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Escândalo em Oxford. Mundo académico chocado com papiros roubados
Mundo 9 min. 12.01.2020

Escândalo em Oxford. Mundo académico chocado com papiros roubados

Escândalo em Oxford. Mundo académico chocado com papiros roubados

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Mundo 9 min. 12.01.2020

Escândalo em Oxford. Mundo académico chocado com papiros roubados

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Um reputado professor de estudos clássicos está a ser investigado por roubar e vender papiros e por ter forjado achados. Dirk Obbink terá vendido um duvidoso fragmento da Bíblia do século I e inventado um poema de Safo. O mundo académico está em choque

Há algo a abanar no reino de Inglaterra quando a monarquia permite um Megxit. Mas um escândalo transatlântico ainda mais pernicioso - embora menos publicitado - aconteceu recentemente na Universidade de Oxford e está a deixar os académicos perplexos.

Dirk Obbink, um catedrático de reputação internacional e professor em Oxford, é suspeito de ter vendido sem autorização 11 fragmentos de valiosos papiros - pertencentes à Egypt Exploration Society (EES)- a uma família norte-americana evangelista que em 2017 abriu em Washington um mais do que controverso Museu da Bíblia.

Esta semana, uma investigação do jornal Guardian mostrou toda a dimensão da fraude alegadamente montada por Dirk Obbink, um enredo típico da moderna versão da série Sherlock Holmes. Um episódio até demasiado rocambolesco para ser verdade e que envolve vendas ilícitas, roubo e fraude científica no seio venerável da academia. Como se conta no jornal inglês Guardian, a investigação ainda não é conclusiva: “Parece que o professor Dirk Obbink é um ladrão, foi apanhado num equívoco monumental, ou, talvez, mais chocante ainda, está a ser tramado por alguém”, escreve a jornalista.

Um lugar de topo

Dirk Obbink, de ascendência holandesa, nasceu nos EUA há 63 anos e formou-se em Estudos Clássicos e Papirologia na Universidade do Nebrasca. Em 1995 trocou o ensino na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, pela mais velha universidade de língua inglesa, onde desde então leciona Literatura Grega e Papirologia na Faculdade Clássica, integrada no Christ Church College (sim, o da fachada do Harry Potter).

Trocar Columbia por Oxford quando se trata de estudos sobre a antiguidade é um grande salto na carreira. Oxford tem não só o maior departamento de estudos clássicos (grego e latim) de qualquer universidade no mundo, e um dos mais antigos, como também desenvolve projetos científicos únicos, entre os quais o Projecto dos Papiros de Oxyrhynchus, que está agora no centro da polémica. Por isso, o professor norte-americano detinha um dos lugares de topo a nível mundial da sua área e à volta do seu nome foi sendo construído um culto.

Em 2001, Obbink recebera uma bolsa MacArthur, (a chamada bolsa ‘génio’) pela sua perícia “em salvar antigos manuscritos da devastação do tempo”. Escreve a jornalista do Guardian: “No decurso da sua carreira recebeu milhões em financiamento e está, em teoria pelo menos, a dirigir o projeto do rolo de papiros carbonizado na erupção do Vesúvio no ano 79 A.D”.

Com todos estes pergaminhos é difícil perceber como alguém a este nível arrisca tanto. Ganância e confiança na incapacidade das autoridades académicas de denunciarem o roubo? Ou, pior ainda, há alçapões que permitem, um pouco por todo o mundo, que obras valiosas sejam desviadas e a descoberta de Obbink é apenas a ponta do icebergue? Até que ponto o escândalo irá manchar a reputação da mais velha universidade de língua inglesa?

Obbink foi suspenso da universidade em outubro, embora o seu nome ainda apareça no site do Christ Church College na lista dos docentes (mas sem que o link para a sua biografia funcione). Em agosto do ano passado, no auge da polémica, a EES retirara-lhe a direção do Projeto dos Papiros de Oxyrhynchus. E em Novembro, esta organização anunciou publicamente que na coleção denominada Papiros de Oxyrhynchus, com cerca de meio milhão de valiosos fragmentos, 120 estarão desaparecidos. Desses, 6 foram localizados na posse de um colecionador privado na Califórnia e outros 13 na posse do Museu da Bíblia de Washington. Tanto o museu como o colecionador californiano aceitaram devolver os fragmentos. No site, a direção do EES esclarece que o caso foi entregue à polícia e as investigações estão em curso.

Antiguidades na mesa de bilhar

O Guardian conta como tudo terá acontecido. Obbink recebia amiúde visitas nos seus aposentos em Christ Church, descritos como semelhantes aos cenários de Indiana Jones: em cima de uma mesa de bilhar não era raro ter máscaras mortuárias de múmias, papéis, manuscritos antigos e papiros.

Em 2011, duas visitas invulgares foram recebidas. Os estranhos eram Scott Carroll e Jerry Pattengale, mandatários da família Green, donos do império das lojas de bricolage e artesanato Hobby Lobby nos Estados Unidos. Destacados membros de uma igreja evangelista norte-americana, os Green andavam a reunir artefactos para um ambicioso museu da Bíblia a abrir em Washington.

Scott Carroll, então nomeado diretor do futuro museu, corria o mundo a comprar peças a um ritmo estonteante. Torás, manuscritos antigos e papiros do Novo Testamento mudaram de mãos a um ritmo alucinante entre 2009 e 2012 e “fortunas foram feitas”, calcula o Guardian.

