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Escritor brasileiro percorre África em busca de histórias infantis dos países de língua portuguesa
Mundo 4 min. 18.08.2015 Do nosso arquivo online

Escritor brasileiro percorre África em busca de histórias infantis dos países de língua portuguesa

Escritor brasileiro percorre África em busca de histórias infantis dos países de língua portuguesa

Foto: Chris Karaba / CONTACTO
Mundo 4 min. 18.08.2015 Do nosso arquivo online

Escritor brasileiro percorre África em busca de histórias infantis dos países de língua portuguesa

O escritor brasileiro Rogério Andrade Barbosa percorre há mais de 25 anos o continente africano para recolher histórias infantis e preservar a tradição oral, e tem vários livros dedicados aos países de expressão portuguesa.

O escritor brasileiro Rogério Andrade Barbosa percorre há mais de 25 anos o continente africano para recolher histórias infantis e preservar a tradição oral, e tem vários livros dedicados aos países de expressão portuguesa.

Com mais de 90 livros publicados e vários prémios literários, incluindo o prémio da Academia Brasileira de Letras na categoria de literatura infanto-juvenil, atribuído em 2005, o escritor publicou já várias recolhas de contos infantis da Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde e Moçambique, e lançou em Julho um livro sobre São Tomé e Príncipe, o último país de expressão portuguesa que visitou.

"Dos países de língua portuguesa, só falta Timor, mas eu chego lá", disse o escritor à Agência Lusa.

Nas histórias recolhidas por Rogério Andrade Barbosa, cruzam-se lendas e narrativas da cultura oral africana, povoadas por animais e seres mitológicos como o lubu, a hiena guineense, Kianda, a sereia dos rios e dos mares em Angola, ou "Sun Tataluga", a tartaruga que é a heroína da maioria das histórias infantis de São Tomé e Príncipe.

Para recolher os contos, o escritor, que vive no Rio de Janeiro, viaja com frequência para vários países africanos, onde visita escolas, pedindo às crianças que lhe contem as histórias ouvidas aos pais e avós.

"A partir daí faço uma seleção e reescrevo as histórias com uma forma literária", explicou o escritor, que foi professor e é especialista em literatura afro-brasileira.

Os contos, escritos em português, incluem quase sempre frases e expressões dos dialetos locais, como o "changana" de Moçambique, o "forro" de São Tomé, o quimbundo de Angola ou os vários crioulos falados nos países africanos de expressão portuguesa, que o escritor aprendeu quando foi voluntário da ONU na Guiné-Bissau, em 1979.

"Eu falo crioulo da Guiné-Bissau, e isso ajudou-me muito. Em Angola e Moçambique, que não têm crioulo, todos falavam português na escola, ao contrário da Guiné, de Cabo Verde e São Tomé. Muitas crianças começam a contar a história em português e continuam em crioulo", disse à Lusa o escritor.

Foi na Guiné-Bissau, país onde foi professor de português de 1979 a 1980, que começou a paixão de Rogério Andrade Barbosa pelas narrativas africanas.

Quando regressou ao Brasil, após dois anos no país, tinha "dois grossos diários" com histórias e lendas guineenses, e decidiu passar a escrito os contos que recolheu.

"Nessa altura não havia nada para crianças e jovens sobre os contos tradicionais africanos. Eu tinha visto tanta coisa que resolvi criar um avô africano que contava histórias aos netos, e mandei para várias editoras", recordou.

"Bichos da África", publicado pela editora Melhoramentos em 1988, foi finalista do Prémio Jabuti, o mais importante prémio literário do Brasil, e venceu o prémio para melhor ilustração, tendo sido traduzido para inglês, alemão e espanhol.

"Isso abriu-me as portas. Fui pesquisando mais e voltei a África outras vezes para recolher histórias", contou Rogério Andrade Barbosa, que desde então publicou cerca de uma centena de livros, a maioria dedicados às histórias do continente africano.

O mais recente livro do escritor, sobre São Tomé e Príncipe, foi publicado em Julho
O mais recente livro do escritor, sobre São Tomé e Príncipe, foi publicado em Julho

Para o escritor, a televisão e a internet ameaçam a tradição de contar histórias em África, o que torna mais urgente a recolha dos contos tradicionais e a preservação da cultura oral africana, defende.

No Príncipe, onde esteve pela primeira vez em 2013, ainda encontrou "muitas crianças que mantêm o hábito de contar histórias", fruto do isolamento e da falta de recursos, numa ilha onde até a eletricidade é racionada.

"Como no Príncipe a luz se apaga à meia-noite, encontrei muitas crianças a contar histórias, porque as pessoas mantêm esse hábito", explicou.

Foi aliás em São Tomé que o escritor ouviu uma nova variação de uma história tradicional com a tartaruga, um conto comum noutros países do continente africano, incluindo no Quénia ou na Tanzânia.

"Muitas vezes, a mesma história é contada noutros lugares, mas com variações. Em São Tomé e Príncipe, um menino de oito anos contou-me uma versão da história da tartaruga que eu nunca tinha escutado", disse à Lusa.

O livro, intitulado "Histórias de Sun Tataluga que as crianças me contaram em São Tomé", já está à venda no Brasil.

Paula Telo Alves / Lusa

Clique para ler alguns dos contos:

Angola: Domikalinga

Cabo Verde: Com a Tia Ganga não se brinca

Guiné-Bissau: Não chore ainda não

Moçambique: O coelho sem coração

São Tomé e Príncipe: Quem tudo quer tudo perde