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Escritora boicota Feira do Livro de Frankfurt devido à presença da extrema-direita
Mundo 5 min. 25.10.2021
Alemanha

Escritora boicota Feira do Livro de Frankfurt devido à presença da extrema-direita

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Escritora boicota Feira do Livro de Frankfurt devido à presença da extrema-direita

Foto: Marvin Ruppert / Rowohlt
Mundo 5 min. 25.10.2021
Alemanha

Escritora boicota Feira do Livro de Frankfurt devido à presença da extrema-direita

Redação
Redação
"Não há lugar para nazis ao meu lado, e é por isso que não vou participar na feira deste ano", escreveu Jasmina Kuhnke no Twitter.

No ano em que a maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, escolheu o tema "Como queremos viver?", nasceu uma controversa discussão sobre a presença das editoras ligadas à extrema-direita no evento. 

O diretor do evento, Juergen Boos, diz que a iniciativa é um lugar de discussão de ideias e de liberdade de expressão, mas Jasmina Kuhnke, uma escritora afro-alemã cancelou a sua participação no evento literário.

"Não há espaço para nazis ao meu lado e é por isso que não vou participar na feira deste ano", escreveu a escritora no Twitter a propósito da presença da editora Jungeuropa, com sede em Dresden, na Feira do Livro de Frankfurt. A autora cancelou a participação na ARD Book Night, onde estava planeada a apresentação do seu romance de estreia, "Schwarzes Herz" ("Coração Negro", na tradução portuguesa). 

Segundo a DW, a Jungeuropa é dirigida pelo extremista de direita e ativista de 30 anos Philip Stein, que tinha servido anteriormente como porta-voz da imprensa da Associação de Fraternidades do Corpo Deutsche Burschenschaft (DB). Philip Stein é organizador do projeto "Ein Prozent für Unser Land" ("Um por cento para o nosso país") de financiamento de legiões de direita, que propaga ideias nacionalistas e anti-refugiados. 

O projeto "Ein Prozen" está bloqueado no Facebook, Instagram e YouTube e o mais recente relatório da agência de inteligência nacional alemã vê nele provas de intenções inconstitucionais.

Jasmina Kuhnke tinha sido convidada pela emissora pública ARD para um painel de discussão que não foi anunciado com antecedência. Segundo a autora, só poderia ter lugar com medidas de proteção após "ameaças da direita" a Jasmina. Ao mesmo tempo, a escritora descobriu que a Jungeuropa iria apresentar livros não muito longe do palco onde se daria a sua apresentação, noticiou a DW.


Alemanha. Maior feira do livro do mundo abre portas em Frankfurt
Sob o lema "re:connect", o evento decorrerá de 20 a 24 de outubro. Este ano, o convidado de honra é o Canadá.

Como chefe do projeto comunitário de extrema-direita, Philip Stein escreveu abertamente que Jasmina Kuhnke deveria ser deportada, afirmou a autora. A presença de Philip torna mais provável a presença de extremistas de direita na feira do livro, "o que torna a ameaça omnipresente para a autora", considera a própria. Dar espaço aos nazis para se apresentarem na feira é intolerável, considera ainda. "Eu não falo com nazis. Eu não ouço nazis. Não leio livros de nazis", escreveu no Twitter. 

Na publicação, explica que mesmo que a decisão signifique menos publicidade para o seu livro, a autora decidiu cancelar todas as suas participações na feira. Tudo o que pode fazer para se proteger como "mulher Negra é boicotar o evento", afirmou.

Já os organizadores do evento consideram que nenhuma lei foi violada e defendem a presença da editora de direita. "Enquanto as opiniões não violarem nenhuma lei, todos devem poder participar na troca de opiniões na feira", disse o organizador Juergen Boos à rádio Deutschlandfunk, acrescentando que lamenta "que a autora não esteja a participar neste debate". A segurança é garantida, assegura Boos, que defende que o certame como uma plataforma para o discurso político "faz parte do ADN da Feira do Livro".

Os apoios à escritora afro-alemã têm surgido nos últimos dias. O Centro Educacional Anne Frank em Frankfurt expressou a solidariedade com Kuhnke. "É um desastre para a nossa cultura de debate aberto quando os afetados pelo racismo, antisemitismo e misantropia se retiram da Feira do Livro de Frankfurt como a maior feira de debate do país porque não se sentem seguros", diz o diretor Meron Mendel. Para Mendel, ataques como os da sinagoga de Halle, aos bares de shisha em Hanau e o assassinato do antigo deputado Walter Lübcke há dois anos "deixaram bem claro que a ideologia venenosa da direita representa um perigo concreto para as vidas humanas". Tanto que o centro pondera criar uma arena em plataformas cívicas proeminentes como a Feira do Livro de Frankfurt "contribui para a normalização e difusão do ódio".  

"A Feira do Livro de Frankfurt não deve oferecer a estas editoras um palco, nem mesmo no canto mais distante", concordou Michael Müller, porta-voz da política cultural do grupo do Partido da Esquerda na Câmara Municipal de Frankfurt, citado pelo DW, acrescentando que isso não significaria certamente restringir o direito fundamental à liberdade de expressão na Alemanha. 

O debate sobre as editoras de direita na feira do livro não é novo. A questão foi discutida a quente no período que antecedeu o certema em 2017, bem como a Feira do Livro de Leipzig desse ano. Estas sempre foram vistas como um local de intercâmbio e liberdade de opinião. No entanto, a imprensa alemã tem questionado onde está a fronteira entre a liberdade de expressão e incitação? Há quatro anos , o diretor do evento em Frankfurt, Boos, deixou claro que não havia base legal para proibir as editoras de direita. "Uma ideia não desaparece com a sua proibição", disse Boos à DW na altura. 

"Se levamos a liberdade de expressão a sério, devemos também concedê-la àqueles cujos valores e opiniões não partilhamos, na verdade, cujas opiniões consideramos perigosas", afirmou também na altura Heinrich Riethmüller, o chefe da Associação Alemã de Editores e Livreiros. 

No início desta semana, a Jungeuropa respondeu no Twitter à declaração de Kuhnke sobre o cancelamento da sua participação na feira do livro. "A 'convidada surpresa' (alegadamente) cancelou a sua comparência devido à nossa participação. O que resta: uma mulher que, aparentemente, acredita realmente que algum desertor a conheceria ou se interessaria por ela. Absurdo", respondeu. Em 2017 a polícia teve de intervir na banca de uma editora de direita, perto do final da feira em Frankfurt. Tanto esta como a de Leipzig reviram posteriormente as suas regras de segurança. 

A Feira do Livro de Frankfurt termina no próximo domingo, dia 31 de outubro, com a atribuição do Prémio da Paz do Comércio do Livro Alemão a Tsitsi Dangarembga, um autor de 62 anos do Zimbabué.

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