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Era frequentadora de casas de chá
Opinião Mundo 3 min. 22.10.2020

Era frequentadora de casas de chá

Era frequentadora de casas de chá

Opinião Mundo 3 min. 22.10.2020

Era frequentadora de casas de chá

Redação
Redação
Há uns dias, voltámos, como nos velhos carroceis de feira, a discutir a quantidade de pele que uma mulher, chefe de governo, jovem e bonita mostrou em público. Basta escrever decote no Google, para o motor de busca preencher automaticamente o nosso voyeurismo com as palavras da primeira ministra da Finlândia. A crónica de opinião de Filipa Martins é publicada às quintas-feiras.

 Há uns dias, voltámos, como nos velhos carroceis de feira, a discutir a quantidade de pele que uma mulher, chefe de governo, jovem e bonita mostrou em público. Basta escrever decote no Google, para o motor de busca preencher automaticamente o nosso voyeurismo com as palavras da primeira ministra da Finlândia. O peito de Sanna Marin terá provocado vertigens em espíritos cansados e, cada vez que a pele ocupa o espaço mediático secundarizando as ideias, lembro-me da escritora portuguesa Natália Correia.

Na década de 40, Natália era frequentadora de casas de chá. A frase, aparentemente banal, se atirada para o convénio de um jantar de classe alta lisboeta, em pleno Estado Novo, soava a insulto. Ou, pelo menos, no caso de uma mulher casada ou em idade de casar denunciava fraco virtuosismo ou recato. O comportamento mereceu o reparo do chefe de brigada da polícia política em Novembro de 1947 - Natália “é frequentadora das casas-de-chá, mas publicamente não apresenta as suas ligações, não acompanhando também com pessoas certas”. Escrito desta forma, com a formalidade de um relatório da PIDE, bebericar chá e trincar pastéis ganhava uma dimensão política ou, no mínimo, um traço de caráter de contornos suspeitos. Natália sabia que havia uma barreira que era transposta, talvez menos corpórea do que as portas envidraçadas de batente das elegantes casas de chá da Baixa de Lisboa. Em 'Anoiteceu no Bairro', o primeiro romance da autora, Joana, personagem bem casada com um marido aborrecido e respeitador, teve consciência da prevaricação quando não resistiu “ao cheiro anestésico de perfumes e cigarros” e à “baforada agradável de bolos e pastéis”.

Seriam os homens que “iam mirando as mulheres que passavam”, o facto de todas elas fumarem, “uma das manifestações mais absurdas e grotescas do chamado feminismo”, ou o comportamento dos frequentadores, que “trocavam olhares de mesa para mesa, entreolhando-se numa expectativa comum de qualquer acontecimento extraordinário” as razões da má fama daqueles lugares?

Imaginamo-la a entrar e a fazer virar cabeças nesses espaços de confraternização como Martins Gomes a pintou num quadro a óleo de 1980: de sombrinha e chapéu de plumagens, como aquele que Natália Correia emprestou à sua personagem Joana, a caminhar no Passeio Público ao lado da irmã Carmen. Sorriso escarlate e olhar cúmplice de quem fazia, nas palavras de Dórdio Guimarães, o seu último marido, dobrar as árvores da Avenida da Liberdade em vénias. Sabemos que o poder de prosopopeia de Natália não se limitou aos plátanos da artéria principal da capital, também Manuel da Fonseca assegurava que, quando Natália e a irmã desciam a Morais Soares, as árvores se afastavam.

 O arrebite irónico que Martins Gomes lhe imprimiu nos lábios serve de faísca à provocação: quem a via passar julgava que as árvores ganhavam vida por se verem testemunhas da sua beleza de juventude; porém, foram as ideias e a poética de Natália que deram voz à floresta. Em 'A Vinha e a Lira', vaticinou que “os sonhos vão erguer-se sobre as patas traseiras e as árvores vão gritar o seu direito ao voto”. Estávamos em 1966. A obra foi, naturalmente, censurada e recolhida, mas as ideias germinaram, não se ficando pelo cair da folha. Se algum dia me quiserem elogiar, digam - simplesmente - 'era frequentadora de casas de chá'.

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