carlos e a Corinna Larsen por suspeitas de branqueamento de capitais. Em causa estão cerca de 100 milhões de dólares (cerca de 85 milhões de euros) depositados pelo Ministério das Finanças da monarquia da Arábia Saudita numa conta num banco privado suíço que pertencia ao fundo Locum, do Panamá, cujo único beneficiário era Juan Carlos de Espanha, noticiou o jornal suíço Tribune de Gevène, a 3 de março. Foi desta conta que Juan Carlos fez a doação dos 65 milhões de euros a Corinna Larsen.

Dois dias depois da notícia sair neste jornal, a Espanha enviou agentes da procuradoria anticorrupção a Genebra para recolher dados sobre esta transferência de dinheiro, noticia o 20minutos.

Segundo Corinna Larsen contou estes 100 milhões de dólares teriam sido pagos ao rei Juan Carlos e a outro empresário pela mulher de um empresário saudita como comissões da adjudicação da obra.

Corinna conta tudo

Segundo Corinna Larsen contou estes 100 milhões de dólares teriam sido pagos ao rei Juan Carlos e a outro empresário pela mulher de um empresário saudita como comissões da adjudicação da obra ferroviária.  

A amante de Juan Carlos terá contado tudo a um comissário já jubilado José Manuel Villarejo, que se encontrou com ela em Londres, em 2015 conta o EL País. Na ocasião, Villarejo gravou a conversa onde a alemã lhe disse que as referidas comissões incluíram ainda um terreno em Marrocos, contas na Suíça, a geridas por testas de ferro do rei e os tais 80 milhões de euros que teriam sido entregues metade a um empresário espanhol que posteriormente transferiu tudo ou parte para Juan Carlos.


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Torra denunciou a “fuga tolerada” do rei Juan Carlos, a quem descreveu como “um fugitivo da justiça”, e instou o Governo de Pedro Sánchez a explicar se “ocultou a saída de um possível corrupto para o estrangeiro”.

As investigações continuam a decorrer e os espanhóis apesar de reconhecer o bom reinado de 40 anos de Juan Carlos querem que a verdade seja apurada, como revela um inquérito recentemente realizado. A Juan Carlos não lhe restou outra alternativa, senão deixar o seu país, encontrando-se neste momento em parte incerta. Contudo, o seu advogado já garantiu que Juan Carlos continuará a colaborar com a justiça espanhola. 

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