No entanto, contou Pattengale, a visita ao professor de Oxford foi feita na qualidade de perito e consultor. Mas no momento da partida, Obbink, abriu um envelope e mostrou-lhes quatro fragmentos de bíblias, um de cada um dos evangelhos. Três seriam do século II, mas um quarto, com 4cm de lado, era ainda mais impressionante. Foi apresentado como sendo um fragmento do Evangelho de Marcos, do século I, - copiado 30 anos após o autor ter redigido os seus testemunhos da vida de Jesus - o que faria dele o mais velho manuscrito do Novo Testamento que sobreviveu até aos nossos dias. A ser verdade, para um arqueólogo ou especialista em antiguidades, isto seria uma revelação quase tão emocionante como localizar o Santo Graal.

Não houve nenhuma transação na altura mas, segundo as declarações de Carroll ao Guardian, Obbink terá proposto a venda. O fragmento acabaria de facto nas mãos dos Green, vendido por Obbink, como atesta uma fatura de 2013. E, aparentemente, o professor já teria vendido outros 11 fragmentos em 2010.

A ser verdade, Obbink vendeu o que não era dele. Os fragmentos fazem parte de uma coleção de cerca de meio milhão de papiros antigos, propriedade da EES e guardadas na Biblioteca Sackler de Oxford.

Um tesouro na lixeira em Oxyrhynchus

A coleção foi encontrada numa escavação no Egito, no final do século XIX, por dois arqueólogos de Oxford, no local da antiga cidade grega de Oxyrhynchus -

no que teria sido uma lixeira - e permanece ainda como um dos maiores tesouros arqueológicos de sempre.

Até então, os escritos mais antigos que se conheciam provinham do século X. A revelação de Oxyrhynchus colocou então os estudiosos vitorianos em contato com um passado muito mais longínquo, através dos textos que remontavam ao século III a.C. Incluindo poemas, receitas, cartas, declarações de impostos, fragmentos de textos religiosos, os papiros encontrados em 1896 cobrem cerca de 700 anos de história e são uma ligação direta para a Antiguidade. A análise dos papiros (o antepassado do papel) transformou o conhecimento que se tinha até então da civilização greco-romana. E continua a transformar.

O tesouro trazido para Inglaterra abriu uma nova linha de estudos clássicos: a Papirologia. Desde a chegada de todo este espólio a Oxford, gerações de académicos e cientistas debruçaram-se sobre os valiosos fragmentos, recuperando, interpretando e editando os escritos. Até então foram revelados pouco mais de 5 mil fragmentos (do total de 5 milhões da coleção) nos 83 volumes até hoje publicados em livro sobre o tema.

Sendo propriedade da EES, a coleção está guardada na Biblioteca Sackler (integrada no Christ Chirch College) e o projeto de desvendar os seus mistérios recai, a cada dado momento, na responsabilidade de três editores. Obbink era um deles e nessa qualidade tinha acesso sem restrições ao material.

Numa declaração, Obbink negou as acusações de furto: ”Nunca trairia a confiança dos meus colegas e os valores que defendi durante a minha carreira académica. Há documentos que estão a ser usados contra mim e que foram forjados de forma a danificar a minha reputação e carreira”.

Mas o provável roubo não é o único momento estranho na carreira do académico. E, agora, todo o passado está a ser revisto à luz dos seus expedientes.

Em janeiro de 2014, Obbink anunciou a descoberta de dois fragmentos de Safo. A publicação dos novos textos da poeta do século VII a.C. foi acolhida mundialmente como uma novidade extraordinária, boa demais para ser verdade. Mas com a reputação danificada, muitas dúvidas agora recaem sobre a autenticidade do poema descoberto. O professor universitário português Frederico Lourenço, especialista de grego clássico, é um deles. Na sua página de Facebook manifesta-se “absolutamente estupefacto” com a leitura do longo texto do Guardian. E no que respeita em particular ao ‘novo’ poema de Safo refere: “Estou aliviado pela minha decisão de manter fora da edição do meu livro Poesia Grega os alegados novos fragmentos de Safo, em relação aos quais sempre senti que havia muitas explicações a dar”.

E quanto ao alegado papiro do Evangelho de Marcos, do século I, que chegou alegadamente ao museu de Washington, o académico português e tradutor da Bíblia a partir do grego, refere “isso é coisa de Indiana Jones (ou Alves dos Reis)!”.

De facto, até ao momento, a veracidade sobre o fragmento que o Museu da Bíblia de Washington se preparava para expor, está a inquietar os estudiosos. O fragmento nunca foi até hoje visto ou analisado por nenhum perito, embora o museu de Washington tivesse anunciado a sua futura divulgação e os rumores se tenham espalhado. A hipótese é que além de ter roubado a EES, Obbink terá ainda ludibriado a família Green.

Colegas de Obbink, ouvidos pelo Guardian, afirmam ter dificuldade em acreditar em toda a tramóia. Mas há um que refere que ao longo dos anos ele “tornou-se intocável”.

Pormenor pouco abonatório: em 2014, o professor de Oxford comprou uma imitação de um castelo gótico no Texas, o Cottonland Castle. Um sinal de megalomania que não devia ter passado despercebido.

Em 2016, à Egypt Exploration Society começou a cheirar a esturro e as investigações sobre o que se passava com o seu espólio começaram. Entretanto há 101 fragmentos por localizar (dos 120 que foram dados como desaparecidos) e reputações em risco. Com tudo isto os estudos clássicos estão a levar um grande abanão.